 SARA  SHEPARD
                                            TRADUO
                                        FAL AZEVEDO
ROCCO
JOVENS LEITORES
Para JSW
Ttulo original
FLAWLESS
Pretty Little Liars Novel
Copyright (c) 2006 by Alloy Entertainment e Sara Shepard
Todos os direitos reservados; nenhuma parte desta obra pode ser
reproduzida sob qualquer forma sem autorizao do editor.
Direitos para a lngua portuguesa reservados
com exclusividade para o Brasil 
EDITORA ROCCO LTDA.
Av. Presidente Wilson, 231 - 8 andar
20030-021 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 3525-2000 - Fax: (21) 3525-2001
rocco@rocco.com.br
www.rocco.com.br
Printed in Brazil/Impresso no Brasil
preparao de originais
AMANDA ORLANDO
CIP-Brasil Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
S553i     Shepard, Sara, 1977-
Impecveis / Sara Shepard; traduo de Fal Azevedo
Primeira edio. - Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2011.
(Pretty little liars; v.2) - Traduo de: Flawless: pretty little liars novel
Sequncia de: Maldosas
ISBN 978-85-7890-026-9
1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Segredo - Literatura infantojuvenil.
3. Conduta - Literatura infantojuvenil. 4. Fico policial norte-americana.
5. Literatura infantojuvenil norte-americana I. Azevedo, Fal, 1971-. II. Ttulo. III. Srie
10-0981                CDD - 028.5        CDU - 087.5
O texto deste livro obedece s normas do
Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
Olho por olho, e todos ficaro cegos.
                - GANDHI
COMO TUDO  REALMENTE COMEOU
Voc conhece aquele garoto que mora a algumas casas descendo a rua e que  simplesmente a pessoa mais esquisita do mundo? Quando voc est na varanda da frente da
sua casa, quase dando um beijo de boa-noite em seu namorado, voc pode v-lo do outro lado da rua, parado ali, olhando tudo. Que, de vez em quando, aparece do nada
quando voc est no meio da sua sesso de fofocas com suas melhores amigas - s que talvez no seja to de vez em quando assim. Ele  o gato preto que parece conhecer
seus caminhos. Se ele passa em frente  sua casa, voc pensa: Vou me dar mal na prova de biologia. Se ele olha para voc de um jeito engraado,  melhor voc se
cuidar.
        Toda cidade tem um garoto-gato-preto. Em Rosewood, o nome dele era Toby Cavanaugh.
-Acho que ela precisa de mais blush. - Spencer Hastings se afastou e deu uma boa olhada em uma de suas melhores amigas, Emily Fields. - Eu ainda consigo ver as sardas.
        - Tenho corretivo da Clinique. - Alison DiLaurentis saiu correndo para pegar sua ncessaire de maquiagem, de veludo azul.
        Emily se olhou no espelho apoiado na mesinha de centro da sala de visitas da casa de Alison. Virou o rosto para um lado, depois para o outro e fez beicinho 
com seus lbios cor-de-rosa.
        - Minha me me mata se me vir com tudo isso na cara. 
        -Tudo bem, mas a gente mata voc se tirar - advertiu Aria Montgomery, que estava, por motivos que s ela conhecia, se exibindo pelo quarto, metida num suti 
angor, que tricotara recentemente.
        - , Em, voc est linda - concordou Hanna Marin. Hanna sentou de pernas cruzadas no cho, se virando para verificar se no estava pagando cofrinho em seu 
jeans Blue Cult, pequeno demais e de cintura baixa.
        Era uma noite de sexta-feira de abril e Ali, Aria, Emily, Spencer e Hanna estavam fazendo o que sempre faziam quando dormiam umas nas casas das outras, no 
sexto ano: maquiando-se exageradamente, se entupindo de batata frita sabor vinagre e sal e assistindo a Cribs na MTV, na televiso de tela plana de Ali. Naquela 
noite, o quarto estava ainda mais bagunado, porque as roupas de todas estavam espalhadas pelo cho, j que elas haviam decidido trocar as roupas entre si pelo resto 
do ano escolar.
        Spencer ergueu um cardig amarelo-limo de cashmere na frente do corpo.
        - Pega para voc - disse Ali. -Vai ficar legal.
        Hanna colocou uma cala de veludo cotel verde-oliva de Ali em volta de seus quadris, virou-se para Ali e fez uma pose.
        - O que voc acha? Ser que o Sean ia gostar?
        Ali gemeu e bateu em Hanna com uma almofada. Desde que elas haviam ficado amigas, em setembro, tudo sobre o que Hanna conseguia falar era do quanto ela amaaaaaava 
Sean Ackard, o menino da sala delas no colgio Rosewood Day, onde estudavam desde o jardim de infncia. No quinto ano, Sean era apenas mais um menino baixinho e 
sardento, mas, durante o vero, ele crescera alguns bons centmetros e perdera sua gordura de beb. Agora, todas as garotas queriam beij-lo.
        Era incrvel quanta coisa podia mudar em um ano.
        As garotas - todas, menos Ali - sabiam disso muito bem. No ano passado elas estavam apenas... ali. Spencer era a garota certinha, que se sentava nas carteiras 
da frente da classe e erguia a mo para responder a todas as perguntas. Aria era a maluquinha que inventava coreografias em vez de jogar futebol como o restante 
da turma. Emily era a nadadora tmida e bem classificada no ranking estadual, que tinha toda uma vida escondida sob a superfcie - se voc conseguisse chegar a conhec-la. 
E Hanna podia at ser boba e espalhafatosa, mas estudava a Vogue e a Teen Vogue e, de vez em quando, dava alguns conselhos sobre moda, vindo sabe Deus de onde, mas 
que ningum mais sabia.
        Havia algo de especial em cada uma delas, claro, s que elas viviam em Rosewood, Pensilvnia, um subrbio a mais de trinta quilmetros da Filadlfia, e tudo 
era especial em Rosewood. O cheiro das flores era mais doce, a gua tinha um gosto melhor, as casas eram maiores. As pessoas costumavam brincar dizendo que os esquilos 
de l passavam a noite limpando tudo por ali e capinando os dentes-de-leo que nasciam por entre as pedras do calamento para que Rosewood parecesse perfeita para 
os moradores. Num lugar onde tudo parecia to impecvel, era difcil manter-se  altura.
        Mas, de alguma forma, Ali conseguia. Com seu cabelo longo, seu rosto em formato de corao e seus enormes olhos azuis, ela era a garota mais linda da regio. 
Depois que Ali as uniu e as fez ficarem amigas - algumas vezes parecia que ela as havia descoberto -, as garotas tinham mesmo algo a mais em suas vidas. De repente, 
elas tinham passe livre para fazer todas as coisas que jamais ousaram antes. Como vestir saias curtas no banheiro das meninas de Rosewood Day depois que desciam 
do nibus escolar. Ou mandar bilhetinhos com marca de batom para os meninos da sala. Ou andar pelo corredor de Rosewood Day lado a lado, intimidadoras, ignorando 
os perdedores.
        Ali pegou um batom bem vermelho e passou em seus lbios.
        - Quem sou eu?
        As outras riram. Ali estava imitando Imogen Smith, uma garota da sala delas que gostava um pouco demais de seu batom Nars.
        - No, espera a. - Spencer apertou as bochechas dela e passou uma almofada para Ali.
        - Legal.-Ali colocou a almofada embaixo da camiseta polo, pink, e todas riram ainda mais. Corria o boato de que Imogen tinha ido at o final com Jeffrey 
Klein, um menino do dcimo ano, e que ela estava grvida dele.
        -Vocs, garotas, so malvadas. - Emily ficou vermelha. Ela era a mais recatada do grupo, talvez por causa de sua criao supersevera... seus pais achavam 
que toda diverso era do mal.
        - O que foi, Em? -Ali ficou de braos dados com Emily. -Imogen est muito gorda. Ela deveria desejar estar grvida.
        As garotas riram de novo, mas um pouco sem jeito. Ali tinha talento para encontrar a fraqueza de uma menina e, mesmo que ela estivesse certa sobre Imogen, 
as meninas de vez em quando se perguntavam se Ali no falaria mal delas quando no estivessem por perto. s vezes, era difcil ter certeza.
        Elas recomearam a vasculhar as roupas umas das outras. Aria amou de paixo um vestido Fred Perry, ultraelaborado, de Spencer. Emily estendeu a minissaia 
jeans sobre seu corpo e perguntou s outras se no era curta demais. Ali achou o jeans Joe, de Hanna, com um ar meio boca de sino demais e o tirou, mostrando seus 
shorts aveludados rosa claros, de menino. Quando estava passando pela janela para ir ligar o som, ela congelou.
        - Ah, meu Deus! - gritou ela, correndo para trs do sof cor de amora.
        As meninas deram meia-volta. Toby Cavanaugh estava na janela. Ele estava... bem parado ali. Olhando para elas.
        - Ei, ei, ei! -Aria cobriu o peito. Ela havia tirado o vestido de Spencer e estava usando apenas o suti tricotado. Spencer, que estava vestida, correu para 
a janela.
        - Afaste-se de ns, pervertido! - gritou ela. Toby deu um sorriso malicioso antes de se virar e sair correndo.
        A maioria das pessoas mudava de calada quando via Toby. Ele era um ano mais velho que as meninas, plido, alto e magricela, e sempre vagava sozinho pela 
vizinhana, parecendo espionar a todos. Elas haviam ouvido rumores sobre ele: que fora pego beijando seu cachorro na boca; que era um nadador to bom porque tinha 
guelras em vez de pulmes; que dormia em um caixo dentro de sua casa na rvore, no quintal dos fundos.
        S havia uma pessoa com quem Toby falava: sua meia-irm, Jenna, que estava no mesmo ano que elas. Jenna tambm era uma idiota sem salvao, apesar de muito 
menos assustadora - ela, pelo menos, era capaz de formular frases completas. E at tinha uma certa beleza, de um jeito montono, com seu cabelo escuro e espesso, 
olhos verdes, grandes e intensos, e lbios vermelhos e grossos.
        - Eu sinto como se tivesse sido violada. - Aria torceu seu corpo naturalmente magro como se ele estivesse coberto de bactrias E. coli. Ela havia acabado 
de aprender sobre isso nas aulas de biologia. - Como ele ousa nos assustar?
        O rosto de Ali ficou vermelho de dio.
        - Temos que nos vingar.
        - Como? - Hanna arregalou seus olhos castanho-claros. 
        Ali pensou por um minuto.
        - Deveramos fazer com que ele experimentasse um pouco de seu prprio veneno.
        A coisa a fazer, ela explicou, era assustar Toby. Quando ele no estava perambulando pela vizinhana espionando as pessoas, era quase certo que estaria em 
sua casa na rvore. Ele passava quase o tempo todo enfiado ali, jogando Game Boy ou, quem sabe, construindo um rob gigante para atacar o Rosewood Day. Mas, como 
a casa da rvore ficava,  bvio, em cima de uma rvore - e como Toby sempre recolhia a escada de corda para que ningum pudesse segui-lo - elas no tinham como 
simplesmente aparecer por l e gritar "Bu!".
        - Ento precisamos de fogos de artifcio. Por sorte, sabemos exatamente onde encontrar. - Ali sorriu.
        Toby era obcecado por fogos de artifcio; ele mantinha um monte deles escondidos no p da rvore e vivia acendendo rojes atravs da claraboia de sua casinha 
de madeira.
        - Ns entramos l sorrateiramente, roubamos um e o acendemos na janela dele - explicou Ali.
        -Tudo bem - concordou Aria -, mas e se alguma coisa der errado?
        Ali suspirou, fazendo drama.
        - Ah, gente, vamos l.
        Estavam todas quietas. Ento, Hanna limpou a garganta.
        - Por mim parece bom.
        - Tudo bem - cedeu Spencer. Emily e Aria deram de ombros, concordando.
        Ali bateu palmas e indicou o sof perto da janela.
        - Eu vou fazer isso. Vocs podem assistir dali.
        As meninas se arrastaram at a janela perto da sacada e assistiram a Ali dando uma corridinha pela rua. A casa de Toby era em diagonal com a dos DiLaurentis, 
e construda no mesmo estilo vitoriano impressionante, mas nenhuma das duas era to grande quanto a casa de fazenda da famlia de Spencer, que ladeava o quintal 
da residncia de Ali. A propriedade dos Hastings inclua seu prprio moinho, oito quartos, garagem para cinco carros, separada da casa, piscina com deque e um celeiro 
reformado  parte.
        Ali correu para o quintal lateral dos Cavanaugh e foi na direo da casa da rvore de Toby. Ela ficava parcialmente escondida por causa dos olmos e pinheiros 
altos, mas a rua fornecia iluminao suficiente para que elas tivessem uma vaga ideia do que estava acontecendo. Um minuto depois, elas tinham certeza de ter visto 
Ali segurando um rojo em formato de cone nas mos a mais ou menos sete metros, distncia suficiente para que ela tivesse uma viso clara atravs da janela azul 
tremulante da casa da rvore.
        -Voc acha que ela vai mesmo fazer isso? - sussurrou Emily. Um carro em alta velocidade passou pela casa de Toby, iluminando-a.
        - No. - Spencer mexia, nervosa, em seus brincos de diamantes. - Ela est blefando.
        Aria colocou a ponta de sua trana negra na boca.
        - Est mesmo.
        - Como  que a gente vai saber se Toby est mesmo l dentro? - perguntou Hanna.
        Um silncio angustiado se instalou. As meninas haviam participado de todas as peas que Ali pregara, mas haviam sido brincadeiras inocentes - se enfiar na 
banheira de hidromassagem de gua salgada no spa Fermata, pingar tinta preta no shampoo da irm de Spencer ou mandar falsas cartas de amor do diretor Appleton para 
a boba da Mona Vanderwaal, que estava no mesmo ano que elas. Mas algo sobre essa brincadeira especfica as deixava um pouco... desconfortveis.
        Boom!
        Emily e Aria deram um pulo para trs. Spencer e Hanna grudaram os rostos contra o vidro da janela. Ainda estava escuro do outro lado da rua. Uma luz brilhante 
piscou na janela da casa na rvore, mas foi s isso.
        Hanna deu uma olhada.
        - Talvez no tenha sido o rojo.
        - E o que mais poderia ser? - perguntou Spencer, sarcstica. - Um tiro?
        Em seguida, os pastores-alemes dos Cavanaugh comearam a latir. As garotas agarraram os braos umas das outras. A luz do ptio lateral se acendeu. Ouviram-se 
vozes em alto volume e o sr. Cavanaugh atravessou correndo a porta que dava para o ptio. De repente, pequenas labaredas comearam a sair da janela da casa na rvore. 
O fogo comeou a se espalhar. Parecia o filme que os pais de Emily a faziam assistir todo os anos, no Natal. E, ento, ouviram-se sirenes. Aria olhou para as outras.
        - O que est acontecendo?
        -Voc acha que...? - sussurrou Spencer.
        - E se Ali... - comeou Hanna.
        - Meninas. - Uma voz veio de trs delas. Ali estava na entrada da grande sala. Seus braos estavam ao lado do corpo e o rosto, mais plido do que elas jamais 
tinham visto.
        - O que aconteceu? - perguntaram todas ao mesmo tempo. 
        Ali parecia preocupada.
        - No sei. Mas no foi minha culpa.
        A sirene chegou mais e mais perto... at que uma ambulncia estacionava na entrada da garagem da casa dos Cavanaugh. Paramdicos saltaram da ambulncia e 
correram em direo  casa da rvore. A corda havia sido baixada.
        - O que aconteceu, Ali? - Spencer se virou, passando pela porta. -Voc tem que nos contar o que aconteceu.
        Ali a seguiu:
        - Spence, no.
        Hanna e Aria olharam uma para a outra; estavam com muito medo para ir atrs. Algum poderia v-las.
        Spencer se abaixou atrs de um arbusto e olhou do outro lado da rua.
        Ento viu o buraco feio, recortado, na janela da casa na rvore de Toby. Ela sentiu algum se arrastando atrs dela.
        - Sou eu - informou Ali.
        - O que... - comeou Spencer, mas, antes que pudesse terminar, um paramdico comeou a descer da casa da rvore, trazia algum nos braos. Toby estava machucado? 
Ser que estava... morto?
        Todas as meninas, as que estavam dentro e as que estavam fora, esticaram o pescoo para ver. Seus coraes comearam a bater mais rpido. Ento, por um segundo, 
eles pararam.
        No era Toby. Era Jenna.
Alguns minutos depois, Ali e Spencer entraram. Ali contou a elas tudo o que acontecera com uma calma quase sinistra: o rojo havia atravessado a janela e atingido 
Jenna. Ningum a tinha visto acender o rojo, ento elas estavam seguras, contanto que ficassem de boca fechada. Afinal de contas, o rojo era de Toby. Se a polcia 
fosse botar a culpa em algum, seria nele.
        Durante toda a noite, elas choraram, agitadas, acordando e adormecendo diversas vezes. Spencer, muito estressada, passou horas em posio fetal, sem dizer 
nenhuma palavra, zapeando do E! para o Cartoon Network e para o Animal Planet. Quando acordaram, no dia seguinte, a novidade j havia se espalhado por toda a vizinhana: 
algum havia confessado.
        Toby.
        As meninas pensaram que era uma brincadeira, mas o jornal local confirmou que Toby tinha confessado que, ao brincar com um rojo aceso em sua casa na rvore, 
tinha apontado para o rosto da irm sem querer... e que o rojo a havia cegado.Ali leu essa parte em voz alta, quando estavam todas reunidas em volta da mesa da 
cozinha da casa dela, de mos dadas. Elas sabiam que deveriam estar aliviadas, porm... sabiam a verdade.
        Nos poucos dias que passou no hospital, Jenna ficou histrica - e confusa. Todos lhe perguntavam o que havia acontecido, mas ela parecia no se lembrar. 
Jenna disse que tambm no era capaz de falar sobre nada do que acontecera imediatamente antes do acidente. Os mdicos cogitaram que aquilo pudesse ser estresse 
ps-traumtico.
        O colgio Rosewood Day fez uma palestra no-brinque-com-fogos-de-artifcio em homenagem a Jenna, seguida de um baile e uma venda beneficente de bolos. As 
meninas, Spencer em especial, participaram de forma entusiasmada, apesar, claro, de fingirem no saber de nada a respeito do que havia acontecido: Quando algum 
perguntava, elas diziam que Jenna era uma menina muito doce e uma das amigas mais chegadas que tinham. Vrias garotas que nunca falaram com Jenna estavam dizendo 
exatamente a mesma coisa. Quanto a Jenna, nunca mais voltou a Rosewood Day. Foi para uma escola especial para cegos, na Filadlfia, e ningum mais a viu depois daquela 
noite.
        As coisas ruins em Rosewood Day, a certa altura, eram sempre gentilmente tiradas do caminho, e Toby no foi exceo. Seus pais o mantiveram estudando em 
casa pelo resto do ano letivo. O vero passou e, no ano seguinte, Toby foi mandado a um reformatrio no Maine. Ele partiu sem cerimnias comoventes de despedida, 
num dia claro em meados de agosto. Seu pai o levou de carro at a estao, onde ele foi sozinho pegar o trem para o aeroporto. As meninas assistiram enquanto os 
Cavanaugh derrubavam a casa na rvore naquela tarde. Era como se quisessem apagar o mximo que conseguissem da existncia de Toby.
        Dois dias depois da partida de Toby, os pais de Ali levaram as meninas para acampar nas Montanhas Pocono. As cinco desceram corredeiras, escalaram as pedras 
e se bronzearam nos bancos de areia do lago. De noite, quando a conversa acabava caindo no tema Toby e Jenna - e isso aconteceu muito naquele vero -, Ali lembrava 
a elas de que no podiam contar nada a ningum, nunca..Tinham de manter aquele segredo para sempre... o que fortaleceria a amizade delas por toda a eternidade. Naquela 
noite, quando se enfiaram na barraca de cinco lugares, usando capuzes de cashmere J. Crew, Ali deu a cada uma delas uma pulseira colorida brilhante, para simbolizar 
a unio. Amarrou a pulseira no pulso de cada uma e pediu que repetissem, depois dela:
        - Eu prometo no contar nada at o dia da minha morte. 
        Elas sentaram em crculo, Spencer, depois Hanna, Emily e Aria, dizendo exatamente essas palavras. Ali colocou a prpria pulseira por ltimo.
        - At o dia da minha morte - sussurrou ela, depois de fazer o n, suas mos espalmadas sobre o corao. As meninas apertaram as mos. Apesar de ser uma situao 
pavorosa, elas achavam que tinham sorte por terem umas s outras.
        As meninas usaram suas pulseiras ao longo de muitos banhos, frias curtas na primavera durante as quais iam para a capital do pas e Colonial Williamsburg 
- ou, no caso de Spencer, para as Bermudas - durante treinos enlameados de hquei e surtos de gripe. Ali dava um jeito de estar com sua pulseira sempre mais limpa 
que as das outras, como se suj-la fosse enfraquecer seu propsito. Algumas vezes, elas tocavam as pulseiras com a ponta dos dedos e sussurravam "at o dia da minha 
morte", para lembrarem a si mesmas como eram prximas. Aquilo se tornou a senha delas; todas sabiam o que significava. Na verdade, Ali dissera a frase h menos de 
doze meses, no ltimo dia de aula do stimo ano, quando as meninas estavam comemorando o incio do vero. Ningum poderia saber que, em poucas horas, Ali iria desaparecer.
        Ou que aquele seria o dia de sua morte.
1
E NS PENSVAMOS 
QUE RAMOS AMIGAS
Spencer Hastings estava no gramado verde-ma, na frente da capela do colgio Rosewood Day, com suas trs ex-melhores amigas, Hanna Marin, Aria Montgomery e Emily 
Fields. As meninas tinham parado de se falar havia mais de trs anos, no muito tempo depois que Alison DiLaurentis desaparecera misteriosamente, mas haviam se reencontrado 
naquele dia, na homenagem pstuma para ela. Dois dias antes, operrios de uma obra tinham encontrado o corpo de Alison embaixo de uma laje de concreto, atrs da 
casa onde ela vivera.
        Spencer olhou de novo para a mensagem de texto que acabara de receber em seu Sidekick.
        Eu ainda estou aqui, suas vacas. E eu sei de tudo. -A
- Ah, meu Deus - sussurrou Hanna. A tela de seu BlackBerry mostrava a mesma coisa. E era o que tambm podia ser lido no Treo de Aria e no Nokia de Emily. Durante 
a semana anterior, cada uma delas recebera e-mails, bilhetes e mensagens instantneas de algum que assinava com a letra A. Os recados eram, na maioria das vezes, 
sobre coisas que aconteceram no stimo ano, o ano em que Ali desaparecera, mas mencionavam tambm novos segredos... coisas que estavam acontecendo naquele exato 
momento.
        Spencer acreditara que A pudesse ser Alison - que, de alguma forma, ela havia voltado - mas isso agora estava fora de questo, certo? O corpo de Ali havia 
ficado preso embaixo do concreto. Ela estava... morta... h muito, muito tempo.
        -Voc acha que isso tem a ver... com A Coisa com Jenna? - sussurrou Aria, passando a mo no queixo anguloso. Spencer guardou o telefone de volta na bolsa 
de tweed Kate Spade.
        - Ns no deveramos falar sobre isso aqui. Algum pode nos ouvir. - Ela deu uma olhada nervosa na direo dos degraus da igreja onde Toby e Jenna Cavanaugh 
estiveram parados alguns momentos antes. Spencer no via Toby desde antes do desaparecimento de Jenna, e a ltima vez que vira Jenna fora na noite do acidente, nos 
braos do paramdico que a carregava.
        - Que tal os balanos? - sussurrou Aria, indicando o playground do setor de educao infantil de Rosewood Day. Era onde elas costumavam se encontrar.
        - Perfeito. - Spencer comeou a abrir caminho no meio da multido de pessoas enlutadas. - Encontro com vocs l.
        Era fim de uma tarde de outono, um dia claro como cristal. O ar recendia a mas e lenha queimada. Um balo flutuava bem alto no cu. Era o dia perfeito 
para a cerimnia pstuma de uma das meninas mais lindas de Rosewood.
        Eu sei de tudo.
        Spencer sentiu um calafrio. Tinha de ser um blefe. Quem quer que fosse esse A, no poderia saber de tudo. No sobre A Coisa com a Jenna... E, com certeza, 
no sobre o segredo que s Spencer e Ali conheciam. Na noite do acidente de Jenna, Spencer testemunhara algo que suas amigas no tinham visto, mas Ali a fizera manter 
segredo sobre aquilo, mesmo de Emily, Aria e Hanna. Spencer queria contar a elas, mas como naquela poca no podia, deixou o assunto de lado e fingiu que nada acontecera.
        Mas... algo acontecera.
        Naquela noite fresca de primavera, em abril, no sexto ano, logo depois de Ali ter lanado um rojo na janela da casa na rvore, Spencer correu para fora. 
O ar cheirava a cabelo queimado. Ela viu os paramdicos tirando Jenna da casa na rvore pela instvel escada de cordas.
        Ali estava perto dela.
        -Voc fez aquilo de propsito? - perguntou Spencer, apavorada.
        - No! -Ali agarrou o brao de Spencer. - Foi um...
        Por anos, Spencer tentou bloquear o que aconteceu em seguida: Toby Cavanaugh vindo na direo delas. O cabelo dele estava todo bagunado e emplastado, e 
seu rosto, sempre to plido, estava todo vermelho. Ele foi direto para cima de Ali.
        -  Eu vi voc. - Toby tremia, de to bravo. Ele deu uma olhada para a garagem de sua casa, onde um carro de polcia estava estacionado. - Eu vou contar o 
que aconteceu.
        Spencer engasgou. As portas da ambulncia se fecharam com um estrondo e as sirenes se afastaram da casa fazendo barulho. Ali estava calma.
        -T bom, mas eu vi voc, Toby - disse ela. - E se voc contar, eu vou contar tambm. Para os seus pais.
        Toby recuou.
        - No.
        -  Sim. - Ali o mediu com os olhos. Apesar de ela ter s mais ou menos um metro e cinquenta, de repente, pareceu bem mais alta. - Voc acendeu o rojo. Voc 
feriu sua irm.
        Spencer agarrou o brao dela. O que ela estava fazendo? Mas Ali se soltou.
        - Meia-irm - murmurou Toby, quase sem fazer som nenhum. Ele olhou na direo de sua casa na rvore e, depois, na direo do final da rua. Outro carro de 
polcia entrou devagar na casa dos Cavanaugh. - Eu vou pegar voc - rosnou ele para Ali. - Pode esperar.
        E ento, desapareceu.
        Spencer segurou Ali pelo brao.
        - O que ns vamos fazer?
        - Nada - disse Ali, de forma quase delicada. - Est tudo bem.
        - Alison... - Spencer piscou sem acreditar. -Voc no escutou nada? Ele disse que viu o que voc fez. Ele vai contar tudo para a policia agora mesmo.
        - Eu acho que no. - Ali sorriu. - No com o que eu tenho contra ele. - Ela ento se inclinou e sussurrou o que ela havia visto Toby fazendo. Era to nojento 
que Ali tinha esquecido que estava segurando o rojo aceso, at que ele estourou nas mos dela e atravessou a janela da casa na rvore.
        Ali obrigou Spencer a prometer que no contaria para as outras nada sobre aquilo, e avisou que, se contasse a elas, ia dar um jeito de fazer com que Spencer 
- e s Spencer - levasse toda a culpa. Apavorada com o que Ali poderia fazer, Spencer manteve a boca fechada. Ela no pensava que Jenna poderia dizer alguma coisa 
- certamente, Jenna se lembrava de que no fora Toby que fizera aquilo -, mas estivera confusa, tendo delrios... dissera que toda aquela noite era um borro em 
sua memria.
        Ento, um ano depois, Ali desapareceu.
        A policia havia interrogado todo mundo, incluindo Spencer, perguntando se sabiam de algum que queria machucar Ali. Toby, Spencer se lembrou imediatamente.
Ela no conseguia esquecer o momento em que ele dissera: Eu vou pegar voc. Mas dedurar Toby significava contar aos policiais a verdade sobre o acidente de Jenna 
- no qual ela tinha sua parcela de responsabilidade. Sobre o qual ela sabia a verdade e no havia contado a ningum. Significava, tambm, contar s suas amigas o 
segredo que estivera escondendo por mais de um ano. Por isso, Spencer no disse nada.
        Spencer acendeu outro Parliament e saiu do estacionamento da igreja de Rosewood. Viu s? A no poderia saber de tudo, como dizia sua mensagem de texto. A 
no ser que, bem, A fosse Toby Cavanaugh... mas isso no fazia o menor sentido. Os recados de A para Spencer falavam sobre um segredo que s Ali conhecia: no stimo 
ano, Spencer havia beijado Ian, o namorado de sua irm Melissa. Spencer havia contado isso para Ali - e para mais ningum. E A tambm sabia sobre Wren, o agora ex 
de sua irm, com quem Spencer tinha dado mais do que apenas um beijo na semana anterior.
        Mas os Cavanaugh moravam na rua de Spencer. Com binculos, Toby pode ter conseguido olhar de sua janela. E Toby ainda estava em Rosewood, embora fosse setembro. 
Ele no deveria estar no colgio interno?
        Spencer parou na entrada de tijolos do Colgio Rosewood Day. Suas amigas j estavam l conversando, rodeadas pelos brinquedos do parquinho da escola primria. 
Era um lindo castelo, com torres, bandeirolas e um escorregador em formato de drago. O estacionamento estava deserto, as passagens para pedestres, feitas de tijolos, 
estavam vazias e os campos de jogos estavam silenciosos; toda a escola tivera um dia de folga em homenagem a Ali.
        - Bem, todas ns recebemos mensagens de texto desse tal de A? - perguntou Hanna, quando Spencer se aproximava.Todas elas exibiram seus celulares, nos quais 
estava estampada a mensagem Eu sei de tudo.
        - Eu recebi outras duas - disse Emily, sondando o terreno. - Pensei que fossem de Ali.
        -  Eu tambm pensei! - arfou Hanna, batendo a mo no trepa-trepa. Aria e Spencer concordaram com a cabea. Elas se entreolharam nervosas, com os olhos arregalados.
        - O que as suas diziam? - Spencer olhou para Emily. 
        Emily afastou uma mecha de cabelo louro-avermelhado do olho.
        - ... particular.
        Spencer ficou to surpresa, que riu alto.
        - Voc no tem segredos, Em! - Emily era a garota mais pura e doce de todo o planeta.
        Emily pareceu ofendida.
        - , bem, eu tenho.
        - Ah. - Spencer sentou-se em um dos degraus estreitos. Ela inspirou profundamente, esperando sentir cheiro de mato molhado e serragem. Em vez disso, sentiu 
cheiro de cabelo queimado, como na noite do acidente de Jenna.
        - E voc, Hanna?
        Hanna franziu seu narizinho atrevido.
        -  Se Emily no vai falar sobre as dela, eu no quero falar sobre as minhas. Era uma coisa sobre a qual s Ali sabia.
        -  o meu caso tambm - disse Aria, apressadamente. Ela baixou os olhos. - Desculpem.
        Spencer sentiu uma fisgada no estmago.
        - Bom, todo mundo aqui tinha segredos que s Ali conhecia?
        Todas concordaram. Spencer bufou, brava.
        - Achei que fssemos melhores amigas umas das outras. 
        Aria se virou para ela e franziu a testa.
        - Ento, o que as suas mensagens diziam?
        Spencer no achou que seu segredo sobre Ian fosse to interessante assim. No era nada comparado ao que ela sabia sobre A Coisa com Jenna. Mas, naquele momento, 
ela sentia orgulho demais para contar.
        -  um segredo que s Ali sabia, como o de vocs. - Ela colocou seu cabelo louro escuro atrs das orelhas. - Mas A tambm me mandou um e-mail sobre algo 
recente.  como se algum estivesse me espionando.
        Os olhos azul-claros de Aria se arregalaram.
        - A mesma coisa comigo.
        - Ento, tem algum vigiando todas ns - concluiu Emily. Uma joaninha pousou com delicadeza em seu ombro, e ela espantou o bichinho, como se achasse que 
era uma coisa muito mais perigosa.
        Spencer se levantou.
        -Vocs acham que pode ser... Toby?
        Todas pareceram surpresas.
        - Por qu? - perguntou Aria.
        - Ele faz parte da Coisa com Jenna - disse Spencer, cuidadosa. - E se ele souber?
        Aria mostrou a mensagem de texto em seu Treo. 
        -Voc acha mesmo que tudo isso  sobre... A Coisa com Jenna?
        Spencer passou a lngua pelos lbios. Conte a elas.
        -  Ns ainda no sabemos por que Toby aceitou levar a culpa - sugeriu ela, testando para ver o que as outras poderiam dizer.
        Hanna pensou por um momento.
        - A nica forma de Toby saber o que fizemos  uma de ns ter contado. - Ela olhou para as outras com desconfiana. - Eu no contei.
        - Nem eu - falaram apressadamente Aria e Emily.
        - E se Toby descobriu de outro jeito? - perguntou Spencer. 
        -Voc quer dizer, se algum mais viu Ali naquela noite e contou a ele? - Aria quis saber. - Ou se ele viu Ali?
        - No... quero dizer... eu no sei - disse Spencer. - So s suposies.
        Conte a elas, Spencer pensou de novo, mas no podia. Todas pareciam to cuidadosas umas com as outras como haviam estado logo depois que Ali desapareceu, 
quando a amizade delas se desintegrara. Se Spencer contasse a verdade sobre Toby, elas a odiariam por no ter contado  polcia quando Ali sumiu. Talvez at mesmo 
a culpassem pela morte de Ali. Talvez elas devessem. E se Toby realmente tivesse... feito aquilo?
        - Foi s uma ideia. - Ela se ouviu dizendo. -  provvel que eu esteja errada.
        - Ali disse que ningum sabia daquilo, exceto ns.- Os olhos de Emily estavam midos. - Ela jurou. Lembra?
        - Alm disso - acrescentou Hanna -, como Toby poderia saber tanto quanto ns? Eu poderia acreditar nisso se fosse alguma antiga colega de hquei dela, ou 
o irmo, ou a me, ou algum com que ela conversasse de verdade. Mas ela odiava Toby. Todos ns o detestvamos.
        Spencer deu de ombros.
        - Voc tem razo.
        Assim que disse aquilo, Spencer relaxou. Suas preocupaes no faziam sentido.
        Tudo estava quieto. Talvez quieto demais. O galho de uma rvore estalou e Spencer virou-se imediatamente. Estava se movendo como se algum tivesse acabado 
de sair de l. Um passarinho marrom, empoleirado no telhado de Rosewood Day, olhou para ela como se tambm soubesse algumas coisas.
        - Acho que algum est tentando mexer com a nossa cabea - sussurrou Aria.
        - , sim - concordou Emily, mas pareceu hesitante.
        - Bom, e se ns recebermos outros torpedos? - Hanna puxou o vestido preto e curto sobre as coxas magras. - Ns precisamos, pelo menos, ter uma ideia de quem 
.
        - E se, quando recebermos outro torpedo, ligssemos umas para as outras? - sugeriu Spencer. - Podemos tentar montar esse quebra-cabea. Mas eu acho que ns 
no devemos fazer nada, tipo, maluco. Temos que tentar no nos preocupar.
        - No estou preocupada - declarou Hanna, depressa.
        - Nem eu - disseram Aria e Emily ao mesmo tempo. Mas, quando uma buzina soou na avenida principal, todas pularam.
        - Hanna! - Mona Vanderwaal, a melhor amiga de Hanna, colocou sua cabea louro-clara para fora da janela de um Hummer H3 amarelo. Ela usava grandes culos 
de aviador cor-de-rosa.
        Hanna olhou para as outras sem remorso.
        - Tenho que ir - murmurou, antes de correr colina acima. 
        Ao longo dos ltimos anos, Hanna havia se reinventado como uma das garotas mais populares de Rosewood Day. Ela perdera peso, tingira o cabelo num tom ruivo-escuro 
sexy, comprara todo um novo guarda-roupa, cheio de roupas de grifes e, agora, ela e Mona Vanderwaal - tambm uma ex-garota-esquisita - pavoneavam-se pela escola, 
boas demais para todos os outros. Spencer se perguntava qual seria o grande segredo de Hanna.
        - Eu tambm tenho que ir. - Aria arrumou a bolsa roxa e molenga num dos ombros. - Bom... eu ligo para vocs, meninas. - E foi andando em direo ao seu Subaru.
        Spencer ainda enrolou um pouco no playground. Emily tambm, e seu rosto, geralmente alegre, parecia abatido e cansado. Spencer colocou a mo no brao sardento 
de Emily.
        -Voc est legal?
        Emily balanou a cabea.
        -Ali. Ela est...
        - Eu sei.
        Elas se abraaram desajeitadamente e, depois, Emily saiu em direo s rvores, dizendo que ia pegar um atalho para casa. Por anos, Spencer, Emily, Aria 
e Hanna no haviam se falado, mesmo quando se sentavam uma atrs da outra na aula de histria, ou quando estavam sozinhas no banheiro feminino. Ainda assim, Spencer 
conhecia particularidades de todas elas - partes intrincadas de suas personalidades que s um amigo prximo poderia conhecer. Sabia, por exemplo, que sem dvida 
era Emily quem estava pior com a morte de Ali. Elas costumavam chamar Emily de "matadora", porque ela defendia Ali como se fosse um rottweiler ciumento.
        De volta ao seu carro, Spencer sentou-se no banco de couro e ligou o rdio. Ela girou o dial e achou a 610 AM, a estao de esportes dos Phillies. Algo sobre 
aqueles caras com excesso de testosterona, gritando sobre os times Phillies e Sixers, a acalmava. Ela tivera a esperana de que falar com suas velhas amigas pudesse 
clarear um pouco as coisas, mas agora tudo parecia ainda mais... terrvel. Mesmo com o enorme vocabulrio que adquirira de tanto estudar para o vestibular, ela no 
podia pensar numa palavra melhor para descrever a situao.
        Quando o telefone tocou em seu bolso, ela o pegou achando que deveria ser Emily ou Aria. Talvez at mesmo Hanna. Spencer franziu a testa e abriu sua caixa 
de recados.
        Spence, eu no a culpo por no contar s outras nosso se-
        gredinho sobre Toby. A verdade pode ser perigosa - e voc 
        no quer se machucar, quer? -A
2
HANNA 2.0
Mona Vanderwaal parou o Hummer de seus pais, mas manteve o motor ligado. Ela jogou o celular em sua enorme bolsa cor de conhaque Lauren Merkin e deu um sorriso malicioso 
para sua amiga Hanna.
        - Tentei ligar para voc.
        Cautelosa, Hanna permaneceu na calada.
        - Por que voc est aqui?
        - Do que voc est falando?
        - Bem, eu no pedi para voc me dar uma carona. - Tremendo, Hanna apontou para seu Toyota Prius, no estacionamento. - Meu carro est logo ali. Algum contou 
a voc que eu estava aqui ou...?
        Mona enrolou uma longa mecha de cabelo louro-claro em volta do dedo.
        - Sa da igreja agora e estou indo para casa, sua maluca. Eu vi voc e encostei. - Ela deu uma risadinha. - Voc tomou o Valium da sua me? Parece um pouco 
confusa.
        Hanna tirou um Camel Ultra Light do mao de cigarros que estava em sua bolsa Prada preta e o acendeu. Claro que ela parecia confusa. Sua antiga melhor amiga 
havia sido assassinada e, durante toda a semana, ela vinha recebendo mensagens de texto apavorantes de algum chamado A. Em todos os instantes daquele dia - enquanto 
se arrumava para o funeral de Ali, comprava uma Coca Diet no Wawa, dirigia em direo  igreja de Rosewood - ela tivera certeza de que algum a estava observando.
        - Eu no vi voc na igreja - murmurou.
        Mona tirou os culos de sol e mostrou os olhos azuis. 
        -Voc olhou bem na minha direo. Eu acenei para voc. Nada disso soa familiar?         Hanna deu de ombros.
        - Eu... eu no me lembro.
        - Bem, acho que voc estava ocupada com suas velhas amigas - respondeu Mona, ressentida.
        Hanna se arrepiou. Suas antigas amigas eram um assunto delicado entre elas: um milho de anos atrs, Mona era uma das meninas de quem Ali, Hanna e as outras 
tiravam sarro. Ela havia se tornado o alvo preferido delas depois que Jenna se acidentara.
        - Desculpe. A igreja estava lotada.
        - No  como se eu estivesse me escondendo. - Mona pareceu magoada. - Eu estava sentada atrs de Sean.
        Hanna respirou fundo. Sean.
        Sean Ackard agora era seu ex-namorado; o relacionamento deles havia implodido na festa de volta s aulas de Noel Kahn, na noite da ltima sexta-feira. Hanna 
havia decidido que aquela sexta-feira seria a noite em que perderia a virgindade, mas, quando ela comeou a se insinuar para Sean, ele a empurrou e lhe passou um 
sermo sobre respeitar o prprio corpo. Para se vingar, Hanna levou a BMW dos Ackard para dar um passeio com ela e Mona, e a arrebentou, batendo contra um poste, 
na frente de uma loja de material de construo.
        Mona pisou no acelerador com seu peep-toe de salto alto, ressuscitando o motor de um bilho de cilindros do carro.
        - Ento, escute. Temos uma emergncia... ns ainda no temos companhia.
        - Para o qu? - Hanna piscou.
        Mona ergueu uma das sobrancelhas louras perfeitamente feitas.
        - Al-, Hanna!? Para a Foxy!  neste fim de semana! Agora que voc chutou Sean, precisa convidar algum legal.
        Hanna olhou para os pequenos dentes-de-leo que cresciam nas fendas da calada. Foxy era o baile de caridade anual, organizado pela Liga de Caa  Raposa 
de Rosewood - era da que vinha o nome do baile. Uma doao de 250 dlares para alguma instituio de caridade garantia um jantar, dana, uma chance de ter sua fotografia 
publicada no Philadelphia Inquirer e no glam-R5.com - o blog de colunismo social da regio - e era uma grande desculpa para usar uma roupa linda, beber e dar uns 
amassos no namorado de outra pessoa. Hanna havia pagado por seu lugar em julho, pensando que iria com Sean.
        - Eu nem sei se vou - murmurou, tristonha.
        - Claro que voc vai. - Mona revirou os olhos e suspirou. - Olha, liga para mim quando reverterem sua lobotomia. - Dito isso, ela ligou o carro e saiu, cantando 
pneus.
        Hanna andou devagarinho at o seu Prius, Suas antigas haviam ido embora, e seu carro prateado parecia solitrio no estacionamento vazio. Uma sensao desconfortvel 
tomava conta dela. Mona era sua melhor amiga, mas havia toneladas de coisas que Hanna no estava contando a ela no momento. Como as mensagens de A. Ou sobre como 
fora presa no sbado de manh por roubar o carro do senhor Ackard. Ou sobre como Sean  que dera um chute nela, e no o contrrio. Sean era to diplomtico que dissera 
aos amigos apenas que eles "haviam decidido conhecer outras pessoas". Hanna achou que poderia mudar um bocadinho a histria em seu benefcio e, assim, ningum descobriria 
a verdade.
        Mas se ela contasse a Mona qualquer dessas coisas, isso mostraria que sua vida estava saindo do controle. Hanna e Mona haviam se reinventado juntas, e a 
regra era que, por serem, juntas, as musas da escola, tinham de ser perfeitas. Isso significava que deveriam permanecer magricelas, comprar os jeans skinny Paige 
antes de qualquer outra pessoa e nunca perder o controle. Qualquer fenda em suas armaduras poderia mand-las de volta ao mundo das perdedoras fora de moda, e elas 
no queriam voltar para l. Nunca. Por isso, Hanna tinha que fingir que nada horroroso acontecera na semana anterior, mesmo que, sem dvida, tivesse acontecido.
        Hanna nunca passara pela experincia de saber que algum conhecido seu tivesse morrido; muito menos assassinado. E o fato de essa pessoa ser Ali - somado 
aos recados de A - tornava a situao toda ainda mais assustadora. Se algum sabia mesmo sobre A Coisa com Jenna... e se contasse... e se esse algum ainda por cima 
tivesse algo a ver com a morte de Ali, a vida de Hanna estava, definitivamente, fora de controle.
        Hanna entrou com o carro na garagem de tijolos estilo georgiano de sua casa com vista para o monte Kale. Quando viu seu reflexo no espelho retrovisor do 
carro, ficou horrorizada ao constatar que sua pele estava manchada e oleosa, e seus poros estavam enormes. Ela se inclinou na direo do espelho e, ento, de repente... 
sua pele estava perfeita. Hanna respirou fundo e de forma irregular algumas vezes, antes de sair do carro. Nos ltimos dias, tivera um monte de alucinaes como 
essa.
        Tremendo, entrou quieta em casa e foi at a cozinha. Quando chegou nas portas-balco de vidro, ficou paralisada.
        A me de Hanna estava sentada  mesa da cozinha, com um prato de queijo e biscoitos na sua frente. Seu cabelo ruivo-escuro estava preso em um coque elaborado 
e seu relgio Chopard, incrustado de diamantes, cintilava  luz do sol da tarde. Seus fones de ouvido sem fio, da Motorola, estavam em suas orelhas.
        E ao lado dela... estava o pai de Hanna.
        - Ns estvamos esperando por voc - informou o pai. 
        Hanna deu um passo para trs. O cabelo dele estava mais grisalho e ele usava culos de aro redondo, mas, fora isso, estava exatamente igual: alto, olhos 
enrugados, camiseta polo azul. Sua voz ainda era a mesma, profunda e calma, como a de um locutor de rdio. Fazia quatro anos que Hanna no o via ou falava com ele.
        - O que voc est fazendo aqui? - falou ela sem pensar.
        - Eu estava na Filadlfia a trabalho - explicou o sr. Marin, sua voz desafinando de nervosismo ao pronunciar a palavra trabalho. Ele ergueu sua caneca de 
caf com a figura de um doberman. Era a caneca que ele usava quando morava com elas; Hanna se perguntou se ele havia procurado por ela no armrio. - Sua me me ligou 
para contar sobre Alison. Meus psames, Hanna.
        - Ah, t. - Hanna pareceu distrada. Ela estava perplexa.
        - Voc precisa conversar sobre algum assunto? - A me mordiscou um pedao de cheddar.
        Hanna balanou a cabea, aturdida. A relao da sra. Marin com Hanna era mais como chefe/estagiria do que como me/filha. Ashley Marin havia lutado para 
abrir seu caminho no mundo dos executivos de publicidade na agncia McManus & Tate da Filadlfia e tratava a todos como se no passassem de mais um empregado. Hanna 
no conseguia lembrar qual havia sido a ltima vez que a me lhe fizera uma pergunta gentil. Provavelmente nunca.
        - Hum... ento... est tudo bem. Obrigada assim mesmo - respondeu ela, um pouco arrogante.
        Ser que eles podiam mesmo culp-la por ser um pouco amarga? Depois do divrcio, seu pai se mudara para Annapolis, comeara um relacionamento com uma mulher 
chamada Isabel, herdando uma linda quase-enteada, Kate. O pai tornara sua nova casa to pouco acolhedora para ela que Hanna o visitara apenas uma vez. Seu pai no 
tentava ligar para ela, mandar e-mails, nada, havia anos. Ele nem sequer mandava presentes de aniversrio - s cheques.
        O pai suspirou.
        - Esta, provavelmente, no  a melhor forma de discutir as coisas.
        Hanna olhou para ele.
        - Discutir as coisas.
        O sr. Marin limpou a garganta.
        - Bem, sua me me ligou tambm por outra razo. - Ele baixou os olhos. - O carro.
        Hanna franziu a testa. Carro? Que carro? Ah.
        -J  ruim o suficiente que voc tenha roubado o carro do sr. Ackard - continuou o pai. - Mas... abandonar o local do acidente?
        Hanna olhou para a me.
        - Pensei que isso tivesse sido resolvido.
        - Nada est resolvido. - A sra. Marin a encarou. 
        T, at parece, Hanna queria dizer.
        Quando os policiais a soltaram, no sbado, sua me lhe dissera, de modo misterioso, que "estava dando um jeito nas coisas" e que Hanna no precisava se preocupar. 
O mistrio foi resolvido quando ela pegou sua me com um jovem policial, Darren Wilden, dando uns amassos na cozinha da casa delas, na noite seguinte.
        - Estou falando srio - disse a sra. Marin, e Hanna interrompeu seu sorriso malicioso. -A polcia concordou em arquivar o caso, sim, mas isso no muda tudo 
o que est acontecendo com voc, Hanna. Primeiro, voc roubou na Tiffany, e agora isso. No sei o que fazer. Ento, liguei para o seu pai.
        Hanna encarou o prato de queijo, muito desconcertada para olhar para qualquer um dos dois nos olhos. A me tambm havia contado ao pai que ela fora pega 
por roubar na Tiffany?
        O sr. Marin limpou a garganta.
        - Apesar de o caso estar encerrado para a polcia, o sr. Ackard quer continuar com o assunto de forma privada, sem lev-lo a um tribunal.
        Hanna mordeu a boca por dentro.
        - O seguro no paga por essas coisas?
        - No  bem isso - respondeu o pai. - O sr. Ackard fez uma proposta  sua me.
        - O pai de Sean  cirurgio plstico - explicou a me dela -, mas a menina dos olhos dele  uma clnica de reabilitao para vtimas de queimaduras. Ele 
quer que voc se apresente l amanh, s trs e meia da tarde.
        Hanna franziu o cenho.
        - Por que ns no podemos s dar o dinheiro a ele?
        O pequeno telefone LG da sra. Marin comeou a tocar.
        - Eu acho que isso vai ser uma boa lio para voc fazer algum bem para a comunidade. Entender o que voc fez.
        - Mas eu entendo! - Hanna Marin no queria sacrificar seu tempo livre em uma clnica para pessoas queimadas. Se ela tinha que fazer trabalho voluntrio, 
por que no podia ser em algum lugar mais chique? Tipo na ONU, com Nicole e Angelina?
        - J est tudo resolvido - disse a sra. Marin, bruscamente. Depois, gritou ao telefone: - Carson? Voc fez os ensaios?
        Hanna se sentou, as unhas cravadas nos pulsos. Na verdade, ela queria ir l para cima tirar o vestido do funeral - ele estava fazendo suas coxas parecerem 
enormes ou era s seu reflexo nas portas da varanda? -, refazer a maquiagem, perder uns dois quilos e tomar um gole de vodca. Depois, poderia voltar e se apresentar 
outra vez.
        Quando deu uma olhada para o pai, ele lhe deu um sorrisinho. O corao de Hanna deu um salto. Seus lbios se abriram como se ele fosse falar, mas ento o 
celular dele tambm tocou. Ele ergueu um dos dedos, fazendo sinal para Hanna esperar.
        - Kate? - atendeu ele.
        O corao de Hanna encolheu. Kate. A linda e perfeita quase enteada.
        O pai dela encaixou o telefone embaixo do queixo.
        - Ei! Como foi a corrida? - Ele fez uma pausa e depois sorriu, radiante. - Menos de dezoito segundos? Isso  incrvel!
        Hanna pegou um pedao de cheddar do prato. Quando estivera em Annapolis, Kate nem sequer olhara para ela. Ela e Ali, que acompanhara Hanna para dar apoio 
moral, logo haviam se tornado as melhores amigas do mundo, excluindo Hanna completamente. Aquilo fizera Hanna devorar qualquer lanchinho num raio de um quilmetro 
e meio - tudo isso aconteceu no tempo em que ela era gorducha e feia, e comia sem parar. Quando ela se contorceu com as mos na barriga de tanta dor, o pai apertara 
seu dedo do p e perguntara "Minha porquinha no est se sentindo bem?" na frente de todo mundo. Depois disso, Hanna buscara refgio no banheiro e enfiara uma escova 
de dentes na garganta.
        O naco de cheddar pairava, indeciso, na frente da boca de Hanna. Respirando fundo, ela o embrulhou em um guardanapo e jogou tudo no lixo. Todas aquelas coisas 
aconteceram h muito tempo... quando ela era uma Hanna bem diferente. S Ali sabia sobre aquilo e Hanna enterrara esse segredo bem fundo.
3
TEM  ALGUMA  LISTA DE 
ADESO AOS AMISH POR A?
Emily Fields parou na frente do Gray Horse Inn, um prdio de pedra caindo aos pedaos que fora um hospital durante a Guerra da Independncia dos Estados Unidos. 
O gerente atual havia transformado os andares superiores em uma pousada para forasteiros ricos e mantinha um caf no salo. Emily espiou atravs das janelas do caf 
e viu alguns de seus colegas de classe e suas famlias comendo pezinhos com salmo defumado, tostex italianos e saladas Cobb. Parecia que todos estavam desfrutando 
de um lanchinho ps-funeral.
        -Voc conseguiu.
        Emily se virou e viu Maya St. Germain apoiada num vaso de terracota, cheio de penias. Maya tinha ligado quando Emily estava saindo do playground de Rosewood 
Day, perguntando se elas poderiam se encontrar ali. Assim como Emily, Maya ainda estava com a roupa do funeral - uma saia plissada, curta, de veludo preto, botas 
pretas e um suter sem mangas, com um delicado lao em volta do pescoo. E, assim como Emily, parecia que Maya tinha garimpado nas profundezas de seu guarda-roupa 
para encontrar algo preto que parecesse adequado para a ocasio.
        Emily sorriu com tristeza. Os St. Germain haviam se mudado para a antiga casa de Ali. Quando os pedreiros comearam a cavar pelo gazebo dos DiLaurentis, 
que nunca fora terminado, a fim de limpar o terreno para a quadra de tnis dos St. Germam, encontraram os restos mortais de Ali debaixo do concreto. Desde ento, 
carros de imprensa, viaturas policiais e bisbilhoteiros em geral haviam cercado a propriedade sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia. A famlia de Maya 
tinha se refugiado na pousada at que as coisas se acalmassem.
        - Oi. - Emily olhou em volta. - Seus pais esto lanchando? 
        Maya balanou seus cachos grossos e castanho-escuros.
        - Eles foram para Lancaster. Para ficar perto da natureza ou alguma coisa assim. Sinceramente, acho que eles esto em choque, ento, talvez a vida simples 
do campo faa algum bem a eles.
        Emily sorriu, pensando nos pais de Maya tentando se integrar aos Amish na pequena comunidade a oeste de Rosewood.
        - Quer ir at o meu quarto? - perguntou Maya, erguendo uma das sobrancelhas.
        Emily puxou a saia - suas pernas eram musculosas por causa da natao - e parou para pensar. Se a famlia de Maya no estava l, elas estariam a ss. Em 
um quarto. Com uma cama.
        Quando Emily viu Maya pela primeira vez, ficou enfeitiada. Ela sempre procurara por uma amiga que pudesse substituir Ali. Ali e Maya eram mesmo parecidas 
de vrias maneiras - as duas eram destemidas e divertidas, e pareciam as nicas duas pessoas no mundo que entendiam a Emily real. Elas tinham mais uma coisa em comum: 
Emily sentia alguma coisa diferente quando estava com elas.
        -Vamos l. - Maya se virou para entrar na casa. Emily, sem saber muito bem o que fazer, foi atrs dela.
        Ela seguiu Maya pela escada em espiral que rangia, at seu quarto, com decorao inspirada no ano 1776.O lugar cheirava a l molhada, tinha piso de pinho 
diagonal, uma cama queen size com dossel, coberta por uma colcha enorme e diferente, e um objeto esquisito, que parecia com um batedor de manteiga, no canto.
        - Meus pais colocaram meu irmo e eu em quartos separados. - Maya sentou-se na cama, que rangeu.
        -  Que legal - comentou Emily, se empoleirando na beirada de uma cadeira bamba que, provavelmente, havia pertencido a George Washington.
        - Bem, como voc est? - Maya se inclinou na direo dela. - Deus, eu vi voc no funeral. Voc parecia... devastada.
        Os olhos cor de avel de Emily se encheram de lgrimas. Ela estava devastada com a perda de Ali. Emily havia passados os ltimos trs anos e meio esperando 
que Ali aparecesse em sua varanda, saudvel e brilhante como sempre. E, quando comeou a receber os torpedos de A, teve certeza de que Ali estava de volta. Quem 
mais poderia saber? Mas agora Emily sabia que Ali tinha ido embora de verdade. Para sempre. E, alm disso, algum conhecia seu segredo mais constrangedor - que ela 
fora apaixonada por Ali - e que sentia a mesma coisa por Maya. E talvez a mesma pessoa tambm soubesse a verdade sobre o que elas haviam feito com Jenna.
        Emily se sentia mal por ter se recusado a contar para suas antigas amigas o que diziam os recados de A, mas  que ela simplesmente... no podia. Uma das 
mensagens continha uma antiga carta de amor que ela havia escrito para Ali. A ironia  que ela podia contar a Maya o que diziam as mensagens, mas tinha medo de contar 
a ela sobe A.
        - Acho que ainda estou muito chocada - respondeu, por fim, sentindo o inicio de uma dor de cabea. - Mas eu tambm... estou s cansada.
        Maya chutou as botas para longe.
        - Por que voc no tira uma soneca? No ser sentada nessa cadeira de tortura que voc vai se sentir melhor.
        Emily agarrou os braos da cadeira.
        -Eu...
        Maya deu um tapinha na cama indicando que era para Emily se sentar l.
        -Voc precisa de um abrao.
        Um abrao faria com que ela se sentisse melhor. Emily afastou o cabelo louro-avermelhado do rosto e se sentou na cama, perto de Maya. Seus corpos se fundiram. 
Emily podia sentir as costelas de Maya atravs do tecido da camisa dela. Ela era to pequena que era provvel que Emily conseguisse ergu-la e gir-la pelo quarto.
        Elas se afastaram um pouco, ficando a alguns centmetros do rosto uma da outra. Os clios de Maya eram de um preto profundo, e ela tinha pontinhos dourados 
em seus olhos. Devagar, Maya ergueu o queixo de Emily. Ela a beijou, primeiro, gentilmente. Depois, com mais intensidade.
        Emily sentiu um j familiar arrepio de excitao enquanto Maya roava a beirada de sua saia. De repente, ela enfiou a mo por baixo do tecido. Suas mos 
estavam surpreendentemente frias.
        Emily abriu os olhos e se afastou.
        As cortinas de babados do quarto de Maya estavam abertas e Emily podia ver os Escalades, caminhonetes Mercedes e Lexus Hybrids no estacionamento. Sarah Isling 
eTaryn Orr, duas meninas que estavam no mesmo ano que Emily, saram pela porta do restaurante, seguidas por seus pais. Emily se afastou. 
        Maya se sentou novamente.
        - O que houve?
        - O que voc est fazendo? - Emily ajeitou a camisa desabotoada.
        - O que voc pensa que eu estou fazendo? - Maya sorriu. 
        Emily olhou para a janela de novo. Sarah e Taryn haviam ido embora.
        Maya remexeu-se para cima e para baixo no colcho molenga.
        -Voc sabia que no sbado vai ter uma festa de caridade chamada Foxy?
        - Sabia. - Todo o corpo de Emily tremia.
        - Acho que ns devemos ir - continuou Maya -, parece que vai ser divertido.
        Emily franziu a testa.
        - Os convites custam duzentos e cinquenta dlares. E voc tem que ser convidada.
        - Meu irmo ganhou convites. E so suficientes para ns dois. - Maya se inclinou para perto de Emily. -Voc pode ser minha acompanhante?
        Emily saiu da cama.
        - Eu... - Ela deu um passo para trs, tropeando no tapete. Uma poro de pessoas de Rosewood Day ia  Foxy. Todos os garotos e garotas populares, todos 
os atletas... todo mundo. -Preciso ir ao banheiro.
        Maya pareceu confusa.
        - Fica ali.
        Emily fechou a porta empenada. Ela se sentou no vaso e encarou o desenho na parede que mostrava uma mulher Amish usando uma touca e um vestido comprido. 
Talvez fosse um sinal. Emily estava sempre procurando por sinais que a ajudassem a tomar decises - em seu horscopo, em biscoitos da sorte, em coisas aleatrias 
como essas. Talvez, esse desenho significasse: Seja como os Amish. Eles no levavam vidas castas? Suas vidas no eram loucamente simples? Eles no haviam queimado 
garotas que gostavam de outras garotas na fogueira?
        E, ento, o telefone dela tocou.
        Emily tirou-o de seu bolso, perguntando-se se no seria sua me querendo saber onde ela estava. A sra. Fields no estava exatamente feliz com a amizade de 
Emily e Maya - por motivos racistas, perturbadores. Imagine se a me dela soubesse, ento, o que elas estavam aprontando naquele momento.
        O Nokia de Emily piscou: 1 nova mensagem. Ela clicou em LER.
        Em! Ainda se dedicando ao mesmo tipo de "atividade" 
        com sua melhor amiga, pelo que posso ver. Apesar de a 
        maioria de ns ter mudado completamente,  bom saber 
        que voc ainda  a mesma! Vai contar a todos sobre seu 
        novo amor? Ou eu devo fazer isso? -A
- Ah, no - sussurrou Emily.
        De repente, ouviu um barulho perto dela. Deu um pulo, batendo o quadril contra a pia. Era apenas algum dando descarga no banheiro do quarto ao lado. Depois, 
houve alguns sussurros e risadinhas. O som parecia vir do ralo da pia.
        - Emily - Maya chamou -, tudo bem por a?
        - Hum... tudo - grasnou Emily. Ela se olhou no espelho. Seus olhos estavam arregalados e vazios, e seu cabelo louro-avermelhado estava desgrenhado. Quando 
ela finalmente saiu do banheiro, as luzes do quarto estavam apagadas e as cortinas, fechadas.
        - Psssst - chamou Maya da cama. Ela estava deitada de lado, de forma sedutora.
        Emily olhou em volta. Ela tinha certeza de que Maya no havia trancado a porta. Todos aqueles garotos de Rosewood estavam lanchando bem no andar de baixo...
        - Eu no posso fazer isso - disse Emily.
        - O qu? - Os dentes brancos ofuscantes de Maya brilhavam no escuro.
        - Ns somos amigas. - Emily se encostou contra a parede. - Eu gosto de voc.
        - Eu gosto de voc tambm. - Maya passou a mo em seu brao nu.
        - Mas  s isso que eu quero que sejamos no momento - explicou Emily. -Amigas.
        O sorriso de Maya desapareceu na escurido.
        -  Desculpe. - Emily enfiou os sapatos de qualquer jeito, calando o p direito no esquerdo.
        - Isso no significa que voc precisa ir embora - disse Maya, tranquila.
        Emily olhou para ela enquanto alcanava a maaneta. Seus olhos estavam comeando a se habituar  escurido, e ela pde ver Maya, que parecia desapontada, 
confusa e... linda.
        - Tenho que ir - murmurou Emily -, estou atrasada.
        - Atrasada para qu?
        Emily no respondeu. Ela se virou para a porta. Como suspeitou, Maya no tinha se dado ao trabalho de tranc-la.
4
A VERDADE EST NO VINHO... OU, 
NO CASO DE ARIA, NA CERVEJA
Enquanto ia entrando apressadamente na casa avant-garde de linhas retas de sua famlia - que se destacava naquela rua tpica de Rosewood, cheia de casas no estilo
neoclssico vitoriano -Aria ouviu os pais falando baixinho na cozinha.
        - Mas eu no entendo - dizia sua me, Elia (os pais de Aria preferiam que ela os chamasse por seus primeiros nomes). - Na semana passada voc me disse que
conseguiria ir ao jantar dos artistas.  importante. Acho que Jason pode comprar algumas obras que eu fiz em Reykjavk.
        - Mas eu j estou atrasado na correo dos trabalhos - respondeu o pai dela, Byron. - Eu ainda no voltei ao ritmo das aulas.
        Ella suspirou.
        - Como  que eles j entregaram trabalhos, se voc s deu aula dois dias?
        - Eu lhes dei a primeira tarefa antes de o semestre comear. - Byron pareceu distrado. -Vou compensar voc, prometo. E sobre o Otto's? Sbado  noite?
        Aria entrou pelo vestbulo. Sua famlia tinha acabado de voltar de uma estadia de dois anos em Reykavk, na Islndia, onde o pai dela tirara um perodo sabtico 
de seu trabalho como professor em Hollis, uma faculdade de artes liberais, em Rosewood. Tinha sido uma pausa agradvel para todos eles. Aria precisava dar um tempo 
aps o desaparecimento de Ali; seu irmo, Mike, precisava adquirir alguma cultura e disciplina; e Elia e Byron, que haviam comeado a passar dias sem se falar, pareciam 
ter se apaixonado de novo na Islndia. Mas, ento, novamente no lar da famlia, todos eles estavam de volta aos seus hbitos disfuncionais.
        Aria foi at a cozinha. O pai havia sado e a me estava em p, perto da bancada, com a cabea apoiada nas mos. Ela se animou quando viu Aria.
        -  Como voc est, gatinha? - perguntou Ella, atenciosa, mexendo no carto que fora dado como lembrana do servio fnebre de Ali.
        - Estou bem - murmurou Aria. 
        -Voc quer falar sobre isso? 
        Aria sacudiu a cabea.
        - Mais tarde, talvez.
        Ela saiu apressada para a sala, sentindo-se esgotada e incapaz de se concentrar, como se tivesse bebido seis latas de Red Bull. E no era apenas por causa 
do funeral de Ali.
        Na semana anterior, A a atormentara por causa de um de seus segredos mais sombrios: no stimo ano, Aria pegara o pai aos beijos com uma de suas alunas, uma 
garota chamada Meredith. Byron pedira que Aria no contasse nada para a me, e Aria nunca havia contado, apesar da culpa que sentia por causa disso. Quando A ameaou 
contar a Ella toda a verdade, Aria pensou que A fosse Alison. Ali estava com Aria no dia em que ela flagrou Byron e Meredith juntos, e Aria nunca contara isso para 
mais ningum.
        Naquele momento, Aria sabia que A no podia ser Alison, mas a ameaa de A ainda a rondava, com a promessa de arruinar a famlia dela. Ela sabia que devia 
contar a Ella antes que A o fizesse - mas no conseguia se obrigar a fazer isso.
        Aria foi at a varanda de trs, passando a mo pelo cabelo preto. Um facho de luz esbranquiada passou zunindo. Era seu irmo, Mike, correndo pelo quintal 
com sua rede de lacrosse.
        - Ei! - chamou ela, tendo uma ideia. Como Mike no respondeu, ela foi at l fora, no gramado, e se plantou na frente dele. -Vou dar um pulo no centro. Quer 
vir?
        Mike fez uma careta.
        - O centro est cheio de hippies sujos. Alm do mais, estou treinando.
        Aria revirou os olhos. Mike estava to obcecado em fazer parte da equipe de lacrosse de Rosewood Day que nem tinha se importado em tirar o terno cinza-chumbo 
que usara no funeral antes de comear seus exerccios. O irmo dela era a cara de Rosewood - usando o bon encardido de beisebol, viciado em PlayStation e economizando 
para comprar um Jeep Cherokee verde-exrcito assim que fizesse dezesseis anos. Infelizmente, no havia dvida que eles tinham os mesmos genes - tanto Aria como seu 
irmo eram alto, tinham cabelo preto-azulado e feies angulares inesquecveis.
        - Bem, eu vou tomar um porre - informou ela a ele. - Voc tem certeza de que quer treinar?
        Mike estreitou os olhos azul-cinzentos para olhar para ela, processando a informao.
        -Voc no est me arrastando para algum sarau de poesia sem que eu saiba?
        Ela negou com a cabea.
        -  Ns iremos ao mais srdido boteco de faculdade que conseguirmos achar.
        Mike deu de ombros e largou a rede de lacrosse.
        - Ento vamos l - respondeu ele.
Mike desabou em um dos reservados do bar.
        - Este lugar  demais.
        Eles estavam em Victory Brewery - que era mesmo o bar universitrio mais srdido que encontraram. De um lado, o bar era vizinho de um estdio que colocava 
piercings e do outro, de uma loja chamada Hippie Gypsy, que vendia "sementes hidropnicas" - estranho, muito estranho. Havia uma mancha de vmito na calada em frente 
ao bar, e um segurana que devia pesar uns cento e cinquenta quilos, meio cego, tinha sinalizado para eles entrarem direto. Estava muito envolvido na leitura de 
uma revista Dubs para reparar neles.
        L dentro, o bar era escuro e imundo, com uma mesa de pingue-pongue em pssimo estado nos fundos. Esse lugar era bem parecido com o Snooker's, outro bar 
encardido, frequentado por universitrios de Hollis, mas Aria havia jurado que nunca mais colocaria os ps l. Ela havia conhecido um cara sexy chamado Ezra no Snooker's, 
duas semanas antes, mas a ele acabou se revelando no ser bem um menino, e sim um professor de ingls - o professor de ingls dela. A enviou mensagens perturbadoras 
para Aria sobre Ezra e, quando Ezra, acidentalmente, viu o que A havia escrito, presumiu que Aria estivesse contando para toda a escola sobre eles. E assim acabou 
o romance de faculdade de Aria.
        Uma garonete de peitos enormes e usando tranas como as de Heidi, uma personagem de livros infantis, se aproximou da mesa deles e olhou para Mike cheia 
de suspeita.
        -Voc tem vinte e um anos?
        - Ah, tenho. - Mike cruzou as mos sobre a mesa. - Na verdade, eu tenho vinte e cinco anos.
        - Ns vamos querer uma jarra de Amstel - interrompeu Aria, chutando Mike por debaixo da mesa.
        - E - acrescentou Mike - eu quero uma dose de Jaeger. 
        Heidi Peites parecia desconfortvel, mas voltou com a jarra e a dose de licor. Mike bebeu o Jaeger num nico gole e fez uma careta horrorizada, de garotinha. 
Ele bateu o copo com fora na mesa de madeira e olhou para Aria.
        - Acho que descobri por que voc ficou to maluca. -Mike tinha dito, na semana passada, que achava que Aria estava agindo de forma ainda mais maluquinha 
que o usual e jurara descobrir o porqu disso.
        - Estou morrendo de curiosidade - disse Aria, seca. 
        Mike uniu os dedos como se desenhasse uma torre, uma atitude professoral que o pai deles sempre assumia.
        -Acho que voc est danando em segredo na Turbulence. - Aria deu uma risada to forte que a cerveja saiu pelo seu nariz. Turbulence era uma boate de striptease 
duas cidades adiante, perto de um aeroporto com uma s pista.
        - Dois caras disseram ter visto uma garota por l que era igualzinha a voc - continuou Mike. -Voc no precisa esconder isso de mim. Eu sou legal.
        Aria deu um puxo discreto em seu suti de angor. Ela havia feito um para ela mesma, e tambm para Ali e para suas velhas amigas no sexto ano, e havia usado 
o seu no memorial de Ali, como um tributo. Infelizmente, no sexto ano, Aria usava um nmero menor, e agora o tecido a apertava e dava uma coceira dos infernos.
        - Voc quer dizer que no acha que eu estou agindo de forma estranha porque: a) ns estamos de volta a Rosewood e eu odeio isso aqui; e b) minha antiga melhor 
amiga est morta?
        Mike deu de ombros.
        - Eu acho que voc no gostava de verdade daquela garota.
        Aria se virou. Tinha havido momentos nos quais ela realmente no gostava de Ali, isso era verdade. Em especial, quando Ali no a levava a srio, ou quando 
ela a infernizava, querendo saber detalhes sobre Byron e Meredith.
        - Isso no  verdade - mentiu.
        Mike colocou mais cerveja em seu copo.
        - No  muito estranho que ela estivesse, sei l,jogada num buraco? E, tipo, coberta de concreto?
        Aria estremeceu e fechou os olhos. Seu irmo no tinha tato algum.
        - E a, voc acha que algum a matou? - perguntou Mike.
        Aria deu de ombros. Essa era a pergunta que a assombrava - uma pergunta que ningum mais havia feito. No memorial de Ali, ningum teve peito de dizer que 
ela havia sido assassinada, s que ela havia sido encontrada. Porm o que mais poderia ter acontecido, alm de assassinato? Num minuto, Ali estava na festinha delas. 
No instante seguinte, tinha desaparecido. Trs anos depois, o corpo aparece em um buraco no quintal da casa dela.
        Aria se perguntou se A e o assassino de Ali tinham alguma ligao - e se essa questo envolvia, de alguma forma, A Coisa com Jenna. Quando o acidente de 
Jenna aconteceu, Aria pensou ter visto algum alm de Ali ao p da casa na rvore de Toby. Mais tarde, naquela noite, aquela viso manteve Aria acordada e ela decidiu 
que deveria perguntar a Ali sobre aquilo. Ela vira Ali e Spencer cochichando atrs da porta fechada do banheiro, mas, quando Aria pedira para entrar, Ali disse a 
ela para voltar a dormir. E, pela manh, Toby confessou tudo.
        - Eu aposto que o assassino , tipo, algum que vai sair do nada - disse Mike. - Como... algum que voc jamais adivinharia, nem em um milho de anos.- Os 
olhos dele brilharam. - Que tal a sra. Craycroft?
        A sra. Craycroft era a vizinha idosa deles,  direita. Uma vez, ela guardou cinco mil dlares em moedas dentro de jarras de Poland Spring e tentou troc-las 
por dinheiro na Coinstar mais prxima. O canal de TV local fez uma matria com ela e tudo.
        - Ah, t, voc resolveu o caso - disse Aria, inexpressivamente.
        - Bem, algum como ela. - Mike bateu com os ns de seus dedos na mesa. - Agora que eu sei o que est acontecendo com voc, posso voltar minha ateno a Ali 
D.
                - Mande bala. - Se a polcia no tinha habilidade suficiente para encontrar Ali em seu prprio quintal, Mike podia muito bem tentar dar uma ajudazinha 
para eles.
- Bem, acho que precisamos jogar um pouco de cerveja-pong - sugeriu Mike, e, antes que Aria pudesse responder, ele j havia reunido algumas bolas de pingue-pongue 
e um copo com capacidade de 500 ml. - Esse  o jogo preferido de Noel Kahn.
        Aria sorriu de forma maliciosa. Noel Kahn era um dos meninos mais ricos da escola e o mais perfeito exemplo de garoto de Rosewood, o que, em suma, fazia 
dele um dolo para Mike. E, ironia das ironias, parecia ter uma queda por Aria, que ela estava tentando ao mximo desencorajar.
        - Deseje-me boa sorte. - Mike segurou a bola de pingue-pongue em posio de saque. Ele errou o copo e a bola rolou da mesa para o cho.
        - Primeira bola fora - cantarolou Aria, com voz montona, e o irmo envolveu seu copo de cerveja com as mos e derramou todo o contedo garganta abaixo.
        Mike tentou, pela segunda vez, jogar a bola de pingue-pongue no copo de ria, mas errou de novo.
        -Voc  pssimo! - provocou Aria, a cerveja comeando a fazer com que ela se sentisse meio tontinha.
        - Como se voc fosse melhor - retrucou Mike.
        - Quer apostar? 
        Mike bufou.
        - Se voc no conseguir, tem que me colocar para dentro da Turbulence. Eu e Noel. Mas no enquanto voc estiver trabalhando - acrescentou ele, depressa.
        - Se voc no conseguir, vai ter que ser meu escravo por uma semana. E durante a escola tambm.
        - Fechado - concordou Mike. -Voc no vai mesmo conseguir, ento no importa.
        Ela empurrou o copo para o lado da mesa em que Mike estava e mirou. A bola fez uma curva desviando-se de uma das muitas irregularidades da mesa e aterrissou 
direitinho dentro do copo de vidro, sem sequer encostar nas laterais.
        - Ah! - gritou Aria. -Voc j era! 
        Mike estava aturdido.
        - Foi s uma jogada de sorte.
        - No importa! - Aria riu, se divertindo. - Assim sendo... ser que eu deveria fazer voc rastejar de quatro atrs de mim pela escola? Ou vestir o faldur 
da mame? - Ela deu uma risadinha. O faldur de Ella era um chapu pontudo, tradicional da Islndia, que fazia quem o usasse parecer um elfo maluco.
        - Dane-se. - Mike tirou a bola de pingue-pongue do copo. Ela escorregou da mo dele e saiu quicando para longe.
        - Eu pego - ofereceu-se Aria, sentindo-se agradavelmente bbada. A bola tinha rolado at a frente do balco e Aria inclinou-se at o cho para peg-la. Um 
casal passou por ela e se espremeu em assentos difceis de serem espionados, num canto escondido e discreto. Aria notou que a mulher tinha cabelos escuros e compridos 
e uma teia de aranha tatuada no pulso.
        Aquela tatuagem lhe era familiar. Muito familiar. E, quando ela sussurrou alguma coisa para o cara com quem estava, ele comeou a tossir feito um louco. 
Aria endireitou o corpo.
        Era o pai dela. Com Meredith.
        Ela correu ao encontro do irmo.
        - Temos que ir. 
        Mike virou os olhos.
        - Mas eu acabei de pedir uma segunda dose de Jaeger.
        - Deixe para l. - Aria pegou o casaco. - Vamos embora. Agora.
        Ela jogou quarenta dlares em cima da mesa e puxou Mike pelo brao at ele ficar em p. Ele cambaleava um pouco, mas ela conseguiu empurr-lo na direo 
da porta.
        Infelizmente, Byron escolheu exatamente aquele momento para dar umas de suas risadas inconfundveis, que Aria sempre disse que parecia o som de uma baleia 
morrendo. Mike ficou imvel, tambm reconhecendo a risada. O rosto do pai deles estava de perfil e ele estava tocando a mo de Meredith do outro lado da mesa.
        Aria viu que Mike reconheceu o pai. Ele juntou as sobrancelhas.
        - Espera a - guinchou ele, olhando confuso para Aria.
        Ela queria que seu rosto aparentasse despreocupao, mas, em vez disso, sentiu os cantos de sua boca desabarem. Sabia que estava fazendo a mesma cara que 
Ella fazia quando tentava proteger Aria ou Mike das coisas que poderiam feri-los.
        Mike estreitou os olhos para encar-la e, depois, olhou de volta para o pai e Meredith. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, depois a fechou e deu um 
passo na direo deles. Aria o alcanou para det-lo - no queria que isso acontecesse justo naquele momento. Ela no queria que isso acontecesse nunca. Depois, 
Mike endureceu o queixo, deu as costas para o pai e arrancou para fora do Victory, esbarrando na garonete que os atendera no caminho.
        Aria saiu logo atrs dele. Parada na vaga junto ao meio-fio, ela cerrou os olhos por causa da claridade da tarde, olhando de um lado para o outro procurando 
por Mike. Mas o irmo havia ido embora.
5
LAR  DIVIDIDO
Spencer acordou no cho de seu banheiro, sem a menor noo de como fora parar l. O relgio  prova d'gua marcava 18:45 e, pela janela, o sol do final de tarde 
projetava longas sombras no jardim deles. Ainda era segunda-feira, o dia do funeral de Ali. Ela devia ter cado no sono... e andado enquanto dormia. Ela costumava 
ser sonmbula crnica - seu estado piorou tanto no stimo ano que tivera que passar uma noite na Clnica de Avaliao do Sono, da Universidade da Pensilvnia, com 
eletrodos ligados ao seu crebro. O mdico disse que era s estresse.
        Ela se levantou e jogou gua fria no rosto, olhando-se no espelho: cabelo louro e comprido, olhos verde-esmeralda, queixo pontudo. Sua pele era perfeita 
e seus dentes eram brilhantes de to brancos. Parecia estranho que sua aparncia no demonstrasse como ela se sentia pssima.
        Ela examinou a equao em sua cabea mais uma vez: A sabia sobre Toby e sobre A Coisa com Jenna. Toby estava de volta. Logo, Toby tinha de ser A, e ele estava 
dizendo a Spencer que mantivesse a boca fechada. Era a mesma tortura do sexto ano, tudo igual.
        Ela voltou para o quarto e encostou a testa no vidro da janela.  sua esquerda ficava o moinho particular da famlia, que no funcionava mais havia muito 
tempo, mas seus pais amavam o tom rstico e autntico que ele dava  propriedade.  sua direita, a fita com a frase "No Ultrapasse" pintada em letras pretas ainda 
estava por todo o gramado dos DiLaurentis. O santurio de Ali, feito de flores, vela, fotos e outras bugigangas em homenagem a ela, havia crescido, engolindo todo 
o beco.
        Do outro lado da rua ficava a casa dos Cavanaugh. Dois carros na garagem, uma cesta de basquete no quintal, a bandeirola vermelha na caixa de correspondncia. 
Mas l dentro...
        Spencer fechou os olhos, lembrando-se do ms de maio no stimo ano, um ano depois da Coisa com Jenna. Ela tinha entrado num trem para encontrar com Ali na 
cidade, onde iam fazer compras. Estava to ocupada escrevendo uma mensagem de texto para Ali em seu sensacional Sidekick novo que s cinco ou seis paradas depois 
ela notou que havia algum do outro lado do vago. Era Toby. Encarando-a.
        Suas mos comearam a tremer. Ele havia estado no internato o ano todo, ento Spencer no o via h meses. Como de hbito, o cabelo dele caa sobre os olhos 
e ele usava fones de ouvido enormes, mas alguma coisa nele naquele dia parecia... mais intensa. E mais assustadora.
        Todos os sentimentos de culpa e ansiedade sobre A Coisa com Jenna que Spencer havia tentado enterrar voltaram  tona. Eu vou pegar voc. Ela no queria ficar 
no mesmo vago que ele. Ela colocou uma perna no corredor, depois a outra, mas o cobrador entrou na sua frente, de forma abrupta.
        -Voc est indo para a rua Treze ou para a Market East? -rugiu ele.
        Spencer encolheu-se de volta no banco.
        - Para a Treze - sussurrou ela. Quando o cobrador saiu de vista, ela deu uma olhada para Toby de novo. O rosto dele se abriu em um sorriso enorme e sinistro. 
E, um segundo depois, sua boca estava impassvel mais uma vez, mas seus olhos diziam: Espere...s...para... ver.
        Spencer se levantou rapidamente e passou para outro vago. Ali estava esperando por ela na plataforma da rua Treze, e quando elas olharam para a parte de 
trs do trem, Toby as estava encarando.
        -Vejo que algum saiu de sua prisozinha - disse Ali, com um sorriso malicioso.
        -  sim. - Spencer riu da situao. - E ele ainda  um perdedor com P maisculo.
        Mas, poucas semanas depois, Ali desapareceu. E a no foi to engraado.
        Um barulho de assobio vindo do computador de Spencer a fez dar um pulo. Era seu alerta de recebimento de e-mails. Ela foi verificar, agitada, e clicou na 
nova mensagem.
        Oi, amor, no falo com voc h dois dias e vou ficar louco 
        de saudade. - Wren
Spencer suspirou, sentindo algo se agitar dentro dela. No instante em que pusera os olhos em Wren - sua irm o levara para conhecer os pais em um jantar de famlia 
- alguma coisa acontecera com ela. Era como... como se ele a tivesse enfeitiado no segundo em que se sentou no Moshulu, tomou um gole de vinho tinto e a olhou dentro 
dos olhos. Ele era ingls, extico, engraado e inteligente, e gostava das mesmas bandas indie que Spencer. Ela sabia... e, pelo jeito, ele tambm.
        Antes de Melissa peg-los dando uns amassos na sexta-feira  noite, ela e Wren haviam experimentado vinte inacreditveis minutos de paixo. Mas, por causa 
da fofoca de Melissa, e porque os pais de Spencer sempre ficavam do lado da irm, eles a proibiram de voltar a ver Wren. Ela estava louca de saudade dele tambm, 
mas o que poderia fazer?
        Sentindo-se meio grogue e instvel, desceu as escadas e passou pelo longo e estreito corredor, que a me havia transformado em galeria e onde expunha as 
paisagens de Thomas Cole, que herdara do av. Ela entrou na cozinha espaosa da famlia. Seus pais a haviam restaurado para que se parecesse como era em 1800 - exceto 
pelos eletrodomsticos de ltima gerao. Sua famlia estava reunida em volta da mesa da cozinha, cercada de embalagens de comida tailandesa para viagem.
        Spencer hesitou ao entrar. No falava com eles desde antes do funeral de Ali - ela havia dirigido sozinha at l e mal os havia visto mais tarde, na frente 
da igreja.
        Na verdade, ela no falava com a famlia desde que eles a haviam repreendido por causa de Wren, dois dias antes, e agora eles a estavam evitando de novo, 
passando a jantar sem ela. E tinham companhia. Ian Thomas, um antigo namorado de Melissa - e o primeiro dos ex-namorados de Melissa que Spencer havia beijado - estava 
sentado no que deveria ser o lugar de Spencer.
        - Oh! - guinchou ela.
        Ian foi o nico que olhou para ela.
        - Ei, Spence! Como vai voc? - perguntou, como se jantasse na casa dos Hastings todos os dias. J era difcil o suficiente para Spencer que Ian estivesse 
treinando o time de hquei dela em Rosewood, mas aquilo era bizarro.
        - Eu estou... bem - disse Spencer, seus olhos correndo de um membro da famlia para outro, mas ningum estava olhando para ela... ou explicando por que Ian 
estava se entupindo de comida tailandesa na cozinha deles. Spencer puxou uma cadeira para o canto da mesa e comeou a colocar um pouco de frango com capim-limo 
em seu prato.
        - Bem, hum, Ian. Ento, voc est jantando conosco?
        A sra. Hastings lanou um olhar penetrante em sua direo. Spencer fechou a boca, tomada por uma sensao quente e sufocante.
        - Ns nos encontramos no, hum, enterro - explicou Ian. Uma sirene o interrompeu e Ian derrubou o garfo. O barulho parecia estar vindo da casa dos DiLaurentis. 
Havia carros de polcia por l o tempo todo.
        - Que coisa de doido, no? - Ian passou uma das mos pelo cabelo louro cacheado. - Eu no sabia que ainda havia tantos carros de polcia por aqui.
        Melissa lhe deu uma cotovelada de leve.
        -Voc j tem uma longa ficha na polcia, morando l naquele lugar perigoso que  a Califrnia? - Melissa e Ian tinham terminado porque ele se mudara para 
o outro lado do pas, para fazer faculdade em Berkeley.
        - No - respondeu Ian. Antes que ele pudesse continuar, Melissa, de um jeito bastante prprio, mudara o assunto para outro tpico: ela mesma. Ela se virou 
para a sra. Hastings.
        - Bem, mame, as flores no memorial eram da mesma cor que eu quero pintar as paredes da minha sala.
        Melissa pegou uma revista Martha Stewart Living e a abriu em uma pgina marcada. Ela estava sempre falando sobre reformas; estava redecorando o sobrado na 
Filadlfia que os pais lhe haviam comprado como presente por ter entrado na Escola de Administrao da Universidade da Pensilvnia. Eles nunca fariam nada parecido 
com aquilo para Spencer.
        A sra. Hastings inclinou-se para ver.
        - Encantador.
        - Muito legal - concordou Ian.
        Uma risada de descrena escapou da boca de Spencer.
        O servio fnebre de Alison DiLaurentis tinha sido naquele mesmo dia e tudo o que elas podiam pensar em conversar era sobre cores de tinta?
        Melissa virou-se para Spencer.
        - O que foi isso?
        - Bem... quer dizer... - gaguejou Spencer. Melissa parecia ofendida, como se Spencer tivesse mesmo dito alguma coisa rude. Ela agitou o garfo. - Esquece.
        Houve outro silncio. At mesmo Ian parecia meio ressabiado com ela. O pai tomou um grande gole de vinho. 
        -Vernica, voc viu a Liz por l?
        - Sim, eu conversei um pouco com ela - disse a me de Spencer. - Achei que ela parecia fantstica... considerando tudo. Por Liz, Spencer entendeu que fosse 
Elizabeth DiLaurentis, a tia mais nova de Ali, que vivia naquela rea.
        - Deve ter sido horrvel para ela - declarou Melissa, solene. - No posso nem imaginar.
        Ian fez um hummmm de empatia. Spencer sentiu seu lbio de baixo tremer. Oi, e eu? Ela queria gritar. Vocs no se lembram? Eu era a melhor amiga de Ali!
        Depois de alguns minutos de silncio, Spencer se sentiu menos bem-vinda. Ela esperou que algum perguntasse como estava indo, oferecesse a ela um pedao 
de tempura ou, pelo menos, que dissesse "sade" quando ela espirrasse. Mas eles ainda a estavam punindo por beijar Wren. Mesmo que aquele dia fosse... aquele.
        Uma bola se formou em sua garganta. Ela estava acostumada a ser a favorita de todo mundo: dos professores, dos treinadores de hquei, do editor do livro 
do ano. Mesmo o rapaz que tingia seu cabelo, Uri, dissera que ela era sua cliente favorita porque o cabelo dela pegava cor de um jeito lindo. Ela havia ganhado vrios 
prmios na escola e tinha trezentos e setenta amigos no MySpace, sem contar as bandas. E mesmo que jamais pudesse ser a favorita dos pais - era impossvel eclipsar 
Melissa - ela no podia suportar que eles a odiassem. Especialmente naquele momento, quando tudo em sua vida estava to instvel.
        Quando Ian se levantou e pediu licena para dar um telefonema, Spencer respirou fundo.
        - Melissa. - Sua voz estava estridente.
        A irm olhou para ela e depois voltou a brincar com a comida tailandesa em seu prato.         Spencer limpou a garganta.
        - Ser que voc pode falar comigo, por favor? 
        Melissa mal moveu os ombros.
        - Quero dizer... no posso    no posso ter voc me odiando. Voc tem toda razo. Sobre    voc sabe o qu. - As mos dela tremiam tanto que ela as manteve 
presas debaixo das pernas. Pedir desculpas a fazia sentir-se nervosa.
        Melissa dobrou as mos sobre suas revistas.
        - Desculpe - disse ela. -Achei que isso estava fora de questo. - Ela se levantou e levou o prato at a pia.
        - Mas... - Spencer estava chocada. Olhou para os pais. - Eu realmente sinto muito... - Ela sentiu as lgrimas se acumulando em seus olhos.
        O rosto de seu pai esboou uma sombra de simpatia, mas ento ele desviou o olhar depressa. A me colocou o que sobrara do frango com capim-limo em um Tupperware 
e deu de ombros.
        -Voc cavou sua prpria cova, Spencer - disse ela, enquanto levantava para levar as sobras do jantar para a enorme geladeira de ao inoxidvel
        -Mas...
        - Spencer. -A voz do sr. Hastings parecia dizer pare de falar. 
        Spencer calou a boca. Ian entrou trotando na cozinha com um sorriso enorme e abobalhado no rosto. Ele sentiu a tenso no ar e seu sorriso se apagou.
        -Vamos l. - Melissa ficou em p e segurou o brao dele. -Vamos sair para comer a sobremesa.
        - Claro. - Ian deu uma batidinha no ombro de Spencer. - Spence? Quer vir junto?
        Spencer no queria mesmo ir - e pela cutucada que Melissa deu nele, pareceu que ela tambm no queria que a irm fosse, mas Spencer nem teve chance de responder. 
A sra. Hastings disse, rapidamente:
        - No, Ian, Spencer vai ficar sem sobremesa. - O tom de voz dela era o mesmo que usava para repreender os ces.
        - Obrigada de qualquer forma. - Spencer tentou segurar o choro. Para disfarar, ela enfiou uma garfada enorme de molho picante de manga na boca. Mas escorreu 
pela sua garganta antes que sequer precisasse engolir; o molho espesso queimando enquanto descia. Por fim, depois de uma srie de barulhos horrveis, Spencer cuspiu 
aquilo num guardanapo. Mas quando as lgrimas pararam de cair, foi que ela viu que os pais no se aproximaram para ter certeza de que no estava sufocando. Eles 
simplesmente haviam sado da cozinha.
        Spencer enxugou os olhos e olhou para o nojento bolo mastigado que tinha cuspido no guardanapo. Era daquele jeito que ela se sentia.
6
A CARIDADE NO  ASSIM TO DOCE
Na tera-feira  tarde, Hanna arrumou a blusa creme e o cardig soltinho que tinha vestido depois da escola e correu de propsito pelos degraus do consultrio de 
cirurgia plstica William Atlantic e da clnica de reabilitao de queimados. Se voc fosse tratar algumas queimaduras srias, iria  clnica de William Atlantic. 
Se fosse fazer uma lipo, iria  clnica de Bill Beach.
        O prdio havia sido construdo na parte de trs no bosque, e apenas um pequeno pedao podia ser visto atravs das imponentes rvores. O mundo todo cheirava 
a flores silvestres. Uma tarde perfeita de outono para ficar de bobeira na piscina do country club e observar os garotos jogando tnis. Era uma tarde perfeita para 
dar uma corridinha de dez quilmetros a fim de queimar o pacote de cheetos que ela detonara na noite anterior, enlouquecida pela visita surpresa do pai. Aquela podia 
at mesmo ser uma tarde perfeita para observar um formigueiro ou tomar conta dos gmeos de seis anos da vizinha. Qualquer coisa seria melhor do que o que ela estava 
fazendo: sendo voluntria numa clnica para pessoas com queimaduras.
        Ser voluntria era quase um xingamento para Hanna. Sua ltima experincia tinha sido no desfile de caridade do colgio Rosewood. Meninas de Rosewood usando 
roupas de grife desfilaram pelo palco, o pessoal deu lances pelas roupas exibidas e o dinheiro foi para a caridade. Ali vestiu um Calvin Klein estonteante, bem justo, 
e um pirralho cheirando a fraldas deu um lance de mil dlares por ele. Hanna, por outro lado, teve de usar uma monstruosidade rodada e cor de non de Betsey Johnson, 
que a fazia parecer ainda mais gorda do que era. A nica pessoa a dar lances na roupa que ela usava fora seu pai. Uma semana depois, seus pais anunciaram que iriam 
se divorciar.
        E, ento, seu pai estava de volta. Ou alguma coisa parecida.
        Quando Hanna pensava na visita do pai no dia anterior, sentia-se tonta, ansiosa e brava, tudo ao mesmo tempo. Desde sua transformao, sonhava com o momento 
em que o encontraria de novo. Ela estava magra, era popular e equilibrada. Em seu sonho, ele sempre reaparecia com Kate, que ficara gorda e cheia de espinhas, e 
Hanna parecia muito mais bonita que ela.
        - ! - gritou ela. Algum saiu pela porta no momento em que ela estava entrando.
        - Olhe por onde anda - resmungou a pessoa. Ento, Hanna ergueu os olhos. Ela estava diante de portas duplas de vidro, perto de um cinzeiro e de um enorme 
vaso com prmulas. A pessoa saindo do prdio era... Mona.
        O queixo de Hanna caiu. Mona estava com o mesmo olhar surpreso. Elas estudaram uma  outra.
        - O que voc est fazendo aqui?
        - Visitando uma amiga da minha me. Plstica de seios. - Mona havia cortado o cabelo louro-claro acima dos ombros sardentos. - E voc?
        - Hum, a mesma coisa. - Hanna observou Mona com ateno. O radar de mentiras de Hanna apitou dizendo a ela que Mona podia estar mentindo. Mas, ento, talvez 
Mona pudesse sentir a mesmssima coisa sobre ela.
        - Bem, vou embora daqui. - Mona endireitou a bolsa vinho num dos ombros. - Ligo para voc mais tarde.
        - Tudo bem - grasnou Hanna. Elas seguiram em direes opostas. Hanna se virou e deu uma olhada em Mona, s para constatar que a amiga estava olhando para 
ela por sobre o ombro.
- Agora, preste ateno - disse Ingrid, a enfermeira-chefe alem, impassvel e corpulenta. Elas estavam na sala de exames, e Ingrid ensinava Hanna como limpar as 
latas de lixo. Como se houvesse algum mistrio nisso.
        Todas as salas de exame eram pintadas de verde-abacate e as nicas coisas penduradas nas paredes eram psteres austeros, que mostravam doenas de pele. Ingrid 
designou Hanna para o ambulatrio; e um dia, se Hanna fizesse tudo direito, em vez do ambulatrio, ela teria permisso de limpar os quartos dos pacientes internados 
- onde as pessoas com queimaduras graves ficavam. Sortuda.
        Ingrid puxou o saco de lixo.
        - Isto aqui vai para o lato de lixo azul, que fica l atrs. E voc precisa esvaziar as latas de lixo hospitalar tambm. - Ela fez um gesto em direo a 
algo idntico a uma lata de lixo. - Esse tipo de lixo precisa ser sempre recolhido separadamente do lixo comum. E voc tem que usar isto aqui. - Ela deu um par de 
luvas de ltex para Hanna. Hanna olhou como se elas estivessem cobertas de lixo hospitalar.
        Em seguida, Ingrid indicou o corredor.
        - H dez outras salas de exame aqui - explicou ela. - Esvazie as lixeiras e limpe as tampas tambm. E, depois, venha me procurar.
        Tentando prender a respirao - ela tinha horror quele cheiro de hospital, gente doente e desinfetante -, Hanna se arrastou at o armrio de material de 
limpeza para pegar mais sacos de lixo. Ela olhou para o corredor, imaginando onde eram os quartos dos pacientes. Jenna tinha sido internada aqui. Um monte de coisas, 
desde o dia anterior, tinham feito com que pensasse na Coisa com Jenna, apesar de ela continuar tentando tirar aquilo da cabea. A ideia de que algum sabia - e 
podia espalhar o fato - era algo que ela realmente no conseguia entender.
        Apesar de a Coisa com Jenna ter sido um acidente, algumas vezes Hanna achava que no era bem assim. Ali tinha dado um apelido a Jenna: Branca, como em Branca 
de Neve, porque Jenna tinha uma semelhana irritante com a personagem da Disney. Hanna tambm achava que Jenna se parecia com a Branca de Neve - mas no bom sentido. 
Jenna no era bem-cuidada como Ali, mas havia algo estranhamente bonito nela. Certa vez, ocorrera a Hanna que a nica personagem da Branca de Neve com a qual ela 
se parecia era o Dunga.
        Ainda assim,Jenna era um dos alvos prediletos de Ali, ento, l no sexto ano, Hanna rabiscara uma fofoca sobre os seios de Jenna abaixo do suporte de toalhas 
de papel do banheiro feminino. Ela derrubara gua na carteira de Jenna, na aula de lgebra, para que ela tivesse uma mancha falsa de xixi nas calas. Ela tirou sarro 
do sotaque falso que Jenna usava para falar na aula de francs II... por isso, quando os paramdicos tiraram Jenna da casa na rvore, Hanna ficou enjoada. Ela havia 
sido a primeira a concordar em pregar uma pea em Toby. E ainda pensara:"talvez, se pregarmos uma pea em Toby, possamos pregar uma pea em Jenna tambm". Era como 
se ela tivesse desejado que aquilo acontecesse.
        As portas automticas fizeram barulho ao se abrirem, no final do corredor, tirando Hanna de seu devaneio. Ela ficou paralisada, com o corao disparado, 
desejando que a pessoa chegando fosse Sean, mas no era. Frustrada, tirou o BlackBerry do bolso do casaco e digitou o nmero dele. Caiu direto na caixa postal, e 
Hanna desligou. Ela ligou de novo, sem esperanas, mas, novamente, a ligao caiu na caixa postal.
        - Ei, Sean! - cantarolou Hanna depois do bipe, tentado parecer despreocupada. - Aqui  Hanna, de novo. Eu queria mesmo conversar, ento, hum, voc sabe onde 
me encontrar.
        Ela j havia deixado trs mensagens para ele naquele dia, dizendo que estaria na clnica naquela tarde, mas Sean no tinha respondido. Ela se perguntou se 
ele estava numa reunio do Clube da Virgindade - onde, recentemente, assinara um pacto de virgindade, jurando no fazer sexo, tipo, nunca. Talvez ele ligasse para 
Hanna quando terminasse a reunio. Ou... talvez, no ligasse. Hanna reprimiu o pensamento, tentando afastar essa possibilidade da mente.
        Ela suspirou e foi at a sala que servia como vestirio para os empregados e como almoxarifado. Ingrid tinha pendurado a bolsa Ferragamo de estanho em um 
gancho, perto de uma coisa de vinil vagabundo da Gap, e ela reprimiu a vontade de tremer de raiva. Ela guardou o telefone na bolsa, pegou um rolo de papel toalha 
e uma garrafa de desinfetante em spray e foi para uma sala de exames vazia. Na verdade, fazer esse trabalho talvez mantivesse sua cabea longe dos problemas com 
Sean e A.
        Quando estava terminado de esfregar a pia, sem querer, esbarrou em um armrio de metal que estava prximo. Dentro dele, havia prateleiras com caixas de papelo 
etiquetadas com nomes familiares. Tylenol 3.Vicodin. Hanna espiou l dentro. Havia centenas de amostras de remdios. Elas estavam... estavam ali. S. No estavam 
trancadas.
        Aquilo era a sorte grande.
        Hanna, mais que depressa, enfiou algumas mos cheias de Percocet nos bolsos incrivelmente fundos de seu casaco. Pelo menos, ia poder se divertir no final 
de semana com Mona fora dali.
        Ento, algum colocou a mo em seu ombro. Hanna deu um pulo para trs e se virou, derrubando o montinho de papel toalha ensopado com desinfetante e um vidro 
cheio de cotonetes no cho.
        - Por que voc ainda est na sala de exame dois? - Ingrid franziu a testa. Ela parecia um pug mal-humorado
        - Eu... eu s estava tentado fazer tudo direito. - Hanna logo se abaixou para recolher as toalhas de papel no lixo e torceu para que os Percocet no cassem 
de seus bolsos. Seu pescoo queimava onde Ingrid havia encostado.
        - Bem, venha comigo - disse Ingrid. - Tem alguma coisa fazendo barulho em sua bolsa. Est perturbando os pacientes.
        -Tem certeza de que  na minha bolsa? - perguntou Hanna. - Eu mexi agora na minha bolsa e...
        Ingrid fez com que Hanna a seguisse de volta ao vestirio. Com certeza, havia um barulhinho vindo do bolso interno da bolsa dela.
        -  s meu celular. - Hanna se animou. Talvez Sean tivesse ligado!
        - Bem, resolva isso sem fazer muito barulho e, depois, volte ao trabalho.
        Hanna tirou o BlackBerry da bolsa para checar quem estava ligando. Ela tinha uma nova mensagem.
        Hannakins: Esfregar o cho em Bill Beach no vai ajud-la 
        a ter sua vida de volta. Nem mesmo voc pode arrumar 
        essa baguna. E, alm disso, sei de algo que vai garantir 
        que voc no volte a ser a musa de Rosewood - nunca 
        mais. -A
        Hanna olhou em volta no vestirio, confusa. Leu de novo a mensagem, enjoada e com a garganta seca. O que A poderia saber que garantisse uma coisa daquelas?
        Jenna.
        Se A sabia que...
        Hanna digitou voando uma resposta no teclado de seu telefone: Voc no sabe de coisa nenhuma. Ela apertou ENVIAR. Em segundos, A respondeu:
        Eu sei de tudo. Eu poderia DESTRUIR VOC.
7
OH,  CAPITO,  MEU  CAPITO
Tera-feira, Emily estava parada, indecisa, na frente da porta do escritrio da treinadora Lauren.
        - Posso falar com a senhora?
        - Bem, eu tenho apenas alguns minutos antes de ter que entregar isso aos juzes - disse Lauren, segurando sua escala da competio. Aquele era o dia da Rosewood 
Tank, a primeira competio de natao da temporada. Na teoria, seria uma competio amistosa, todas as escolas preparatrias haviam sido convidadas, e no contava 
pontos, mas Emily sempre costumava se depilar para competir e ficava nervosa em todas as competies, como se a pontuao valesse. Mas no desta vez.
        - O que foi, Fieldsy? - perguntou Lauren.
        Lauren Kinkaid tinha trinta e poucos anos, cabelos louros permanentemente danificados pelo cloro e sempre usava camisetas com frases motivacionais de natao 
como AME SUAS BOLHAS ou TENHA ESTILO NO ESTILO LIVRE. Fazia seis anos que ela era a tcnica de natao de Emily. Primeiro, na Liga Mirim, depois no ensino fundamental, 
e, ento, em Rosewood. No eram muitas as pessoas que conheciam Emily to bem - no bem o suficiente para cham-la de "Fieldsy", para saber que seu jantar favorito 
pr-competio era fil apimentado do China Rose ou que, quando o nado borboleta de Emily estava trs dcimos de segundo mais rpido, significava que ela estava 
menstruada. E isso tornava o que Emily ia dizer muito mais difcil.
        - Eu quero sair da equipe - disse Emily, de uma vez por todas.
        Lauren piscou. Ela pareceu aturdida, como se algum tivesse acabado de lhe dizer que a piscina estava cheia de enguias eltricas.
        - Po-por qu?
        Emily fixou o olhar no cho de linleo xadrez.
        - No  mais divertido. 
        Lauren bufou.
        - Bem, no  sempre divertido. s vezes, d trabalho.
        - Eu sei. Mas... no quero mais fazer isso. 
        -Voc tem certeza?
        Emily suspirou. Ela pensou que tinha certeza. Na semana anterior, tinha certeza. Estivera nadando por anos, jamais se perguntando se gostava daquilo ou no. 
Com a ajuda de Maya, Emily tinha reunido a coragem para admitir a si mesma - e aos seus pais - que queria sair da equipe.
        Claro que isso tinha sido antes... de tudo. Agora, ela se sentia mais como um ioi do que nunca. Num minuto, queria sair da equipe. No instante seguinte, 
queria sua vida de boa menina normal de volta, a vida na qual ela ia para a natao, saa com sua irm, Carol nos fins de semana, e passava horas brincando no nibus 
com as outras meninas da equipe e lendo as previses de seu horscopo. E agora ela queria a liberdade de perseguir seus prprios interesses de novo. Exceto que... 
quais eram seus interesses, alm de nadar?
        - Eu estou to cansada - disse Emily afinal, numa tentativa de explicao.
        Lauren apoiou a cabea na mo.
        - Eu ia torn-la a capit da equipe. 
        Emily ficou embasbacada.
        - Capit?
        - Bem... . - Laura mexia nervosamente na caneta. - Pensei que voc merecia. Voc  um membro valioso da equipe, sabe? Mas se voc no quer mais nadar, ento...
        Nem mesmo seus irmos mais velhos, Jake e Beth, que haviam nadado pelos quatro anos do ensino mdio, e conseguiram bolsas de natao na faculdade, tinham 
sido capites.
        Lauren enrolou o apito no dedo.
        - E se eu pegar mais leve por um tempinho? - Ela pegou na mo de Emily. - Sei que tem sido duro o que aconteceu com sua arruga...
        - , sim. - Emily olhou para o pster de Michael Phelps de Lauren, torcendo para no comear a chorar de novo. Toda vez que algum mencionava Ali, ou seja, 
a cada dez minutos, ela ficava com um tique nervoso nos olhos e na boca.
        - O que voc me diz? - Lauren tentou persuadi-la.
        Emily passou a lngua pela parte de trs de seus dentes. Capit. Claro, ela era a campe estadual nos cem metros borboleta, mas Rosewood Day tinha uma equipe 
de natao excelente - Lane Iler acabara em quinto lugar nos quinhentos metros em estilo livre nas finais nacionais da faixa etria delas e a Universidade de Stanford 
j prometera a Jenny Kestler que ela participaria de todas as competies naquele ano. Lauren pensar em Emily em vez de Lanei ou Jenny significava alguma coisa.Talvez 
fosse um sinal de que sua vidinha, tomada pelo efeito ioi, fosse voltar ao normal.
        - Tudo bem - ouviu-se ela dizendo.
        - timo. - Lauren deu um tapinha em sua mo. Ela mexeu em uma de suas muitas caixas de papelo, cheias de camisetas, e deu uma para Emily. - Para voc. Um 
presente de comeo de temporada.
        Emily desdobrou a camiseta. GAROTAS QUE BORBOLETEIAM SO AS MAIS GAYS. Ela olhou para Lauren com a garganta arranhando de to seca. Lauren sabia?
        Lauren ergueu a cabea.
        -  uma referncia ao estilo de natao - explicou ela devagar. -Voc sabe, o nado borboleta.
        Emily olhou de novo para a camiseta. No estava escrito gays, mas gatas.
        - Oh - grasnou ela, dobrando a camiseta. - Obrigada. 
        Emily saiu do escritrio de Lauren e atravessou o saguo da piscina com as pernas tremendo. O lugar estava lotado de nadadores, todos l para participar 
do Tank. E, ento, ela parou, sentindo de repente que algum olhava para ela. Do outro lado do saguo, ela viu Ben, seu ex-namorado, encostado contra o armrio de 
trofus. Seu olhar era to intenso que ele nem piscava. A pele de Emily comeou a coar e seu rosto ficou vermelho. Ben deu um sorriso malicioso e se virou para 
sussurrar algo para seu melhor amigo, Seth Cardiff. Seth riu, deu outra olhada para Emily e sussurrou alguma coisa de volta para Ben. Depois disso, ambos riram silenciosamente.
        Emily se escondeu atrs de uma turma de nadadores do St. Anthony.
        Essa foi outra razo pela qual ela quis sair da equipe - para que no tivesse mais que encontrar com o ex-namorado, que sabia dela, todos os dias depois 
que as aulas acabassem. Ele havia flagrado Maya e Emily em uma situao mais-que-apenas-amizade na festa de Noel, na ltima sexta-feira.
        Ela disparou pelo corredor vazio que levava aos vestirios masculino e feminino, pensando de novo sobre a ltima mensagem de A. Era estranho, mas, quando 
Emily lera o torpedo no banheiro do hotel de Maya, foi quase como se pudesse ouvir a voz dela. Acontece que isso era impossvel, certo? Alm disso, Ben era a nica 
pessoa que sabia sobre Maya. Talvez, de alguma forma, ele tivesse descoberto que Emily tentara beijar Ali. Ser que... Ben era A?
        - Aonde voc est indo?
        Emily se virou para trs. Ben a seguira corredor adentro.
        - Ei. - Emily tentou sorrir. - E a?
        Ben estava vestindo seu bluso de moletom detonado da Champion, que ele achava que trazia sorte, ento, o usava em toda competio. Ele tinha raspado de 
novo o cabelo durante o final de semana. Isso fazia com que seu rosto, que j era anguloso, parecesse severo.
        - Nada aqui - respondeu ele, com maldade, sua voz ecoando nos azulejos das paredes. - Pensei que voc estava saindo da equipe.
        Emily deu de ombros.
        -  sim, bem, acho que mudei de ideia.
        -  mesmo? Voc parecia ter tanta certeza na sexta-feira. Sua namorada parecia to orgulhosa de voc.
        Emily desviou o olhar.
        - Ns estvamos bbadas.
        - Certo. - Ele deu um passo na direo dela.
        - Pense o que quiser. - Ela se virou para seu armrio. - E aquela mensagem que voc mandou no me assustou.
        Ben franziu as sobrancelhas.
        - Que mensagem? 
        Ela congelou.
        - A mensagem que diz que voc vai contar para todo mundo - disse ela, testando-o.
        - Eu no escrevi nenhuma mensagem para voc. - Ben endureceu o queixo. - Mas... eu poderia contar para todo mundo. Voc ser lsbica  uma historinha deliciosa.
        - Eu no sou gay - insistiu Emily, entre os dentes.
        - Ah, no? - Ben chegou mais perto. Emily sentiu sua respirao. - Prove.
        Emily deu uma risada que parecia um latido. Ah, era s o Ben.
        Mas, depois, ele inclinou-se na direo dela, agarrou seu pulso e a empurrou contra o bebedouro.
        Ela respirava pesadamente. A respirao quente de Ben estava contra o pescoo dela e cheirava a Gatorade de uva.
        - Para com isso - sussurrou ela, tentando se livrar dele. 
        Ben s precisou de um de seus braos fortes para segur-la. Ele pressionou seu corpo contra o dela.
        - Eu disse prove.
        - Ben, para com isso! - Lgrimas de medo escorriam dos olhos dela. Emily bateu nele com vontade, mas isso s o fez usar mais fora. Ele passou a mo no peito 
dela. Um guincho escapou de sua garganta.
        - Algum problema?
        De repente, Ben se afastou. Atrs deles, do lado mais afastado da sala, estava um garoto usando uma jaqueta da escola Tate Pre. Emily olhou meio de lado. 
O que...
        - Isso no  problema seu, cara - disse Ben em voz alta.
        -  O que no  problema meu? - O garoto chegou mais perto. Parece que , sim.
        Toby Cavanaugh.
        - Cara. - Ben se virou.
        Os olhos de Toby baixaram para a mo de Ben no pulso de Emily. Ele fez um sinal com o queixo para Ben.
        Ben deu uma olhada para Emily e depois a soltou. Ela se afastou dele, e Ben usou o ombro para manter a porta do vestirio masculino aberta. Depois, silncio.
        -Voc est bem? - perguntou Toby.
        Emily assentiu de cabea baixa.
        - Acho que sim.
        - Tem certeza?
        Emily olhou para Toby de esguelha.Ele havia ficado mesmo bem alto agora. Seu rosto no se parecia mais com o de um roedor assustado, mas, bem, ele tinha 
mas do rosto altas e lindos olhos escuros. Isso a fez pensar na mensagem de A. Apesar de a maioria de ns ter mudado completamente...
        Seus joelhos ficaram bambos. No poderia ser... poderia?
        - Preciso ir - murmurou ela e saiu correndo, com os braos abertos, para dentro do vestirio feminino.
8
AT  MESMO OS TPICOS GAROTOS DE
ROSEWOOD FAZEM  BUSCAS ESPIRITUAIS
Na tarde de tera-feira, enquanto dirigia da escola para casa, Aria passou pelo campo de lacrosse e reconheceu a figura solitria, correndo em disparada em volta 
da rea do gol, com a rede em riste na frente do rosto. Ele estava treinando passes e correndo na grama molhada e enlameada. Nuvens agourentas e cinzentas tinham 
se acumulado no cu, e comeava a garoar.         Aria encostou o carro de repente.
        - Mike! - Ela no via o irmo desde que ele sara intempestivamente do Victory no dia anterior. Algumas horas mais tarde, ele havia ligado para casa, dizendo 
que estava jantando na casa de um amigo, Theo. E, mais tarde ainda, ligara para avisar que ia dormir l.
        O irmo levantou o rosto e olhou para ela, do outro lado do campo, e franziu a testa.
        - Que foi?
        - Vem c.
        Mike se arrastou pelo gramado perfeito, cortado rente.
        - Entra aqui - mandou Aria.
        - Eu estou treinando.
        -Voc no pode evitar este assunto para sempre.Temos que conversar a respeito.
        - A respeito do qu?
        Ela ergueu uma de suas sobrancelhas perfeitamente arqueadas.
        - Ah, o que foi que vimos ontem? No bar?
        Ele brincou com um dos cadaros de couro da rede. Gotas de chuva batiam contra a aba de seu bon Brine.
        - No sei do que voc est falando.
        -  Como ? - Aria estreitou os olhos. Mas Mike nem mesmo olhou para ela.
        - Tudo bem. - Ela engatou a r. - Seja um frutinha. 
        Mike apoiou a mo no vo da janela do carro.
        - Eu... eu no sei o que vou fazer - disse ele, baixinho. 
        Aria pisou no freio.
        - O qu?
        - Se eles se divorciarem, eu no sei o que vou fazer - repetiu Mike. A expresso vulnervel e constrangida em seu rosto fazia com que ele parecesse ter dez 
anos. - Estourar meus miolos, talvez.
        Lgrimas escorriam dos olhos dela.
        - Isso no vai acontecer - garantiu ela, com a voz tremendo. - Eu prometo.
        Mike fungou. Ela estendeu a mo para toc-lo, mas ele se afastou e correu campo afora.
        Aria decidiu ir embora, seguindo devagar pela rua sinuosa e molhada. O tempo chuvoso era seu favorito. Fazia com que se lembrasse dos dias de chuva do passado, 
quando tinha nove anos. Ela entrava de fininho no veleiro do vizinho, subia pela parte de dentro da vela e se aconchegava dentro de uma das cabines, ouvindo o barulho 
da chuva batendo na lona e escrevendo em sua agenda da Hello Kitty.
        Ela sentia que pensava de forma mais clara em dias chuvosos e, neste momento, precisava mesmo pensar. Ela poderia ter lidado com A contando a Ella sobre 
a Meredith se aquilo tivesse acontecido no passado. Os pais dela poderiam sobreviver a algo assim; Byron poderia dizer que aquilo nunca mais aconteceria e bl-bl-bl. 
Mas, agora que Meredith estava de volta, bem, isso mudava tudo. Na noite anterior, seu pai no viera jantar em casa - por causa dos, hum, trabalhos que ele tinha 
que corrigir - e Aria e sua me sentaram-se no sof diante da televiso e assistiam a Jeopardy!, o programa de perguntas e respostas, com tigelas de sopa no colo. 
Ambas no mais absoluto silncio. E a questo era que ela tambm no saberia o que iria fazer se os pais se divorciassem.
        Subindo uma ladeira bem ngreme, Aria pisou no acelerador - o Subaru sempre precisava de um empurrozinho extra nas subidas. Mas, em vez de continuar em 
frente, as luzes do interior do carro se apagaram, e o automvel comeou a descer a ladeira de r.
        - Droga - sussurrou Aria, puxando o freio de mo. Quando tentou a ignio de novo, o carro nem sequer deu partida.
        Ela olhou para a estrada de duas pistas vazia. O som de um trovo ecoou e a chuva comeou a despencar do cu. Aria mexeu na bolsa, pensando se deveria chamar 
um guincho, ou seus pais para busc-la, mas, depois de remexer ali dentro, deu-se de conta de que havia esquecido o Treo em casa. A chuva caa to forte que o para-brisa 
e as janelas embaaram.
        - Ah, meu Deus - sussurrou Aria, sentindo-se claustrofbica. Ela comeou a ver pontinhos pretos na sua frente.
        Aria conhecia essa sensao de ansiedade: era um ataque de pnico. Ela j tivera alguns antes. Um depois da Coisa com Jenna, outro depois do desaparecimento 
de Ali e o terceiro aconteceu quando ela estava andando pela rua Laugavegur em Reykjavk e viu uma menina idntica a Meredith em um outdoor.
        Acalme-se, disse a si mesma.  s chuva. Ela respirou profundamente duas vezes para se acalmar, tampou os ouvidos com os dedos e comeou a cantar "Frre 
Jacques" - por alguma razo, a verso em francs funcionou. Depois de cantar a msica trs vezes, os pontinhos pretos comearam a desaparecer. A chuva perdera a 
fora de furaco e estava apenas torrencial. O que precisava fazer era andar at a casa da fazenda pela qual havia passado e perguntar se podia usar o telefone deles. 
Ela manteve a porta do carro aberta, segurou seu blazer de Rosewood por cima da cabea e comeou a correr. Uma rajada de vento ergueu sua minissaia e ela enfiou 
o p em uma poa de lama enorme. A gua entrou por entre as tiras de sua sandlia de salto alto.
        - Que inferno - resmungou.
        Estava apenas a alguns metros de distncia da casa quando um Audi azul-marinho passou. Ele passou sobre a poa d'gua, molhando Aria completamente e depois 
parou quando viu o Subaru quebrado. Deu r devagar, at chegar perto dela. O motorista baixou o vidro.
        -Voc est bem?
        Aria apertou os olhos, a chuva gotejava da ponta de seu nariz. No banco do motorista estava Sean Ackard, um garoto da sala dela. Ele era um menino tpico 
de Rosewood: jaqueta com capuz, pele hidratada, feies bem americanas, carro caro. A diferena  que ele jogava futebol em vez de lacrosse. No era o tipo de pessoa 
que ela queria ver justo numa hora daquelas.
        - Estou bem - gritou ela.
        - Na verdade, voc est ensopada. Precisa de uma carona?
        Aria estava to molhada que sentia como se o rosto estivesse enrugado como uma ameixa seca. O carro de Sean parecia seco e aconchegante. Por isso, ela deslizou 
para o banco do carona e fechou a porta.
        Sean disse a ela que jogasse o blazer, que estava pingando, no banco de trs. Depois, inclinou-se e aumentou o aquecimento.
        - Para onde vamos?
        Aria tirou os cachinhos pretos de sua testa.
        - Na verdade, s preciso usar seu celular, depois eu deixo voc em paz.
        - Tudo bem. - Sean mexeu em sua mochila em busca do celular.
        Aria encostou-se ao banco e olhou em volta. Sean no havia enchido seu carro com adesivos de bandas, como alguns caras faziam, e a parte de dentro no cheirava 
a suor masculino. Em vez disso, cheirava a uma combinao de po e cachorro recm-lavado. Havia dois livros no cho, em frente ao banco dos passageiros: Zen e a 
arte de manuteno de motocicletas e O Tao do Puff.
        -Voc gosta de filosofia? -Aria afastou as pernas, para no molhar os livros.
        Sean abaixou a cabea.
        - Bem, sim. - Ele parecia constrangido.
        -Tambm li esses dois - disse Aria. - Eu li muitos filsofos franceses esse vero, quando estava na Islndia. - Ela fez uma pausa. Nunca havia realmente 
falado com Sean. Antes de partir, os garotos de Rosewood lhe davam medo, o que era parte do motivo pelo qual os odiava. - Hum, eu passei um tempo na Islndia. Meu 
pai tirou um ano sabtico.
        - Eu sei. - Sean deu um sorriso cnico a ela. 
        Aria olhou para as prprias mos.
        -Ah. - E ento houve um silncio desconfortvel. O nico som era o da chuva batendo e do movimento ritmado dos limpadores de para-brisa.
        - Quer dizer que voc l, tipo, Camus e essas coisas? - perguntou Sean. Aria concordou, ele sorriu. - Eu li O Estrangeiro neste vero.
        - Mesmo? - Aria ergueu o queixo, certa de que ele no tinha entendido nada. E, de qualquer forma, o que um tpico garoto de Rosewood iria querer com livros 
profundos de filosofia? Se aquilo fosse uma analogia tpica dos testes de lgica que eles s vezes faziam na escola, poderia ser "garotos de Rosewood: lendo filsofos 
franceses :: Turistas americanos na Islndia: comendo em qualquer lugar, menos no McDonald's". Coisas como essas simplesmente no aconteciam.
        Quando Sean no respondeu, ela telefonou para casa do celular dele. Tocou sem parar at cair na caixa postal - eles no tinham ligado a secretria eletrnica 
ainda. Ento, ligou para o nmero do pai, na faculdade -j passava das cinco horas e ele tinha deixado um bilhete na geladeira dizendo que ficaria no escritrio 
entre as trs e meia e as cinco e meia da tarde. Chamou, chamou e l tambm ningum atendeu.
        Os pontinhos pretos comearam a piscar na frente de Aria mais uma vez enquanto ela imaginava onde o pai poderia estar... ou com quem poderia estar. Ela se 
inclinou sobre os braos nus, tentando respirar mais fundo. Frre Jacques, cantou em silncio.
        - Opa! - disse Sean, sua voz parecendo muito distante.
        - Eu estou bem - afirmou Aria com a voz amortecida por suas pernas. - Eu s tenho que...
        Ela ouviu Sean tatear pelo carro. Depois, ele enfiou um saco do Burger King nas mos dela.
        - Respira aqui dentro. Mas acho que ainda tem algumas batatas fritas, desculpe.
        Aria colocou o saco em volta da boca e o inflou e desinflou devagar. Ela sentia a mo morna de Sean no meio de suas costas e, devagar, a tontura comeou 
a ceder. Quando ela levantou a cabea, Sean olhava para ela, aflito.
        - Ataques de pnico? - perguntou ele. - Minha madrasta tambm tem. Sacos de papel sempre ajudam.
        Aria amassou o saco em seu colo.
        - Obrigada.
        - Tem alguma coisa irritando voc? 
        Aria balanou a cabea rapidamente.
        - No, eu estou legal.
        - Ah, qual ? - disse Sean. - No , tipo, por isso que as pessoas tm ataques de pnico?
        Aria apertou os lbios.
        -  complicado.
        Alm disso, ela queria dizer, desde quando tpicos garotos de Rosewood se interessam pelos problemas das meninas esquisitas? 
        Sean deu de ombros.
        -Voc era amiga de Alison DiLaurentis, certo? 
        Aria concordou.
        -  estranho, no ?
        - , sim. - Ela limpou a garganta. - Embora, hum, no seja estranho da forma como voc acha que . Quero dizer,  estranho desse jeito, mas  estranho de 
outros jeitos tambm.
        - De quais jeitos?
        Ela se inclinou para trs, sua roupa de baixo molhada estava comeando a coar. Naquele dia, na escola, pareceu que todos falavam com ela com sussurros infantis. 
Ser que eles achavam que, se falassem no volume normal, Aria poderia ter uma crise de nervos instantnea?
        - Eu s queria que todo mundo me deixasse em paz - falou ela. - Como era na semana passada.
        Sean mexeu no desodorizador em formato de pinheiro que estava pendurado no espelho retrovisor, fazendo-o balanar.
        - Sei o que voc quer dizer. Quando minha me morreu, todo mundo pensou que, se eu ficasse um segundo sozinho, iria cometer uma loucura.
        Aria endireitou-se no assento.
        - Sua me morreu? 
        Sean olhou para ela.
        - Sim. Mas foi h muito tempo. No quarto ano.
        - Ah. - Aria tentou se lembrar de Sean no quarto ano. Ele era uma das crianas mais baixinhas da classe, e ela havia jogado queimado no mesmo time que ele 
um monte de vezes, mas foi s isso. Ela se sentiu mal por ser to indiferente.
        - Meus psames.
        Ficaram em silncio. Aria cruzou e descruzou as pernas descobertas. O carro comeou a ficar com o cheiro de sua sala de l molhada.
        - Foi difcil - continuou Sean. - Meu pai teve um. monte de namoradas. Eu nem mesmo gostava da minha madrasta, no comeo. Mas me acostumei com ela, acho.
        Aria sentiu os olhos se encherem de lgrimas: ela no queria ter que se acostumar com mudanas na famlia dela. Deu uma fungadela alta.
        Sean chegou mais para a frente.
        - Tem certeza de que no quer falar sobre isso? 
        Aria encolheu os ombros.
        - Deveria ser um segredo.
        -Vou dizer o que podemos fazer. E se voc me contar o seu segredo e eu contar o meu para voc?
        -Tudo bem - concordou Aria, rapidamente. A verdade era que ela estava morrendo de vontade de falar com algum sobre o assunto. Ela teria confidenciado aquilo 
para suas velhas amigas, mas elas foram to discretas a respeito de seus segredos que envolviam A que isso fez com que Aria se sentisse ainda mais desconfortvel 
em revelar os dela. - Mas voc no pode contar nada.
        - De jeito nenhum.
        E, ento, Aria contou a ele sobre Byron e Ella; Meredith e o que ela e Mike haviam visto no dia anterior no bar. A coisa toda simplesmente saiu.
        - No sei o que fazer - desabafou. - Sinto como se fosse eu quem devesse manter todos juntos.
        Sean estava quieto, e Aria temeu que ele tivesse parado de escutar. Mas, ento, ele ergueu a cabea.
        - Seu pai no deveria ter colocado voc nessa situao.
        - , eu sei. - Aria deu uma olhada para Sean. Se voc superasse a camisa enfiada dentro da cala e a bermuda cqui, ele at que era bem bonitinho. Os lbios 
eram mesmo bem rosados e os dedos era nodosos, irregulares. Pela forma como sua camiseta polo justa estava esticada sobre o peito, ela imaginou que ele estava no 
auge da forma fsica para um jogador de futebol. De repente, ela ficou constrangida.
        -  fcil conversar com voc - disse Aria, tmida, fitando os prprios joelhos. Ela tinha deixado escaparem alguns pelinhos em seus joelhos quando se depilara. 
Isso no costumava fazer muita diferena, mas agora meio que fazia. - Por isso, hummm, obrigada.
        - Claro. - Quando Sean sorria, seus olhos ficavam enrugados e ternos.
        - Esta definitivamente no foi a forma como eu imaginei passar minha tarde - acrescentou Aria. A chuva ainda tamborilava no para-brisas, mas o carro tinha 
ficado bem quentinho durante o tempo em que ela tagarelava.
        - Nem eu. - Sean olhou pela janela. A chuva tinha comeado a diminuir. - Mas... no sei. At que foi legal, no foi?
        Aria deu de ombros. E ento, lembrou.
        - Ei, voc me prometeu um segredo!  melhor que seja bom.
        - Bem, no sei se  bom. - Sean se inclinou na direo de Aria e ela chegou mais perto. Por um louco segundo, pensou que eles poderiam se beijar.
        - Bom, eu fao parte desse negcio chamado Clube da Virgindade - sussurrou Sean. Seu hlito cheirava a balas Altoids. -Voc sabe do que se trata?
        - Acho que sim. - Aria tentou evitar que seus lbios esboassem um sorriso. -  aquele negcio de sem-sexo-at-o-casamento, certo?
        - Certo. - Sean se afastou um pouco. - Bem... eu sou virgem. Mas... no sei se quero continuar a ser.
9
A MESADA DE ALGUM  ACABA 
DE  FICAR  BEM   MENOR
Na quarta-feira  tarde, o sr. McAdam, o professor de economia de Spencer, andava pelas fileiras da sala de aula, pegando papis de uma pilha e colocando-os virados 
para baixo na carteira de cada estudante. Ele era um homem alto, com olhos saltados, nariz empinado e rosto redondo. Poucos anos antes, um de seus melhores alunos 
havia notado que ele se parecia com o Lula Molusco, do Bob Esponja, e o apelido pegara.
        - Alguns destes testes estavam bastante bons - murmurou.
        Spencer se endireitou. Ela fez o que sempre fazia quando no tinha certeza de como proceder em uma prova: pensou na pior nota que poderia tirar, uma nota 
que ainda assim garantisse que ela teria A como nota final da matria. Na maioria das vezes, a nota em que pensava era to baixa (embora, nota baixa para Spencer 
fosse um B+ ou, no mximo, um B-) que ela sempre acabava agradavelmente surpresa com o resultado. Um B+, disse ela a si mesma, enquanto o Lula Molusco colocou a 
prova em cima da carteira dela. Essa  a pior nota possvel. E, ento, ela virou a prova.
        Um B-.
        Spencer largou-a em cima da mesa como se estivesse pegando fogo. Verificou a prova procurando por questes em cuja correo Lula Molusco pudesse ter errado, 
mas ela realmente no sabia a resposta para as questes ao lado das quais havia um grande X vermelho.
        Tudo bem, talvez no tivesse estudado o suficiente.
        No dia anterior, quando haviam feito a prova, tudo em que ela fora capaz de pensar para preencher os parnteses das questes de mltipla escolha, havia sido: 
a) Wren, e em como ela nunca conseguia v-lo; b) Os pais e Melissa, e no que poderia fazer para que a amassem de novo; c) Ali; e d); e); f) e g) o segredo nojento 
que ela sabia sobre Toby.
        A tortura quanto a Toby era insana. Mas o que ela poderia fazer, ir  polcia? E dizer a eles... o qu? Que um menino disse: Vou pegar voc para mim, quatro 
anos atrs, e eu acho que ele matou Ali e que tambm vai me matar? Que recebi uma mensagem de texto que dizia que minhas amigas e eu estvamos em perigo? Os policiais 
poderiam dar risada e dizer que ela estivera tomando muita Ritalina. E ela tambm tinha medo de contar para suas amigas o que estava acontecendo. E se A estivesse 
falando srio e acontecesse alguma coisa com elas caso abrisse a boca?
        - Como voc foi? - uma voz sussurrou.
        Spencer deu um pulo. Andrew Campbell sentava-se ao seu lado e era to bom aluno e perfeccionista quanto ela. Ele e Spencer eram o primeiro e o segundo alunos 
da classe e estavam sempre trocando de lugar. Seu teste era exibido orgulhosamente em cima de sua carteira. No topo da folha estava um A+, grande e vermelho.
        Spencer trouxe o prprio teste para junto do peito.
        - Fui bem.
        - Que bom. - Uma mecha loura da juba de leo de Andrew caiu em seu rosto.
        Spencer mostrou os dentes. Andrew era conhecido por ser xereta. Ela sempre pensara que isso era s um sintoma da gigantesca competitividade dele e, depois 
da ltima semana, se perguntou se ele poderia ser A. Mas, apesar de o interesse sincero de Andrew nos detalhes da vida de Spencer ser suspeito, ela no achava que 
ele fosse capaz de uma coisa como aquela. Andrew tinha ajudado Spencer no dia em que os pedreiros encontraram o corpo de Ali, cobrindo-a com um cobertor quando ela 
entrara em choque. A no faria nada como aquilo.
        Enquanto o Lula Molusco passava lio de casa para eles, Spencer olhava para suas anotaes. Sua letra cursiva, que costumava ser achatada e uniforme, prxima 
 linha, agora cobria a pgina, indecisa. Ela comeou a passar tudo a limpo rapidinho, mas o sinal a interrompeu e Spencer se levantou sem jeito para sair. B-.
        - Srta. Hastings?
        Ela olhou para cima. Lula Molusco gesticulava para que fosse at a mesa dele. Ela andou at l, arrumando seu blazer azul-marinho do uniforme de Rosewood 
e tomando cuidado para no tropear em suas botas de montaria caramelo, de camura.
        -Voc  irm de Melissa Hastings, no ?
        Spencer sentiu que algo dentro ela morria um pouco.
        - H-h. - Era bvio o que viria a seguir.
        - Essa  uma tima notcia para mim, ento. - Ele batucou na mesa com a lapiseira. - Foi um prazer ter Melissa em minha sala de aula.
        Tenho certeza de que foi, resmungou Spencer para si mesma.
        - Onde ela est agora?
        Spencer deu um sorriso falso. Em casa, roubando o amor e a ateno de nossos pais.
        - Ela est em Wharton. Fazendo a MBA. 
        Lula Molusco sorriu.
        - Eu sempre soube que ela iria para Wharton. - Ento, deu uma boa olhada para Spencer. - A primeira parte das questes do trabalho que passei tem que ser 
entregue na prxima segunda-feira. E vou lhe dar uma sugesto: os livros extras que eu mencionei no resumo vo ajudar.
        -  Oh. - Spencer sentiu-se constrangida. Ele estava lhe dando uma dica porque lhe dera um B- e sentia pena dela, ou porque ela era irm de Melissa? Ela endireitou 
os ombros.
        - Eu j estava planejando compr-los, de qualquer forma. 
        Lula Molusco olhou para ela, impassvel.
        - Bem, que timo.
        Spencer se arrastou pelo corredor, perturbada. Em geral, ela ficava emparelhada com os melhores da turma, mas Lula Molusco a fizera se sentir como se ela 
fosse a pior aluna da classe.
        Era o fim do dia escolar. Os alunos de Rosewood agitavam-se em torno de seus armrios, enfiando livros em suas mochilas, fazendo planos por celular ou pegando 
seus equipamentos para os treinos esportivos. Spencer tinha hquei s trs horas, mas queria ir at a livraria Wordsmiths para comprar os livros do Lula Molusco 
antes disso. E depois tinha que checar com os responsveis pelo livro do ano Como estava a situao da lista dos voluntrios para o Habitat for Humanity, e tinha 
que dar um oi para o orientador do grupo de teatro do colgio. Ela provavelmente chegaria uns minutinhos atrasada no hquei, mas o que ela podia fazer?
        Ao empurrar a porta da Wordsmiths, sentiu-se imediatamente mais calma. A livraria estava sempre silenciosa, sem vendedores sufocantes empurrando coisas para 
os clientes. Depois do desaparecimento de Ali, Spencer costumava ir at l e ler as tirinhas de Calvin e Haroldo, s para ficar um pouco sozinha. Os funcionrios 
tambm no ficavam bravos quando um celular tocava, que era exatamente o que o de Spencer estava fazendo naquele momento. O corao dela disparou... e ento disparou 
de um jeito diferente quando ela viu quem era.
        - Wren - sussurrou ela ao telefone, encostando-se na prateleira de livros de turismo.
        -Voc recebeu meu e-mail? - perguntou ele, com seu sotaque britnico sexy, quando ela atendeu.
        - Hum... sim - respondeu Spencer. - Mas... eu no acho que voc deveria ficar me ligando.
        - Quer desligar, ento?
        Spencer olhou em volta, cautelosa, de olho em dois calouros tontos dando risadinhas na frente dos livros de autoajuda sobre sexo, e em uma senhora que estava 
folheando um guia de ruas da Filadlfia.
        - No - sussurrou ela.
        - Bem, estou louco de vontade de te ver, Spence. Voc pode me encontrar em algum lugar?
        Spencer fez uma pausa. Chegava a doer o quanto ela queria dizer sim.
        - No tenho certeza se isso  uma boa ideia agora.
        - O que voc quer dizer com no ter certeza? - Wren riu. -Ah, Spencer, vamos l. J foi difcil o suficiente ter que esperar tanto para ligar para voc.
        Spencer balanou a cabea.
        - Eu... eu no posso - decidiu ela. - Sinto muito. Minha famlia... eles mal olham para mim. Quero dizer, talvez ns pudssemos tentar daqui... daqui a alguns 
meses?
        Wren ficou em silncio por alguns instantes.
        -Voc est falando srio.
        Spencer fungou, insegura, como resposta.
        - Eu s pensei que... eu no sei. -A voz de Wren pareceu tensa. - Tem certeza?
        Ela passou a mo pelo cabelo e olhou pelas enormes vitrines da Wordsmiths. Mason Byers e Penolope Waites, dois de seus colegas de classe, estavam se beijando 
do lado de fora do Ferra s, o restaurante do outro lado da rua. Ela os odiava.
        - Tenho - respondeu, as palavras sufocadas na garganta. - Desculpe. - E desligou o telefone.
        Ela suspirou. De repente, a livraria pareceu quieta demais. O CD de msica clssica havia parado de tocar. Os pelos da sua nuca se arrepiaram. A poderia 
ter ouvido a conversa deles.
        Tremendo, andou at a seo de economia, olhando com suspeita para um cara que parou em frente  prateleira com livros sobre a Segunda Guerra Mundial, e 
para uma mulher que mexia em um calendrio cheio de fotos de buldogues. Algum deles poderia ser A? Como  que A sabia de tudo?
        Ela logo encontrou os livros da lista do Lula Molusco, foi at o caixa e entregou seu carto de crdito, brincando, nervosa, com os botes prateados de seu 
blazer azul-marinho do colgio. Queria faltar a todas as suas atividades e ao hquei depois das compras. Queria ir para casa e se esconder.
        - Ah... - A moa do caixa, que tinha trs piercings na sobrancelha, ergueu o Visa de Spencer.- H algo errado com este carto.
        - Impossvel - rosnou Spencer. Depois, tirou seu MasterCard de dentro da bolsa.
        A vendedora passou o carto, mas a mquina fez um segundo bipe de recusa.
        - Com este aqui acontece a mesma coisa. - A vendedora deu um telefonema rpido, balanou a cabea algumas vezes e desligou. - Estes cartes foram cancelados 
- disse ela, calmamente, os olhos pesados de tanta maquiagem. - Acho que eu deveria cort-los, mas... - Ela deu de ombros, com doura, e os devolveu para Spencer.
        Spencer agarrou os cartes da mo dela.
        - Sua mquina deve estar quebrada. Estes cartes, eles so... - Ela quase disse: eles so vinculados  conta bancria dos meus pais.
        Ento, ela entendeu. Seus pais haviam cancelado os cartes.
        -Voc quer pagar em dinheiro? - a vendedora perguntou.
        Seus pais haviam cancelado seus cartes de crdito. O que vinha a seguir, um cadeado na porta da geladeira? Cortar o aquecimento do quarto dela? Limitar 
a quantidade de oxignio que ela respirava?
        Spencer abriu caminho para fora da loja. Ela havia usado seu carto de crdito para comprar uma fatia de pizza de soja, a caminho da cerimnia fnebre de 
Ali. E tinha funcionado. Na manh anterior, ela tinha pedido desculpas  famlia e agora seus cartes estavam bloqueados. Era um tapa na cara dela.
        A raiva tomou conta de seu corpo. Ento, era assim que eles se sentiam sobre ela.
        Spencer olhou tristemente para os cartes. Ela j os usara tanto que a assinatura dela quase desaparecera. Endurecendo o queixo, ela fechou a carteira e 
abriu seu Sidekick, procurando o nmero de Wren na lista de chamadas recebidas. Ele atendeu no primeiro toque.
        - Qual  o seu endereo? - perguntou ela. - Mudei de ideia.
10
A ABSTINNCIA FAZ O 
CORAO QUERER  MAIS
Naquela mesma tarde de quarta-feira, Hanna estava em p, na entrada da Associao Catlica de Moos de Rosewood, uma manso em estilo colonial reformada. A fachada 
era de tijolos vermelhos, e havia dois pilares brancos de dois andares de altura, e as modelagens em torno das calhas e das janelas pareciam pertencer a uma casinha 
de po de gengibre. Os Briggs, uma famlia legendria, excntrica e muito rica, haviam construdo a casa, em 1886, enchendo-a com dez parentes, trs hspedes permanentes, 
dois papagaios e doze poodles. A maior parte dos detalhes histricos do edifcio havia sido destruda para abrir caminho para uma piscina de seis raias, alm de 
uma academia de ginstica e salas de "convivncia". Hanna imaginava o que os Briggs pensariam sobre alguns dos grupos que agora se reuniam em sua manso. Como o 
Clube da Virgindade.
        Hanna jogou os ombros para trs e desceu pelo corredor de madeira at a sala 204, onde o Clube da Virgindade estava reunido. Sean continuava sem retornar 
as ligaes dela. Tudo o que ela queria dizer era: Deus, como estava arrependida! Como eles iriam ficar juntos novamente, se ela no conseguia se desculpar com ele? 
O nico lugar que ela sabia que Sean frequentava - e onde Sean jamais imaginaria que ela fosse - era o Clube da Virgindade.
        Tudo bem, talvez fosse uma violao do espao pessoal de Sean, mas era por um bom motivo. Ela sentia saudades dele, especialmente depois de tudo o que vinha 
acontecendo com A.
        - Hanna?
        Hanna girou nos calcanhares. Naomi Zeigler estava em um aparelho de step, na sala de ginstica. Ela vestia short Adidas vermelho-escuro' um top cor-de-rosa 
apertado, e meias cor-de-rosa, combinando. Uma faixa de cabelo vermelha mantinha o perfeito rabo de cavalo loiro no lugar.
        Hanna forou um sorriso, mas, por dentro, estava se encolhendo toda. Naomi e sua melhor amiga, Riley Wolfe, detestavam Hanna e Mona. Na ltima primavera, 
Naomi roubara o cara por quem Mona estava apaixonada, Jason Ryder, e o deixara duas semanas depois. No baile do ano anterior, Riley descobrira que Hanna iria usar 
um vestido Calvin Klein verde-escuro... e comprara o mesmssimo vestido, s que vermelho-cereja.
        - O que voc est fazendo aqui? - gritou Naomi, ainda se exercitando. Hanna percebeu que a tela de LED do aparelho informava que Naomi havia queimado 876 
calorias.Vaca.
        -Vou me encontrar com algum - resmungou Hanna. Ela pressionou a mo contra a porta da sala 204, tentando parecer casual, mas no notou que estava entreaberta. 
A porta se abriu, fazendo Hanna perder o equilbrio. Todos l dentro se viraram para olhar para ela.
        - U-hu? - cantarolou uma mulher, vestindo uma jaqueta xadrez horrenda da Burberry. Ela colocou a cabea para fora da sala e notou Hanna. -Voc est aqui 
para a reunio?
        - Uh... - gaguejou Hanna. Quando ela olhou para o aparelho de step, Naomi tinha desaparecido.
        - No tenha medo. - Hanna no sabia o que fazer, ento seguiu a mulher para dentro da sala e se sentou.
        A sala era revestida de madeira, escura e abafada. Os garotos estavam sentados em cadeiras de madeira de espaldar alto. A maioria parecia normal, ainda que 
um tanto comportadinhos demais, Os meninos eram bem gordinhos ou muito magrelos. Ela no reconheceu ningum de Rosewood Day, exceto Sean. Ele estava sentado do outro 
lado da sala, perto de duas garotas loiras, olhando para Hanna, alarmado. Ela acenou rapidamente para ele, mas ele no reagiu.
        - Eu sou Candace - disse a mulher que atendera  porta. - E voc ...
        - Hanna. Hanna Marin.
        - Bom, seja bem-vinda, Hanna - disse Candace. Ela tinha uns quarenta e poucos anos, cabelos curtos alourados, e parecia ter se afogado no perfume Chlo Narcisse, 
o que era irnico, porque Hanna havia usado Narcisse na ltima sexta-feira, quando deveria ter ficado com Sean. - O que a traz aqui?
        Hanna fez uma pausa.
        - Eu acho que vim para... para saber mais sobre o assunto.
        - Bem, a primeira coisa que eu quero que voc saiba  que este  um lugar seguro. - Candace apoiou as mos nas costas da cadeira onde uma garota loira estava 
sentada.-Tudo o que voc nos contar  estritamente confidencial. Ento, sinta-se  vontade para dizer qualquer coisa. Mas voc tem que prometer que no vai repetir 
nada que outra pessoa disser, tambm.
        - Oh, eu prometo - concordou Hanna, rapidamente. De jeito nenhum ela repetiria algo que outra pessoa dissesse. Aquilo significaria, para incio de conversa, 
contar a algum que havia estado ali.
        - H algo que voc gostaria de saber? - perguntou Candace.
        - Bem, eu no tenho certeza - gaguejou Hanna.
        - H algo que voc gostaria de dizer?
        Hanna olhou de soslaio para Sean. Ele devolveu o olhar, parecendo dizer: Sim, o que voc gostaria de dizer? 
        Ela se endireitou.
        - Eu tenho pensado muito sobre sexo. Quero dizer, estava muito curiosa a respeito. Mas agora... eu no sei. - Ela respirou fundo e tentou imaginar o que 
Sean gostaria de ouvir. - Eu acho que deveria acontecer com a pessoa certa.
        -A pessoa certa que voc ame - corrigiu Candace. - E com quem vai se casar.
        - Sim - completou Hanna, rapidamente.
        - Mas  difcil. - Candace caminhava pela sala. - Algum tem alguma ideia para compartilhar com Hanna? Alguma experincia para dividir?
        Um garoto loiro, usando calas cargo, quase bonitinho - se voc apertasse bem os olhos - levantou a mo e, ento, mudou de ideia e a abaixou. Uma menina 
de cabelos castanhos, vestindo uma camiseta cor-de-rosa, levantou dois dedos, timidamente, e disse:
        - Eu tambm pensava muito sobre sexo. Meu namorado ameaou terminar tudo comigo se eu no dormisse com ele. Por algum tempo, pensei em ceder, mas agora estou 
feliz por no ter feito isso.
        Hanna assentiu, tentando parecer pensativa. Quem aquelas pessoas estavam tentando enganar? Ela imaginava se estariam, secretamente, morrendo de vontade de 
experimentar.
        -  Sean, e voc? - perguntou Candace. -Voc estava dizendo, na semana passada, que voc e sua namorada tinham opinies diferentes sobre sexo. Como esto 
as coisas?
        Hanna sentiu o rosto ficar quente. Ela... no... podia... acreditar...
        - Bem - resmungou Sean.
        -Voc tem certeza? J conversou com ela, como ns sugerimos?
        - Sim - respondeu ele, secamente.
        Um longo silncio se seguiu. Hanna se perguntou se eles sabiam que "ela" era... ela.
        Candace caminhava pela sala, pedindo aos outros que falassem sobre suas tentaes. Algum j havia ficado "na horizontal" com um namorado ou namorada? Algum 
j tinha "dado uns amassos"? Algum j havia assistido o canal Skinamax? Sim, sim, sim!, respondia Hanna, mentalmente - embora soubesse que tudo aquilo era proibido 
no Clube da Virgindade.
        Alguns outros garotos fizeram perguntas sobre sexo - a maioria estava tentando entender o que contava como "uma experincia sexual" e o que eles deveriam 
evitar.
        - Tudo - respondeu Candace. Hanna estava espantada. Ela pensara que o Clube da Virgindade proibia o intercurso, mas no todo o cardpio sexual. Finalmente, 
a reunio teve uma pausa, e os garotos do Clube da Virgindade se levantaram de suas cadeiras para se esticar um pouco. Havia latas de refrigerante, copos de papel, 
um prato de biscoitos Oreo e um pacote de batatinhas em uma mesa, no canto da sala. Hanna se levantou, ajeitou as tiras das sandlias nos tornozelos e esticou os 
braos para o alto. Ela no pde deixar de notar que Sean estava olhando para o seu abdome  mostra. Ela lhe lanou um olhar provocante e se aproximou.
        - Oi - disse ela.
        - Hanna... - Ele passou a mo pelo cabelo cortado curtinho, parecendo pouco  vontade. Quando ele cortara o cabelo, na ltima primavera, Hanna dissera que 
o corte fazia com que ele se parecesse um pouco com Justin Timberlake, s que menos vulgar. Em resposta, Sean havia feito uma imitao terrvel, embora bonitinha, 
de "Cry Me a River". Naquela poca, ele ainda era divertido. - O que voc est fazendo? - perguntou ele.
        Ela levou a mo  garganta.
        - O que voc quer dizer?
        - Eu s... no sei se voc deveria estar aqui.
        - Por qu? - explodiu ela. - Eu tenho todo o direito de estar aqui, como qualquer pessoa. Eu s queria pedir desculpas, t legal? Eu tentei ir atrs de voc 
na escola, mas voc fica fugindo de mim.
        - Bem,  complicado, Hanna.
        Hanna estava para perguntar o que era to complicado quando Candace ps as mos nos ombros dos dois.
        - Estou vendo que vocs j se conhecem!
        - . - Hanna engoliu a irritao momentaneamente.
        - Ns estamos to felizes em t-la conosco, Hanna. - Candace parecia radiante. -Voc seria um modelo bastante positivo para ns.
        - Obrigada. - Hanna sentiu-se um pouco excitada. Ainda que fosse o Clube da Virgindade, no era sempre que ela era to bem recebida. Nem pelo seu treinador 
de tnis do terceiro ano, nem pelos seus amigos, nem pelos seus professores, e, certamente, no pelos seus pais. Talvez o Clube da Virgindade fosse o seu destino. 
Ela j conseguia se imaginar como a porta-voz do Clube da Virgindade. Talvez fosse como ser Miss Estados Unidos, s que, em vez de uma coroa, receberia um fabuloso 
anel do Clube da Virgindade. Ou, talvez, uma bolsa do Clube da Virgindade. Uma bolsa Louis Vuitton cor de cereja, com suas iniciais e um CV pintado  mo.
        - Ento, voc acha que vai se juntar a ns na semana que vem? - perguntou Candace.
        Hanna olhou para Sean.
        - Provavelmente.
        - Maravilhoso! - disse Candace.
        Ela deixou Hanna e Sean a ss de novo. Hanna encolheu a barriga, desejando no ter devorado a bomba de chocolate que havia impulsivamente comprado no caminho 
de sorvete, antes da reunio.
        - Ento voc andou falando sobre mim aqui, no foi? 
        Sean fechou os olhos.
        - Sinto muito por ela ter dito aquilo.
        - No, tudo bem - interrompeu Hanna. - Eu nunca tinha percebido o quanto isso... significava para voc.E realmente gostei de algumas coisas que eles disseram. 
Sobre, bem, a pessoa certa ser algum que voc ama. Eu concordo. E todos parecem ser realmente gentis. - Ela se surpreendeu com as palavras que saram de sua boca. 
Estava sendo sincera, de verdade.
        Sean deu de ombros. 
        -T bem.
        Hanna franziu a testa, surpresa com a apatia dele. Ento, suspirou e levantou os olhos.
        -  Sean, eu realmente sinto muito pelo que aconteceu. Sobre... sobre o carro. Eu s... s no sei como posso me desculpar. Eu me sinto to estpida. Mas 
no posso viver com voc me odiando.
        Sean estava quieto.
        - Eu no odeio voc. Eu disse umas coisas meio cruis na ltima sexta-feira. Eu acho que ns dois estvamos passando por um momento difcil. Quer dizer, 
no acho que voc deveria ter feito o que fez, mas... - Ele deu de ombros. -Voc est trabalhando como voluntria na clnica, no ?
        - Hum-hum. - Ela esperava que seu nariz no estivesse se enrugando de nojo.
        Ele assentiu algumas vezes.
        - Eu acho isso muito bom. Tenho certeza de que voc vai alegrar o dia dos pacientes.
        Hanna sentiu o rosto corar de gratido, mas a doura dele no a surpreendeu. Sean era um cara bom e compassivo - ele doava dinheiro para os sem-teto da Filadlfia, 
reciclava os telefones celulares velhos e nunca falava mal de ningum, mesmo das celebridades que s existiam para isso. Esse era um dos motivos que a fizeram se 
apaixonar por ele, ainda no sexto ano, quando ele era um perdedor gordinho.
        Mas, na semana anterior, Sean tinha sido dela. Ela havia percorrido um longo caminho desde que fora aquela garota bobona que fazia todo o trabalho sujo da 
fofoqueira da Ali, e no iria deixar um erro de julgamento idiota em uma festa arruinar o relacionamento deles. Embora... houvesse algo - ou algum - que pudesse 
arruinar o relacionamento deles.
        Eu posso ARRUINAR voc.
        - Sean? - O corao de Hanna estava acelerado. - Voc andou recebendo alguma mensagem de texto estranha a meu respeito?
        - Mensagem de texto? - repetiu Sean. Ele balanou a cabea. - No...
        Hanna mordeu a unha.
        - Se voc receber, no acredite.
        - Tudo bem. - Sean sorriu para ela. Hanna se sentiu eltrica.
        - Ento - disse ela, depois de uma pausa -, voc ainda vai  Foxy?
        Sean desviou o olhar.
        - Acho que sim. Provavelmente com os outros caras.
        - Guarde uma dana pra mim - ronronou ela e apertou a mo dele. Ela adorava as mos dele: slidas, quentes e masculinas. Ficava to feliz ao toc-lo que 
talvez conseguisse desistir de sexo at o casamento. Ela e Sean permaneceriam constantemente na vertical, cobririam os olhos para no ver cenas de sexo, e evitariam 
a loja da Victoria's Secret no shopping center. Se aquilo era necessrio para ela ficar com o nico garoto a quem, bem, j conseguira amar, ento, talvez Hanna pudesse 
fazer aquele sacrifcio.
        Ou, talvez, se o modo com que Sean havia olhado para o abdome dela fosse algum sinal, ela pudesse convenc-lo do contrrio.
11
A ME DA EMILY NO ENSINOU
A ELA QUE NO SE DEVE ENTRAR
EM CARROS DE ESTRANHOS?
Emily apertou o boto da mquina de chicletes no Fresh Fields. Era uma quarta-feira, depois do treino da natao, e ela estava comprando coisas para o jantar, que 
a me havia pedido. Ela comprava chiclete na mquina toda vez que ia ao Fresh Fields e tinha inventado um jogo: se apanhasse um chiclete amarelo, alguma coisa boa 
iria acontecer com ela. Ela olhou para o chiclete na palma de sua mo. Era verde.
        - Oi. - Algum havia se aproximado dela.
        Emily olhou para cima.
        -Aria. Oi.
        Como sempre, Aria obviamente no tinha receio de se destacar com suas roupas. Ela vestia um colete felpudo azul-non, que acentuava seus olhos, de um azul 
penetrante. E, embora usasse a saia do uniforme da escola, havia levantado a barra bem acima dos joelhos, combinando-a com leggings pretas e sapatilhas de bal azul-celeste. 
Seus cabelos pretos estavam presos em um rabo de cavalo alto, do tipo que as lderes de torcida costumam usar. a efeito funcionava, e a maioria dos homens com menos 
de setenta e cinco anos no estacionamento do Fresh Fields estava olhando para ela. 
        Aria chegou mais perto.
        - Est tudo bem com voc? 
        -Tudo bem. E voc?
        Aria deu de ombros. Ela lanou um olhar discreto para o estacionamento, que estava cheio de funcionrios colocando os carrinhos espalhados pelo ptio de 
volta aos lugares certos.
        -Voc no recebeu mais nenhuma...
        - No. - Emily evitou os olhos de Aria. Ela havia apagado a mensagem de texto de A da segunda-feira, aquela sobre seu novo namorado, e era quase como se 
nada tivesse acontecido. - E voc?
        - Nada. - Aria deu de ombros de novo. - Acho que estamos a salvo.
        No, no estamos, Emily quis dizer. Ela mordeu as bochechas por dentro.
        - Bem, voc pode me ligar a qualquer hora. - Aria comeou a andar em direo s mquinas de refrigerante.
        Emily saiu da loja, um suor frio lhe cobria o corpo. Por que ela tinha sido a nica pessoa a receber uma mensagem de A? Ser que A a havia escolhido?
        Ela ps a sacola de compras na mochila, destrancou a bicicleta e pedalou para fora do estacionamento. Quando virou para uma rua lateral que, na verdade, 
no tinha nada alm de quilmetros de cercas brancas, sentiu uma leve sensao de outono no ar. a outono em Rosewood sempre lembrava a Emily que era o incio da 
temporada de natao. Aquilo normalmente era uma coisa boa, mas, naquele ano, Emily se sentia desconfortvel. A tcnica Lauren havia feito o anncio oficial da capit 
da equipe no dia anterior, depois que o Rosewood Tank terminara. Todas as garotas haviam corrido para cumprimentar Emily e, quando ela contara aos pais, os olhos 
da me se encheram de lgrimas. Emily sabia que devia se sentir feliz - as coisas estavam voltando ao normal. S que ela sentia como se ela prpria tivesse mudado, 
de forma definitiva.
        - Emily! - gritou algum, s suas costas.
        Ela se virou para ver quem a estava chamando, e a roda dianteira da bicicleta derrapou em algumas folhas molhadas. De repente, se viu no cho.
        - Ai, meu Deus, voc est bem? - gritou a voz.
        Emily abriu os olhos. Parado de p,  sua frente, estava Toby Cavanaugh. O gorro do casaco estava levantado, fazendo seu rosto parecer sombrio.
        Ela deu um gritinho. O incidente do dia anterior, no corredor dos armrios, continuava a voltar  sua mente. O rosto de Toby, sua expresso frustrada. Como 
ele tinha simplesmente olhado para Ben, fazendo-o recuar. E ser que fora uma coincidncia ele passar pelo corredor naquele momento, ou ele a estava seguindo? Ela 
pensou na mensagem de A. Apesar de a maioria de ns ter mudado completamente... Bem, no caso de Toby, com certeza.
        Toby se abaixou.
        - Deixe-me ajudar voc.
        Emily levantou a bicicleta sozinha, moveu as pernas cuidadosamente e levantou a cala         para verificar o longo e fundo arranho em sua canela.
- Eu estou bem.
        - Voc deixou isto cair l atrs. -Toby entregou a Emily sua bolsinha de moedas da sorte. Ela era feita de couro cor-de-rosa e tinha o monograma E na frente. 
Ali a dera de presente a Emily um ms antes de desaparecer.
        - Hum, obrigada. - Emily tomou a bolsinha das mos dele, sentindo-se desconfortvel.
        Toby franziu a testa ao ver o arranho.
        - Isso parece ruim. Voc quer vir comigo at o carro? Eu acho que tenho alguns Band-Aids...
        O corao de Emily acelerou. Primeiro, tinha recebido aquela mensagem de A, depois Toby a resgatara no corredor, e agora isso. Alis, por que ele estava 
na Tate? Ele no devia estar no Maine? E ela sempre havia se perguntado se Toby sabia sobre A Coisa com Jenna e por que ele havia assumido a culpa.
        -  srio. Eu estou bem. - Ela levantou a voz.
        - Eu posso pelo menos te dar uma carona pra algum lugar?
        - No! - gritou Emily. Ento, percebeu a quantidade de sangue que estava escorrendo de sua perna. Ela odiava ver sangue. Os braos dela comearam a ficar 
moles.
        - Emily? - perguntou Toby. -Voc est...
        A vista de Emily ficou turva. Ela no podia desmaiar ali. Tinha que se afastar de Toby. Apesar de a maioria de ns ter mudado completamente... E, ento, 
tudo ficou escuro.
Quando ela acordou, estava deitada no banco de trs de um carro pequeno. Uma srie de pequenos Band-Aids escondiam o arranho em sua perna. Ela olhou em volta, ainda 
tonta, tentando se situar, quando percebeu quem estava dirigindo.
        Toby se virou.
        -Bu!
        Emily gritou.
        - Ei! - Toby parou em um semforo e levantou as mos para o alto, em um gesto que dizia: No atire! - Desculpe. Eu s estava brincando.
        Emily se sentou. O banco de trs estava entulhado de coisas: garrafas vazias de Gatorade, cadernos de espiral, livros didticos, tnis surrados e um par 
de calas de moletom cinza. O estofamento do banco de Toby havia se desgastado em alguns lugares, revelando um enchimento de espuma azul. Um aromatizante de carro, 
no formato de um ursinho danante, balanava no espelho retrovisor. O carro no cheirava bem, entretanto. Tinha um odor forte e azedo.
        - O que voc est fazendo? - perguntou Emily. - Aonde ns estamos indo?
        -Voc desmaiou - explicou Toby calmamente. - Por causa do sangue, talvez. Eu no sabia o que fazer, ento, peguei voc no colo e te coloquei no meu carro. 
Sua bicicleta est no porta-malas.
        Emily olhou para os ps; l estava sua mochila.Toby a havia carregado? Tipo, nos braos? Ela se sentiu to assustada que parecia que ia desmaiar de novo. 
Olhando em volta, no reconheceu a estrada cheia de rvores por onde estavam passando. Eles podiam estar em qualquer lugar.
        - Me deixe sair - gritou Emily. - Eu posso pedalar daqui.
        - Mas no tem acostamento...
        -  srio. Encoste.
        Toby encostou o carro em uma rea gramada e olhou para ela. Os cantos de sua boca caram e seus olhos se arregalaram de preocupao.
        - Eu no tive a inteno... - Ele passou a mo no queixo. - O que eu deveria ter feito? Deixado voc l?
        -  - respondeu Emily.
        - Bem, hum, eu sinto muito, ento. - Toby saiu do carro, andou at o lado dela e abriu a porta. Um cacho de cabelos escuros caiu sobre a testa dele. - Na 
escola, eu fui voluntrio na unidade de resgate de emergncia. Eu meio que quero resgatar tudo, agora. At mesmo animais mortos na estrada.
        Emily olhou para a estrada e notou a gigantesca roda d'gua da fazenda Applegate Horse. Eles no estavam no meio do nada. Estavam a menos de dois quilmetros 
da casa dela.
        -Venha - disse Toby. - Eu te ajudo.
        Talvez ela estivesse exagerando. As pessoas mudam - era s ver qualquer um dos amigos de Emily, por exemplo. No significava que Toby fosse, definitivamente, 
A. Ela relaxou as mos, que apertavam o assento do carro.
        - Hum, voc pode me levar. Se quiser.
        Toby olhou para ela por um instante. Um dos cantos de sua boca se curvou, em um quase sorriso. A expresso em seu rosto dizia: Hum, tudo bem, garota maluca, 
mas ele no disse nada.
        Ele voltou para o banco do motorista, e Emily o examinou em silncio. Toby realmente havia mudado. Os olhos dele, que antigamente tinham uma expresso assustadora, 
agora pareciam apenas profundos e pensativos. E ele estava falando. Coerentemente. No vero, aps o sexto ano, Emily e Toby foram para o mesmo acampamento de natao, 
e Toby simplesmente olhava fixamente para ela, sem o menor constrangimento e, ento, puxava a aba do bon sobre os olhos e cantarolava. Mesmo assim, Emily desejava 
poder perguntar a ele a questo de um milho de dlares: por que ele havia assumido a culpa por cegar sua irm postia, quando no o havia feito?
        Na noite em que acontecera o acidente, Ali entrara em casa e dissera a elas que tudo estava bem, que ningum a havia visto. Todas estavam muito assustadas 
para dormir no comeo, mas Ali acariciara as costas de todas, acalmando-as. No dia seguinte, quando Toby confessara, Aria perguntara a Ali se, durante aquele tempo 
todo, ela sabia o que ele iria fazer - como poderia ter sido to fria?
        - Eu simplesmente tive uma sensao de que tudo ficaria bem - explicara Ali.
        Com o tempo, a confisso de Toby havia se tornado um daqueles mistrios da vida, que ningum jamais entenderia - qual era o motivo real por trs do divrcio 
de Brad e Jen; o que havia no cho do banheiro das meninas de Rosewood Day quando a zeladora gritara; por que Imogen Smith perdera tantas aulas no sexto ano (porque, 
definitivamente, no era mononucleose), ou como... quem matara Ali.Talvez Toby se sentisse culpado sobre outra coisa, ou quisesse sair de Rosewood? Ou, talvez, ele 
tivesse mesmo fogos de artifcio na casa da rvore e os tivesse disparado acidentalmente.
        Toby manobrou o carro e entrou na rua de Emily. Tocava blues nas caixas de som, e ele acompanhava o ritmo batendo no volante com as palmas das mos. Ela 
pensou em como ele a havia salvado de Ben no dia anterior. Ela queria lhe agradecer, mas e se ele perguntasse mais sobre o assunto? O que Emily iria dizer? Oh, ele 
estava furioso porque me viu beijando uma garota na boca.
        Emily finalmente pensou em uma pergunta segura.
        - Ento, voc est na Tate, agora?
        -  - respondeu ele. - Meus pais me disseram que, se eu fosse aceito, poderia ir. E eu fui.  bom estar perto de casa. Eu posso ver a minha irm. Ela est 
na escola na Filadlfia.
        Jenna. O corpo inteiro de Emily, at os dedos dos ps, ficou tenso. Ela tentou no demonstrar nenhuma reao, e Toby olhou diretamente para a frente, parecendo 
no notar que ela estava nervosa.
        - E, hum, onde voc estava antes? No Maine? - perguntou Emily, fazendo parecer que ela no sabia que ele estava na Academia Manning para Rapazes, que, de 
acordo com a pesquisa que ela fizera no Google, ficava na Estrada Fryeburg, em Portland.
        - . -Toby diminuiu a velocidade para deixar que dois garotos de patins atravessassem a rua. - O Maine era legal. A melhor coisa era o resgate de emergncia.
        -Voc... voc viu algum morrer?
        Toby olhou nos olhos dela pelo espelho retrovisor novamente. Emily nunca havia percebido que os olhos dele eram azul-escuros.
        - No. Mas uma senhora me deixou o cachorro dela em testamento.
        - O cachorro? - Emily no conseguiu controlar uma risada.
        - . Eu estava com ela na ambulncia e a visitei no CTI. Ns conversamos sobre o cachorro dela, e eu disse que adorava cachorros. Quando ela morreu, o advogado 
dela me encontrou.
        - E... voc ficou com ele?
        - Est na minha casa agora. Ele  um animal dcil, mas to velho quanto a ex-dona,
        Emily riu e algo dentro dela comeou a derreter. Toby parecia... normal. E legal. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, eles haviam chegado  casa dela.
        Toby estacionou o carro e tirou a bicicleta de Emily do porta-malas. Quando ela pegou o guidom, os dedos deles se tocaram. Uma pequena fasca se acendeu 
dentro dela.Toby olhou para Emily por um momento, e ela olhou para a calada. Sculos atrs, ela havia colocado a mo no concreto fresco. Agora, a marca da mo parecia 
pequena demais para ter pertencido a ela. 
        Toby sentou-se no banco do motorista.
        - Ento, vejo voc amanh?
        Emily levantou a cabea de uma vez.
        - P-por qu? 
        Toby ligou o carro.
        -  a reunio Rosewood-Tate. Lembra?
        - Oh - respondeu Emily. -  claro.
        Enquanto Toby se afastava, ela sentiu o corao desacelerar. Por alguma razo maluca, ela pensara que Toby iria convid-la para sair. Ora, vamos, disse ela 
a si mesma ao subir os degraus da entrada de casa. Aquele era Toby. Os dois juntos era algo to provvel como... bem, como Ali ainda estar viva. E, pela primeira 
vez desde que ela desaparecera, Emily tinha finalmente desistido de esperar por isso.
12
DA PRXIMA VEZ, CARREGUE
MAQUIAGEM NA BOLSA
"Cundo es?", dizia uma voz no ouvido dela. "Que horas so? Hora de Spencer morrer!"
        Spencer acordou assustada. A figura escura e familiar que estivera pairando sobre sua cabea havia desaparecido. Na verdade, ela estava em um quarto claro, 
branco. Havia desenhos de Rembrandt e um pster da musculatura humana na parede. Na TV, Elmo estava ensinando s crianas como dizer as horas em espanhol. O relgio 
marcava seis e quatro, e ela presumiu que fosse de manh; pela janela, viu que o sol acabara de nascer e ela podia sentir o cheiro dos bagels frescos e ovos mexidos 
vindo da rua.
        Ela olhou em volta, e tudo fez sentido. Wren estava deitado de costas, dormindo com um brao jogado por cima do rosto, o peito descoberto. O pai dele era 
coreano e a me inglesa, por isso sua pele tinha um tom perfeito de dourado. Havia uma cicatriz acima de sua boca; ele tinha sardas no nariz, cabelo preto-azulado 
e descuidado, e cheirava a desodorante Adidas e Tide. O anel grosso de prata, que usava no dedo indicador da mo direita, brilhava ao sol da manh. Ele afastou o 
brao do rosto e abriu os lindos olhos amendoados.
        - Oi. - Ele puxou Spencer pela cintura devagar, para perto dele.
        - Oi - sussurrou ela, resistindo. Ainda podia ouvir a voz no sonho: Hora de Spencer morrer! Era a voz de Toby.
        Wren franziu a testa.
        - O que foi?
        - Nada - disse ela, baixinho, pressionando os dedos na base do pescoo e sentindo o prprio pulso acelerado. - S... um sonho ruim.
        - Quer me contar?
        Spencer hesitou. Ela gostaria de poder. Ento, sacudiu a cabea.
        - Bem, ento, venha c.
        Eles passaram alguns minutos se beijando, e Spencer sentiu uma energia de alvio e gratido.Tudo ia ficar bem. Ela estava segura.
        Era a primeira vez que Spencer havia dormido - e passado a noite - na cama de um cara. Na noite anterior, ela havia dirigido como uma louca at a Filadlfia 
e estacionado na rua, sem sequer se preocupar com o Clube; seus pais estavam provavelmente pensando em tomar o carro dela de volta, de qualquer forma. Ela e Wren 
haviam cado na cama imediatamente e no tinham se levantado dela, a no ser para atender a porta para o rapaz do restaurante chins que viera entregar comida. Mais 
tarde, ela telefonou e deixou uma mensagem na secretria eletrnica dos pais, avisando que passaria a noite na casa de uma colega do hquei, Kirsten. Ela se sentia 
idiota, tentando ser toda responsvel quando, na verdade, estava sendo to irresponsvel, mas e da?
        Pela primeira vez desde a primeira mensagem de A, ela havia dormido como um beb. De certa forma, era porque estava na Filadlfia, e no em Rosewood, na 
casa vizinha  de Toby, mas tambm era por causa de Wren. Antes de irem dormir, eles haviam conversado sobre Ali durante uma hora - sobre a amizade delas, sobre 
como havia sido quando Ali desaparecera, saber que algum a havia matado. Ele tambm havia deixado que ela escolhesse o som de "cigarras cantando" no estreo, ainda 
que fosse o segundo barulho de que ele menos gostava, depois de "rvores farfalhando".
        Spencer comeou a beij-lo com mais intensidade e tirou a camiseta da Universidade da Pensilvnia, grande demais para ela, que usava como camisola. Wren 
deslizou a mo pelo pescoo dela e se ergueu sobre as mos e os joelhos.
        -Voc quer...? - perguntou ele.
        - Eu acho que sim - sussurrou ela. 
        -Tem certeza?
        - Hum-hum. - Ela tirou a calcinha. Wren tirou a camiseta pela cabea. O corao de Spencer estava martelando. Ela era virgem e to exigente a respeito de 
sexo quanto o era com tudo o mais em sua vida, tinha que ser com a pessoa perfeita.
        Mas Wren era a pessoa perfeita. Ela sabia que estava ultrapassando o Ponto Sem Volta - se os pais dela descobrissem, eles nunca lhe dariam dinheiro novamente, 
para nada. Nem prestariam ateno nela. Nem a mandariam para a faculdade. Nem lhe dariam comida, provavelmente. E da? Wren a fazia sentir-se segura.
        Um Vila Ssamo, um Contos do Drago e meio Arthur mais tarde, Spencer virou-se de costas, olhando para o teto com uma expresso contente. E ela, que tinha 
pensado em ir devagar. Ento, ela se apoiou nos cotovelos e olhou para o relgio.
        - Droga - sussurrou. j eram sete e vinte. Ela entrava s oito na escola e ia perder a primeira aula, na melhor das hipteses. - Eu tenho que ir. - Ela pulou 
da cama e examinou a saia xadrez, o blazer, a roupa de baixo, a blusa e as botas numa pilha bagunada no cho. - E vou ter que ir para casa.
        Wren sentou-se na cama, observando-a.
        - Por qu?
        - Eu no posso usar a mesma roupa por dois dias seguidos. 
        Wren obviamente estava tentando no rir dela.
        - Mas  um uniforme, no ?
        - , mas eu usei esta blusa ontem. E estas botas. 
        Wren riu.
        -Voc  um amor e uma fresquinha.
        Spencer abaixou a cabea ao ouvir a palavra amor.
        Ela tomou uma ducha rpida, lavando o cabelo e ensaboando o corpo. Seu corao ainda estava martelando. Ela se sentia tomada pelo nervosismo, ansiosa porque 
estava atrasada para a aula, perturbada pelo pesadelo com Toby, mas totalmente feliz com Wren. Quando ela saiu do banho, Wren estava sentado na cama. a apartamento 
cheirava a caf e amndoas. Spencer pegou a mo de Wren e, devagar, removeu o anel de prata que ele usava no dedo, colocando-o no prprio polegar.
        - Fica bem em mim. - Quando ela olhou para ele, Wren estava sorrindo de modo impossvel de decifrar. - O que foi? - perguntou Spencer.
        -Voc ... -Wren sacudiu a cabea e encolheu os ombros. -  difcil para mim, lembrar que voc ainda est no ensino mdio. Voc  to... madura.
        Spencer corou.
        - No de verdade.
        - No, voc  mesmo.  como se... na verdade, voc parece mais madura do que...
        Wren parou de falar, mas Spencer sabia o que ele iria dizer: Mais madura do que Melissa. Ela se sentiu cheia de satisfao. Melissa podia ter vencido a luta 
pelos pais, mas Spencer havia vencido a batalha por Wren. E essa era a guerra que importava.
Spencer subiu pela longa e pavimentada entrada de sua casa. j eram nove e dez, e a segunda aula em Rosewood Day j tinha comeado. a pai dela j teria sado para 
trabalhar h muito tempo, e, com alguma sorte, a me estaria no estbulo.
        Ela abriu a porta da frente. a nico som era o rudo da geladeira. Ela caminhou p ante p at o quarto, lembrando a si mesma de que teria de falsificar 
um bilhete da me justificando o atraso - e percebendo que jamais precisara falsificar um bilhete antes. Todos os anos, Spencer ganhava os prmios de perfeita assiduidade 
e pontualidade na escola.
        -Oi.
        Spencer deu um grito e se virou, a mochila da escola escorregou de suas mos.
        - Jesus. - Melissa estava parada na porta. - Relaxe.
        - P-por que voc no est na aula? - perguntou Spencer, com os nervos  flor da pele.
        Melissa usava calas de moletom rosa-escuras, e uma camiseta desbotada da Universidade da Pensilvnia, mas seu cabelo loiro, cortado curto na altura do queixo, 
estava preso por uma faixa azul-marinho. Mesmo quando Melissa estava relaxada, ela conseguia parecer impecvel.
        - Por que voc no est na aula?
        Spencer passou a mo pela nuca molhada de suor.
        - Eu... esqueci uma coisa. Tive que voltar.
        - Ah. - Melissa deu um sorrisinho misterioso. Um arrepio desceu pela espinha de Spencer. Ela sentia como se estivesse na beira de um precipcio, prestes 
a cair. - Bom, na verdade eu estou feliz por voc estar aqui. Eu tenho pensado muito sobre o que voc disse na segunda-feira. Eu sinto muito, tambm, sobre tudo.
        - Oh. - Foi tudo o que Spencer conseguiu dizer. 
        Melissa abaixou o tom de voz.
        - Eu quero dizer, ns realmente poderamos agir melhor uma com a outra. Ns duas. Quem sabe o que pode acontecer neste mundo maluco? Olhe s o que aconteceu 
com Alison DiLaurentis. Faz com que as nossas brigas paream uma coisa boba.
        -  - murmurou Spencer. Era uma comparao estranha.
        - De qualquer modo, eu falei com mame e papai sobre o assunto, tambm. Acho que eles esto caindo em si.
        -  Oh. - Spencer passou a lngua pelos dentes. - Uau. Obrigada. Significa muito pra mim.
        Melissa sorriu para ela em resposta. Houve uma longa pausa e, ento Melissa deu outro passo para dentro do quarto de Spencer, apoiando-se contra a penteadeira 
de cerejeira.
        - Ento... o que  que est havendo com voc? Voc vai  Foxy? Ian me convidou, mas eu no sei se vou. Provavelmente, estou velha demais pra isso.
        Spencer foi pega de surpresa. Ser que Melissa estava aprontando alguma? Aqueles no eram os assuntos sobre os quais elas costumavam conversar.
        - Eu... hum... eu no sei.
        - Caramba. - Melissa deu um sorrisinho malicioso. - Eu espero que voc v com o cara que fez isso com voc. - Ela apontou para o pescoo de Spencer.
        Spencer correu para frente do espelho e viu uma marca enorme e vermelha perto da clavcula. As mos dela voaram freneticamente para o prprio pescoo. Ento, 
percebeu que ainda estava usando o anel grosso de prata de Wren.
        Melissa havia morado com Wren - ser que ela tinha reconhecido o anel? Spencer tirou o anel do dedo e o atirou na gaveta de lingerie. Sua pulsao latejava 
nas tmporas.
        O telefone tocou, e Melissa foi atender no corredor. Dentro de segundos, a cabea dela apareceu na porta do quarto de Spencer.
        -  para voc - cochichou ela. -  um garoto!
        - Um... garoto? - Ser que Wren seria estpido o suficiente para ligar para ela? Quem mais poderia ser, s nove e quinze da manh de uma quinta-feira? A 
mente de Spencer estava vagando em vinte direes diferentes. Ela pegou o telefone.
        -Al?
        - Spencer?  o Andrew. Campbell. - Ele deixou escapar uma risadinha nervosa. - Da escola.
        Spencer olhou para Melissa.
        - Hum, oi - grunhiu ela. Por um segundo, sem sequer conseguir lembrar quem era Andrew Campbell.- O que  que est rolando?
        - Eu s queria saber se voc pegou essa gripe que est por a. Eu no vi voc na reunio do conselho estudantil hoje de manh. Voc nunca falta ao conselho 
estudantil.
        - Oh. - Spencer engoliu em seco. Ela olhou para Melissa, que estava parada na porta, na expectativa. - Oh, bem, mas eu... eu estou melhor agora.
        - Eu s queria dizer que me ofereci para pegar suas lies de casa para as aulas - disse Andrew. - J que ns estamos na mesma turma. -A voz dele estava 
fazendo eco; parecia que estava vindo de dentro de um vestirio. Andrew era exatamente o tipo que tentaria matar a aula de ginstica. - Em clculo, ns temos uma 
lista de problemas de fim de captulo.
        - Oh. Bem, obrigada.
        - E talvez voc esteja a fim de comparar as anotaes para as dissertaes...? McAdam disse que elas vo contar muito para a nossa nota final.
        - Hum,  claro - respondeu Spencer.
        Melissa olhou nos olhos dela, de um jeito esperanoso e entusiasmado.
        -  Chupo? - sussurrou ela, apontando para o pescoo de Spencer e depois para o telefone.
        O crebro de Spencer parecia prestes a virar iogurte. Ento, de repente, ela teve uma ideia. Ela limpou a garganta.
        -  Na verdade, Andrew... voc j tem companhia para a Foxy?
        -  Foxy? - repetiu Andrew. - Hum, no sei, eu acho que no tinha nenhum pla...
        - Quer ir comigo? - interrompeu Spencer. 
        Andrew deu uma risada que pareceu mais um soluo.
        - Srio?
        - Hum, sim - disse Spencer, de olho na irm.
        - Bem,  claro! - concordou Andrew. - Seria timo! Que horas? O que eu devo vestir? Voc vai sair com suas amigas antes? Tem algum plano para depois?
        Spencer revirou os olhos. Era tpico de Andrew fazer todas aquelas perguntas, como se ele fosse responder a um teste oral.
        - A gente decide depois.- Spencer olhou para a janela.
        Ento, desligou o telefone, sentindo-se exausta, como se tivesse corrido quilmetros e quilmetros jogando hquei. Quando ela se virou novamente para a porta, 
Melissa havia desaparecido.
13
UM  CERTO  PROFESSOR  DE  INGLS  
UM   NARRADOR TO  POUCO CONFIVEL
Na quinta-feira, Aria hesitou  porta da sala de aula de ingls, quando Spencer passou.
        - Oi. -Aria agarrou-lhe o brao. -Voc recebeu alguma... 
        Os olhos de Spencer moveram-se de um lado para outro, como aqueles grandes lagartos que Aria havia visto em exposio no Zoolgico de Paris.
        - Bem, no - respondeu ela. - Mas estou realmente atrasada, ento... -Ela saiu correndo pelo corredor. Aria mordeu o lbio com fora. Ok.
        Algum ps a mo em seu ombro. Ela deu um gritinho e derrubou a garrafa de gua, que bateu no cho e saiu rolando.
        - Opa. S estava tentando passar.
        Ezra estava de p, atrs dela. Ele estivera ausente da escola na tera e na quarta-feira, e Aria estava imaginando se ele havia se demitido.
        - Desculpe - murmurou ela, as bochechas coradas de um vermelho vivo.
        Ezra vestia as mesmas calas de veludo amassadas que havia usado na semana anterior, um palet de tweed com um pequeno buraco no cotovelo e sapatos de cadaro 
Merrell. De perto, ele cheirava levemente a "vela masculina" de aafro e ylang ylang da Seda France, de que Aria se lembrava da sala de estar dele. Ela havia visitado 
o apartamento dele apenas seis dias antes, mas parecia que duas vidas haviam se passado desde ento.
        Aria entrou p ante p na sala de aula, atrs dele.
        - Ento, voc estava doente? - perguntou ela.
        - Estava - respondeu Ezra. - Estava gripado.
        - Sinto muito. - Aria se perguntou se iria ficar gripada tambm.
        Ezra olhou para a sala de aula vazia e chegou mais perto dela.
        - Ento. Escute. Que tal comear de novo? - A expresso no rosto dele era profissional.
        - Bem, est certo - grunhiu Aria.
        - Ns temos um ano  nossa frente - completou Ezra. - Ento, vamos esquecer o que aconteceu?
        Aria engoliu em seco. Ela sabia que o relacionamento deles era errado, mas ainda tinha sentimentos por Ezra. Ela expusera sua alma para ele e no podia fazer 
aquilo com qualquer um. E ele era to diferente.
        -  claro - respondeu ela, embora no acreditasse totalmente no que dizia. Eles tinham tido uma... verdadeira conexo.
        Ezra assentiu levemente com a cabea. Ento, bem devagar, ele estendeu a mo e tocou a nuca de Aria. Um arrepio subiu pela espinha dela. Ela prendeu a respirao, 
at que ele tirou a mo de seu pescoo e se afastou.
        Aria sentou-se na carteira, a mente trabalhando sem parar. Aquilo seria algum tipo de sinal? Ele havia dito para esquecer, mas no se sentia daquela forma.
        Antes que ela pudesse decidir se deveria dizer alguma coisa para Ezra, Noel Kahn deslizou para a cadeira ao lado da de Aria, e a cutucou com sua caneta Montblanc.
        - Ento, fiquei sabendo que voc anda me traindo, Finlndia.
        - O qu? -Aria se sentou direito, em alerta. Sua mo voou para o prprio pescoo.
        - Sean Ackard estava perguntando por voc.Voc sabe que ele est com a Hanna, no sabe?
        Aria tocou as costas dos dentes com a lngua.
        - Sean... Ackard?
        - Ele no est mais com a Hanna - interrompeu James Freed, sentando-se na cadeira  frente da de Noel. - Mona me contou. Hanna deu um fora nele.
        - Ento, voc gosta do Sean? - Noel tirou o cabelo ondulado dos olhos.
        -  No - respondeu Aria, automaticamente. Embora ela continuasse pensando na conversa que tivera com Sean no carro dele, na tera-feira. Foi legal falar 
com algum sobre as coisas que estavam acontecendo em sua vida.
        - Bom. - Noel passou a mo pela testa. - Eu estava preocupado.
        Aria revirou os olhos.
        Hanna entrou rebolando na sala enquanto o sinal tocava, colocando a enorme bolsa Prada em cima da mesa e caindo dramaticamente na cadeira. Ela lanou a Aria 
um sorrisinho.
        - Oi. - Aria se sentiu um pouco tmida. Na escola, Hanna parecia terrivelmente fechada.
        - Ei, Hanna, voc no est mais saindo com o Sean Ackard? - perguntou Noel em voz alta.
        Hanna olhou fixamente para ele. Suas plpebras tremiam.
        - No estava dando certo entre a gente. Por qu?
        - Por nada - interrompeu Aria, rapidamente, embora estivesse se perguntando por que Hanna havia terminado com Sean. Eles eram como duas ervilhas em uma tpica 
vagem de Rosewood.
        Ezra bateu palmas.
        - Muito bem - disse. - Alm dos livros que estamos lendo para aula, eu quero fazer um pequeno projeto paralelo sobre narradores pouco confiveis.
        Devon Arliss levantou a mo.
        - O que  que isso significa?
        Ezra comeou a caminhar pela sala.
        - Bem, o narrador nos conta a histria em um livro, no ? Mas... e se o narrador no estiver nos dizendo a verdade? Talvez ele esteja nos contando sua prpria 
verso distorcida da histria, para fazer com que voc v para o lado dele. Ou para assustar voc. Ou, talvez, ele seja louco!
        Aria estremeceu. Aquilo a fazia pensar em A.
        -Vou dar um livro a cada um de vocs - disse Ezra. - Em um trabalho de dez pginas, vocs vo argumentar contra ou a favor da confiabilidade do narrador.
        A turma inteira grunhiu.Aria descansou a cabea na palma de uma das mos. Talvez A no fosse inteiramente confivel. Talvez A no soubesse realmente de nada, 
mas estivesse tentando convenc-los do contrrio. Quem era A, afinal? Ela olhou ao redor, pela sala de aula, para Amber Billings, enfiando o dedo em um buraquinho 
na meia; Mason Byers, secretamente checando o placar do jogo dos Phillies no telefone celular; e Hanna, anotando o que Ezra estava dizendo, com a caneta-tinteiro 
prpura. Alguma daquelas pessoas poderia ser A? Quem poderia saber sobre Ezra, seus pais... e A Coisa com Jenna?
        Um jardineiro passou rapidamente em um cortador de grama John Deere do lado de fora da janela e Aria deu um pulo. Ezra ainda estava falando sobre narradores 
mentirosos, fazendo pausas para dar golinhos na xcara de caf. Ele lanou um sorrisinho de leve para Aria, fazendo o corao dela acelerar.
        James Freed se inclinou, cutucou Hanna e apontou para Ezra.
        - Ento, eu ouvi falar que o Fitz  o maior garanho - disse ele num sussurro, mas alto o suficiente para que Aria, e o restante da fileira dela, ouvisse.
        Hanna olhou para Ezra e franziu o nariz.
        - Ele? Eca.
        - Aparentemente, ele tem uma namorada em Nova York, mas a cada semana est com uma garota diferente em Hollis - continuou James.
        Aria se endireitou na cadeira. Namorada?
        - Onde foi que voc ouviu isso? - perguntou Noel a James. 
        James sorriu.
        -Voc conhece a srta. Polanski? A monitora de biologia? Ela me contou. Ela fica conversando com a gente no fumdromo, s vezes.
        Noel bateu na palma da mo de James.
        - Cara, a srta. Polanski  gata.
        - Falando srio. Voc acha que eu poderia lev-la  Foxy? - quis saber James.
        Aria sentiu como se algum a tivesse atirado em uma fogueira. Uma namorada. Na sexta  noite, ele tinha dito que no saa com ningum havia muito tempo. 
Aria se lembrava de ter percebido os jantares congelados em poro nica, tpicos de solteiro, no refrigerador dele; seus oito mil livros, mas uma taa de vinho 
somente; e suas plantas murchas e tristes. Ele no parecia ter uma namorada.
        James poderia ter se enganado com os fatos, mas ela duvidava disso. Aria estava fervendo de raiva. Anos antes, ela poderia ter pensado que apenas os garotos 
tpicos de Rosewood gostariam de fazer joguinhos, mas havia aprendido muito sobre garotos na Islndia. s vezes, os garotos aparentemente mais inocentes eram os 
mais astutos. Nenhuma garota poderia olhar para Ezra - o sensvel, desmantelado, doce, afetuoso Ezra - e desconfiar dele. Ele fazia Aria se lembrar de algum. Seu 
pai.
        Ela se sentiu repentinamente enjoada e ento se levantou, pegou o crach de acesso ao corredor e saiu correndo pela porta.
        - Aria? - chamou Ezra, soando preocupado.
        Ela no parou. No banheiro das meninas, correu para a pia, passou sabo cor-de-rosa nas mos e esfregou o ponto do pescoo em que Ezra havia tocado. Estava 
voltando para a sala de aula, quando o telefone celular tocou. Ela o tirou da bolsa e apertou ler.
        Aria safadinha! Voc deveria saber melhor do que nin-
        gum que no se deve correr atrs de um professor. So 
        garotas como voc que destroem famlias perfeitamente 
        felizes.  -A
        Aria gelou. Estava no meio do corredor principal da escola, que estava vazio. Ouviu um barulho e se virou. Ela estava de frente para o armrio de trofus, 
de vidro, que tinha sido transformado em um verdadeiro santurio a Alison DiLaurentis. L dentro, havia vrias fotos de aulas em Rosewood Day - os professores sempre 
tiravam toneladas de fotografias durante o ano, e a escola normalmente as dava de presente aos pais quando seus filhos se formavam. L estava Ali, com um sorriso 
banguela no jardim de infncia, e vestida como peregrina na pea de teatro do quarto ano. Havia at mesmo alguns dos seus trabalhos escolares, como uma maquete representando 
o fundo do mar, do terceiro ano e uma ilustrao do sistema circulatrio, do quinto.
        Um quadradinho rosa-shocking chamou a ateno de Aria. Algum havia colado um Post-it no vidro do armrio. Os olhos dela se arregalaram.
        P.S.: Voc est se perguntando quem eu sou, no est? Eu 
        estou mais perto do que voc imagina.  -A
14
EMILY  NO TEM  PROBLEMA ALGUM
EM  FICAR COM AS SOBRAS  DE ALI
- Diga xis! - gritou Scott Chin, o fotgrafo do livro do ano de Rosewood Day. Era quinta-feira  tarde e a equipe de natao estava no parque aqutico, para as fotos 
em grupo antes de a reunio com os alunos da Tate ter incio. Emily havia participado de equipes de natao por tanto tempo que nem se importara em tirar uma foto 
de mai.
        Ela posou com as mos no bloco de partida e tentou sorrir.
        - Linda! - gritou Scott, fazendo biquinho com os lbios cor-de-rosa. Vrios garotos da escola especulavam sobre a possibilidade de Scott ser gay. Ele nunca 
admitira nada abertamente, mas tambm no fazia nada para desmentir os boatos.
        Enquanto Emily caminhava pela prgula para apanhar sua mochila, ela notou a equipe da Tate indo para as arquibancadas. Toby estava no meio do grupo, vestindo 
um conjunto de moletom azul Champion e rolando os ombros para a frente e para trs para se aquecer.
        Emily prendeu a respirao. Ela andava pensando em Toby desde que ele a resgatara, no dia anterior. Ela no podia imaginar Ben pegando-a no colo daquele 
jeito - ele provavelmente se preocuparia com o fato de que ergu-la poderia distender os msculos de seus ombros, e comprometer a competio do dia. E pensar em 
Toby havia provocado outra coisa: uma lembrana de Ali, que Emily quase havia apagado.
        Foi uma das ltimas vezes em que Emily estivera sozinha com Ali. Ela nunca se esqueceria daquele dia - o cu estava azul-claro, todas as flores em boto, 
havia abelhas por toda parte. A casa da rvore de Ali cheirava a Ki-Suco, seiva e fumaa de cigarro - Ali havia roubado um mao de Parliament do irmo mais velho. 
Ela agarrou as mos de Emily.
        -Voc no pode contar isso para os outros - disse ela. - Eu comecei a sair com esse cara mais velho, e  ma-ra-vi-lho-so,
        O sorriso de Emily desapareceu. Toda vez que Ali contava sobre um cara de que gostava, um pedacinho do corao dela se partia.
        - Ele  to gato - continuou Ali. - Eu quase tenho vontade de passar dos limites com ele.
        - O que  que voc quer dizer com isso? - Emily nunca havia ouvido algo to horripilante na vida. - Quem  ele?
        - No posso contar. - Ali deu um sorrisinho malicioso. -Vocs iriam surtar.
        E, ento, Emily no conseguiu mais suportar aquilo. Inclinou-se para a frente e beijou Ali. Houve um momento singular, maravilhoso; ento, Ali se afastou 
e riu. Emily tentou fazer tudo parecer uma brincadeira... e, logo em seguida, cada uma foi para sua casa jantar.
        Ela havia pensado sobre aquele beijo tantas vezes que mal se lembrava do que tinha acontecido antes dele. Mas, agora que Toby estava de volta, e ele era 
to bonito... aquilo fazia Emily pensar na possibilidade de o cara de quem Ali falara ser Toby. Quem mais faria com que os outros surtassem?
        Ali gostar de Toby fazia todo o sentido. No final do stimo ano, ela tinha passado por uma fase de garotos rebeldes, sempre falando sobre o quanto gostaria 
de sair com algum que fosse "tipo, mau". Ser mandado para o reformatrio contava, e talvez Ali tivesse visto algo em Toby que ningum mais via. Emily achava que 
era possvel que Ali pudesse enxergar a mesma coisa naquele momento. E, to bizarro quanto pudesse parecer, a possibilidade de que Ali tivesse gostado de Toby o 
fazia parecer muito mais atraente para Emily. O que era bom o suficiente para Ali sem dvida era bom suficientemente para ela.
        Logo que a reunio da natao foi interrompida para a competio de mergulho, Emily tirou os chinelos da bolsa, preparando-se para caminhar at Toby. Os 
dedos dela tamborilavam no telefone celular, enrolado na toalha. Ele estava piscando; o visor mostrava que havia sete chamadas de Maya no atendidas.
        A garganta de Emily se apertou. Maya havia ligado, mandado mensagens pela internet, pelo celular e por e-mail a semana inteira, e ela no havia respondido. 
Com cada nova chamada no atendida, ela se sentia mais confusa. Parte dela queria encontrar Maya na escola e passar a mo por seus cabelos macios e ondulados. Subir 
na garupa de sua bicicleta e matar aula. Beijar Maya tinha sido perigosamente bom. Mas outra parte dela desejava que Maya simplesmente... desaparecesse.
        Emily olhou fixamente para o visor do celular com um n na garganta. Ento, devagar, fechou o aparelho. De certo modo, parecia aquela vez, quando ela tinha 
oito anos e decidiu jogar Bee-Bee, seu cobertor de estimao, fora. Garotas crescidas no precisam de cobertores, dissera a si mesma, mas tinha sido horrvel fechar 
a tampa da lata de lixo com Bee-Bee l dentro.
        Ela respirou fundo e comeou a caminhar em direo s arquibancadas onde estava o pessoal da Tate. No caminho, olhou por cima do ombro, procurando por Ben. 
Ele estava do lado da Rosewood Day, batendo nos ombros de Seth com uma toalha. Desde o incidente de tera-feira, Ben havia ficado longe de Emily, agindo como se 
ela no existisse. Era certamente melhor do que atac-la, mas ela tinha uma certa paranoia de que ele estivesse falando dela pelas costas. Ela meio que queria que 
Ben a visse naquele momento, enquanto se aproximava de Toby. Olhe! Eu estou falando com um garoto!
        Toby havia jogado a toalha na beira da piscina. Estava com fones de ouvido ligados ao iPod no seu colo. O cabelo estava afastado do rosto e o moletom azul-marinho 
que ele usava sobre o calo de banho - para o qual Emily no tivera coragem de olhar da primeira vez - fazia com que seus olhos parecessem ainda mais azuis.
        Quando viu Emily, sua expresso se iluminou.
        - Oi. Eu te disse que ia te ver por aqui, no disse?
        - . - Emily sorriu, timidamente. - Ento, bem, eu s queria agradecer. Por me ajudar ontem. E no dia anterior.
        - Ah. Bem, no foi nada.
        Naquele momento, Scott apareceu com a cmera para o livro do ano.
        - Peguei vocs! - gritou ele, tirando uma foto. - J posso ver a legenda: Emily Fields, flertando com o inimigo! - Ento, ele sussurrou para Emily: - Embora 
eu ache que ele no  bem o seu tipo.
        Emily olhou para Scott inquisitivamente. O que ele queria dizer com aquilo? Mas ele se afastou. Quando ela se virou novamente para Toby, ele estava brincando 
com o iPod, e ela se virou para voltar para o lado de sua equipe. Havia dado uns trs passos quando Toby a chamou:
        - Ei, voc quer dar uma volta?
        Emily parou. Rapidamente, ela olhou para Ben. Ele ainda no estava prestando ateno.
        - Ah, tudo bem - decidiu.
        Eles passaram pelas portas duplas do parque aqutico de Rosewood Day e por um bando de garotos esperando pelos nibus e se sentaram na beira da fonte do 
Dia do Fundador. gua espirrava do topo da fonte, em um arco longo e reluzente. Mas estava nublado l fora, e a gua estava parada e turva, em vez de brilhante. 
Emily ficou olhando para um monte de moedinhas no fundo raso e prateado da fonte.
        - No ltimo dia de aula, os veteranos empurram o professor favorito nesta fonte - contou ela.
        - Eu sei - disse Toby. - Eu estudava aqui, lembra?
        -  Oh. - Emily se sentiu uma completa idiota. Claro que sim. E eles o mandaram embora.
        Toby tirou um pacote de biscoitos de chocolate da mochila e ofereceu um a Emily.
        - Quer? Um lanchinho antes da prova? 
        Emily deu de ombros.
        -Talvez metade.
        - Bom pra voc. - Toby lhe estendeu um. Ele desviou o olhar. -  engraado como as coisas so totalmente diferentes entre garotos e garotas. Os garotos sempre 
querem comer mais que os outros. Mesmo os caras mais velhos que eu conheo. Como o meu psiquiatra, no Maine. Uma vez, na casa dele, ns fizemos uma competio para 
ver quem comia mais camaro. Ele me venceu por seis camares. E o cara tem no mnimo uns trinta e cinco anos.
        -  Camaro. - Emily estremeceu. Para no perguntar o bvio: Voc teve um psiquiatra?, ela indagou:- O que aconteceu depois que o seu, hum, psiquiatra comeu 
tudo isso?
        - Ele vomitou. - Toby passou as pontas dos dedos sobre a superfcie da gua. A gua da fonte tinha um cheiro de cloro ainda mais forte que o da piscina.
        Emily passou as mos pelos joelhos. Ela se perguntou se ele tivera um psiquiatra pela mesma razo que o fizera assumir a culpa pela Coisa com Jenna.
        Um nibus executivo entrou no estacionamento de Rosewood Day. Devagar, os membros da banda da escola desceram do veculo, ainda de uniforme - jaquetas vermelhas 
com detalhes nas bordas, calas largas, o regente usando um chapu felpudo e engraado, que parecia bastante quente e desconfortvel.
        -Voc, hum, fala muito sobre o Maine - disse Emily. -Voc est feliz de estar de volta a Rosewood?
        Toby ergueu uma das sobrancelhas.
        -  Voc est feliz de estar de volta a Rosewood?
        Emily franziu a testa. Ela observou um esquilo correr em crculos ao redor de um dos carvalhos.
        - Eu no sei - respondeu ela em voz baixa. - s vezes, sinto que no me encaixo aqui. Eu costumava ser normal, mas agora... no sei. Eu me sinto como se 
devesse ser de um jeito que eu no sou.
        Toby a encarou.
        - Sei como . - Ele suspirou. - Existem todas essas pessoas perfeitas aqui. E... parece que, quando no se  como elas, voc realmente tem problemas. Mas 
eu acho que, no fundo, as pessoas que parecem to perfeitas so to problemticas quanto ns.
        Ele voltou o olhar para Emily, e as entranhas dela viraram do avesso. Ela se sentia como se seus pensamentos e segredos fossem manchetes de jornal em fonte 
setenta e dois, e Toby pudesse ler todos. Mas ele tambm era a primeira pessoa que havia expressado algo parecido com o que ela sentia a respeito das coisas.
        - Eu me sinto bem problemtica na maior parte do tempo - confessou ela, baixinho.
        Toby pareceu no acreditar nela.
        - Como voc pode ser problemtica?
        O som de um trovo ecoou a distncia. Emily colocou as mos dentro das mangas da jaqueta. Sou problemtica porque no sei quem sou nem o que quero, ela quis 
dizer. Mas, em vez disso, olhou diretamente para ele e balbuciou:
        - Adoro tempestades.
        - Eu tambm.
        E, ento, lentamente,Toby se inclinou e a beijou. Foi muito leve e hesitante, apenas um pequeno sussurro contra sua boca. Quando ele se afastou, Emily tocou 
os prprios lbios com os dedos, como se o beijo ainda estivesse ali.
        - O que foi isso? - murmurou ela.
        - Eu no sei - respondeu Toby. - Eu no devia ter...?
        - No - sussurrou Emily. - Foi bom. - O primeiro pensamento dela foi: Eu acabei de beijar um garoto que Ali pode ter beijado. O segundo foi que talvez ela 
fosse problemtica s de pensar aquilo.
        - Toby? - Uma voz os interrompeu. Um homem de jaqueta de couro estava parado sob a marquise do parque aqutico, com as mos na cintura. Era o sr. Cavanaugh. 
Emily o reconheceu da equipe de natao de vero, anos antes... e da noite em que Jenna se machucara. Os msculos dos ombros dela ficaram tensos. Se o sr. Cavanaugh 
estava ali, Jenna tambm estaria? E, ento, ela se lembrou de que Jenna estava na escola, na Filadlfia. Pelo menos, ela esperava que sim.
        - O que voc est fazendo aqui fora? - O sr. Cavanaugh estendeu a mo para fora da marquise, sentindo a chuva, que havia comeado a cair. - O seu revezamento 
j vai comear.
        - Oh. - Toby pulou de cima do muro e sorriu para Emily. -Voc vai voltar tambm?
        - Em um segundo - disse Emily, com franqueza. Se tentasse usar as pernas naquele instante, elas poderiam no funcionar. - Boa sorte na prova.
        - Tudo bem. - Os olhos de Toby se demoraram sobre ela durante mais um momento. Ele pareceu pronto para dizer algo, mas desistiu, seguindo o pai.
        Emily ficou sentada no muro de pedra por alguns minutos, a chuva ensopando sua jaqueta. Ela se sentia estranhamente nervosa, como se estivesse borbulhando. 
O que tinha acabado de acontecer? Quando seu Nokia anunciou que ela tinha uma mensagem de texto, ela franziu o cenho e o fisgou do bolso da jaqueta. O corao falhou 
por um segundo. Era justamente quem ela imaginara.
        Emily, que tal esta foto sua para o livro do ano, em vez da 
        outra?
        Ela clicou no anexo. Era uma foto de Emily e Maya, na cabine fotogrfica de Noel. Elas estavam olhando nos olhos uma da outra com desejo, a centmetros de 
um beijo. O queixo de Emily caiu. Ela se lembrava de apertar o boto na cabine para tirar as fotos - mas Maya no as havia levado com ela ao sarem?
        Voc no vai querer que isto se espalhe, no ?, dizia a linha de texto sob a foto.
        E -  claro - estava assinado -A.
15
ELA ROUBA POR VOC  E
 ASSIM  QUE VOC  RETRIBU
Mona saiu do trocador da Saks em um vestido verde-gua, da Calvin Klein, com um decote quadrado. A saia rodada se movia com graa enquanto ela se virava.
        - O que voc acha? - perguntou ela a Hanna, que estava examinando as roupas expostas do lado de fora.
        - Lindo - murmurou Hanna. Sob as luzes fluorescentes do trocador, ela podia ver que Mona estava sem suti.
        Mona posou diante do espelho de trs lados. Ela era to magra que, s vezes, tinha que apelar para um invejvel manequim trinta e quatro.
        - Eu acho que este, talvez, combine melhor com o seu tom de pele. - Ela puxou uma das alas. - Quer experimentar?
        - No sei - respondeu Hanna. -  meio transparente. 
        Mona franziu a testa.
        - Desde quando voc se importa?
        Hanna deu de ombros e examinou uma seo de blazers Marc Jacobs. Era uma quinta-feira  tarde e elas estavam no departamento de roupas de grife da Saks, 
no shopping King James, procurando freneticamente por vestidos para usar na Foxy. Vrias garotas da escola preparatria e outras, que no estavam na faculdade, mas 
ainda moravam com os pais, iriam comparecer, e era importante encontrar um vestido que j no estivesse sendo usado por cinco outras meninas.
        - Eu quero um visual clssico - respondeu Hanna. - Como a Scarlett Johansson.
        -  Por qu? - perguntou Mona. - Ela tem uma bunda enorme.
        Hanna fez biquinho. Quando ela falou em clssico, queria dizer sutil. Como aquelas garotas em propagandas de diamantes, que parecem doces, mas tm as palavras 
me foda tranadas no cabelo. Se Sean ficasse to encantado com a virtude de Hanna talvez rejeitasse seus votos do Clube da Virgindade e arrancasse sua lingerie.
        Hanna apanhou um par de sapatos peep-toe caramelo, da Miu Miu, na prateleira do lado do trocador.
        - Adoro estes. - Ela mostrou um deles para Mona.
        - Que tal se voc... - Mona apontou o queixo para a bolsa de Hanna.
        Hanna os colocou de volta na prateleira.
        - De jeito nenhum.
        - Por que no? - sussurrou Mona. - Sapatos so a coisa mais fcil.Voc sabe disso. - Quando Hanna hesitou, Mona estalou a lngua. -Voc ainda est traumatizada 
com a Tiffany?
        Em vez de responder, Hanna fingiu estar interessada em um par de sandlias metlicas Marc Jacobs.
        Mona tirou mais algumas coisas dos mostradores e voltou para o trocador. Segundos depois, ela saiu de mos vazias.
        - Este lugar  uma droga.Vamos tentar a Prada.
        Elas andaram pelo shopping enquanto Mona digitava em seu Sidekick.
        - Estou perguntando ao Eric qual a cor das flores que ele vai levar para mim - explicou ela. -Talvez eu combine a cor do meu vestido com elas.
        Mona havia decidido ir  Foxy com o irmo de Noel Kahn, Eric, com quem j havia sado algumas vezes naquela semana. Os garotos Kahn eram sempre parceiros 
seguros para a Foxy - eram bonitos e ricos, e os fotgrafos das colunas sociais os adoravam. Mona tentara convencer Hanna a convidar Noel, mas ela demorou demais. 
Noel tinha convidado Celeste Richards, que frequentava o colgio interno Quaker - uma surpresa, j que todos achavam que Noel tinha uma queda por Aria Montgomery. 
Hanna no se importava, entretanto. Se ela no podia ir com Sean, no iria com mais ningum.
        Mona levantou os olhos de suas mensagens de texto.
        -  Qual clnica de bronzeamento artificial voc acha melhor, a Sun Land ou a Dalia's? Celeste e eu estamos pensando em ir  Sun Land amanh, mas eu acho 
que eles fazem com que a gente parea alaranjada.
        Hanna deu de ombros, sentindo uma pontada de cimes. Mona deveria estar indo se bronzear com ela, no com Celeste. Ela estava prestes a dizer isso quando 
seu celular tocou. Seu corao se acelerou um pouco. Sempre que o telefone tocava, ela pensava em A.
        - Hanna? - Era a me dela. - Onde voc est?
        - Estou fazendo compras - Hanna respondeu. Desde quando sua me se importava?
        - Bem, voc precisa vir para casa. Seu pai vai passar por aqui.
        - O qu? Por qu? - Hanna olhou para Mona, que estava examinando culos de sol baratos em um quiosque. Ela no tinha contado a Mona que seu pai a visitara 
na segunda-feira. Era algo estranho demais para se contar.
        - Ele s... precisa apanhar algo - respondeu sua me.
        - Tipo o qu?
        A sra. Marin deu uma risada irnica.
        - Ele est passando aqui para pegar alguns documentos que ns precisamos discutir antes de ele se casar. Essa explicao basta para voc?
        Um suor frio escorreu pela nuca de Hanna. Um, porque sua me havia mencionado o que ela detestava pensar - que seu pai estava se casando com Isabel, e seria 
o pai de Kate. E dois, porque ela havia pensado que seu pai poderia estar passando em casa s para v-la, especificamente. Por que ela deveria ir para casa se ele 
estava indo l por outro motivo? Ia ficar parecendo que ela no tinha vida prpria. Ela checou o prprio reflexo na vitrine da Banana Republic.
        - Quando ele chega? - perguntou.
        - Ele vai estar aqui em uma hora. - A me desligou abruptamente. Hanna fechou o telefone com fora e o apertou entre as mos, sentindo o calor do aparelho 
contra sua pele.
        - Quem era? - cantarolou Mona, dando o brao a Hanna.
        - Minha me - respondeu Hanna, distrada. Ela imaginava se teria tempo suficiente para tomar um banho quando chegasse em casa; ela estava cheirando a vrios 
perfumes diferentes que experimentara na Neiman Marcus. - Ela quer que eu v pra casa.
        - Por qu?
        - Porque... sim.
        Mona parou e olhou cuidadosamente para Hanna.
        - Han, sua me no liga para voc sem motivo nenhum, apenas para mand-la voltar para casa.
        Hanna parou. Elas estavam na frente da entrada do Ano do Coelho, o bistr chins sofisticado do shopping, e o aroma intoxicante de molho agridoce lhe subiu 
s narinas.
        - Bom,  porque... meu pai vai passar l em casa. 
        Mona franziu a testa.
        - Seu pai? Eu pensei que ele estava...
        - No est - interrompeu Hanna, depressa. Quando Mona e Hanna se tornaram amigas, Hanna disse a Mona que o pai estava morto. Ela havia prometido a si mesma 
jamais falar com ele novamente, portanto, no era exatamente uma mentira. - Ns no tivemos nenhum contato por muito tempo - explicou. - Mas eu o vi outro dia, e 
ele tem negcios na Filadlfia, ou coisa do tipo. Ele no est indo l hoje por minha causa. No sei por que minha me me quer l.
        Mona ps a mo na cintura.
        - Por que voc no me contou isso antes? 
        Hanna deu de ombros.
        - Ento, quando isso aconteceu?
        - No sei. Segunda-feira?
        - Segunda-feira? - Mona parecia magoada.
        - Meninas! - Uma voz as interrompeu. Hanna e Mona olharam para o lado. Era Naomi Zeigler. Ela e Riley Wolfe estavam saindo da Prada com sacolas pretas de 
compras penduradas em seus ombros perfeitamente bronzeados.
        -Vocs esto fazendo compras para a Foxy? - perguntou Naomi. Seus cabelos loiros estavam reluzentes como sempre, e sua pele brilhava de forma irritante, 
mas Hanna no pde evitar notar que seu vestido BCBG era da coleo passada. Antes que ela pudesse responder, Naomi completou: - No percam seu tempo na Prada, ns 
compramos as nicas coisas boas de l.
        - Talvez ns j tenhamos nossos vestidos - rebateu Mona duramente.
        - Hanna, voc tambm vai? - Riley arregalou os olhos castanhos e jogou para trs o cabelo ruivo brilhante. - Eu achei que, talvez,j que voc no est com 
o Sean...
        - Eu no perderia a Foxy por nada - afirmou Hanna, de forma arrogante.
        Riley ps a mo na cintura. Ela estava vestindo leggings pretas, uma camisa jeans desfiada e um suter listrado de branco e preto. Recentemente, havia sido 
publicada em um revista uma foto da Mischa Barton usando exatamente o mesmo modelo.
        - O Sean  to lindo - suspirou Riley. - Eu acho que ele ficou ainda mais bonito neste vero.
        - Ele  totalmente gay - disse Mona, rapidamente. 
        Riley no pareceu preocupada.
        - Eu aposto que posso faz-lo mudar de ideia. 
        Hanna cerrou os punhos.
        A expresso de Naomi se iluminou.
        - Ah, Hanna, ento, a Associao Crist de Moos  fantstica, no ?Voc tem que fazer aulas de pilates comigo! O instrutor, Oren? Lindo.
        - Hanna no frequenta a Associao - interrompeu Mona. - Ns vamos ao Body Tonic. Isso a  um buraco.
        Hanna virou-se de Mona para Naomi. Seu estmago revirava.
        -Voc no vai  Associao? - Naomi fez a cara mais inocente de que era capaz. - Estou confusa. No vi voc l ontem? Do lado de fora da sala de ginstica?
        Hanna agarrou o brao de Mona.
        -  Ns estamos atrasadas. - Ela a arrastou para longe da Prada, voltando na direo da Saks.
        - O que foi aquilo? - perguntou Mona, desviando-se com graa de uma senhora obesa, carregada de sacolas.
        - Nada. Eu simplesmente no consigo suport-la.
        - Por que voc estava na Associao ontem? Voc me disse que ia ao dermatologista.
        Hanna parou. Ela sabia que encontrar Naomi antes do Clube da Virgindade resultaria em problemas.
        - Eu... tinha uma coisa pra fazer l.
        - O qu?
        - No posso te contar.
        Mona franziu o cenho e se virou. Ela deu passos secos e determinados em direo  Burberry. Hanna a alcanou.
        - Olhe, eu simplesmente no posso. Sinto muito. 
        -Tenho certeza de que sente. - Mona comeou a vasculhar dentro da bolsa e tirou dela os sapatos caramelo Miu Miu, da Saks. Eles no estavam na caixa e o 
lacre de segurana tinha sido arrancado. Ela os balanou na frente do rosto de Hanna. - Eu ia d-los de presente para voc. Mas esquea. 
        O queixo de Hanna caiu. 
        -Mas...
        - Aquele negcio com o seu pai aconteceu h trs dias e voc nem me contou - disse Mona. - E, agora, voc fica mentindo pra mim sobre o que vai fazer depois 
da escola.
        - No  bem assim... - gaguejou Hanna.
        -  o que parece para mim. - Mona franziu a testa. - Sobre o que mais voc est mentindo?
        - Sinto muito - balbuciou Hanna. - Eu s... - Ela olhou para os prprios sapatos e respirou fundo. -Voc quer saber por que eu estava na Associao? Tudo 
bem. Eu fui ao Clube da Virgindade.
        Os olhos de Mona se arregalaram. Seu celular tocou dentro da bolsa, mas ela no fez nenhum movimento para apanh-lo.
        - Agora eu espero que voc esteja mentindo.
        Hanna sacudiu a cabea. Ela se sentia um pouco nauseada; a Burberry tinha o mesmo cheiro forte de seu novo perfume.
        - Mas... por qu?
        - Eu quero o Sean de volta. 
        Mona caiu na gargalhada.
        -Voc me disse que tinha terminado tudo com o Sean na festa do Noel.
        Hanna olhou para a vitrine da Burberry e quase teve um ataque cardaco. A bunda dela estava mesmo daquele tamanho? De repente, ela estava na mesma proporo 
da Hanna gorda e babaca do passado. Ela engasgou, desviou o olhar e olhou de novo. A Hanna normal olhou de volta.
        - No - respondeu. - Ele terminou comigo.
        Mona no riu, mas tambm no tentou confortar Hanna.
        - Foi por isso que voc foi  clnica do pai dele, tambm?
        -  No - disse Hanna rapidamente, esquecendo de que havia visto Mona l. Ento, percebendo que teria que contar a Mona o motivo real, ela voltou atrs. - 
Bom, foi. Mais ou menos.
        Mona deu de ombros.
        - Bem, eu meio que j tinha ouvido falar que o Sean tinha terminado com voc, de qualquer jeito.
        - O qu? - sibilou Hanna. - Quem disse isso?
        - Acho que foi na aula de ginstica. No me lembro. - Mona deu de ombros. - Talvez o Sean tenha comeado a espalhar isso.
        Os olhos de Hanna se enevoaram. Ela duvidava de que Sean tivesse falado... mas talvez A tivesse. 
        Mona olhou para ela.
        - Eu achei que voc queria perder a virgindade, no prolong-la.
        - Eu s queria ver como era - disse Hanna, docemente.
        - E a? - Mona fez um biquinho malicioso. - Me d os detalhes srdidos. Aposto que foi hilrio. Vocs cantaram? Entoaram mantras? O qu?
        Hanna franziu a testa e se virou. Normalmente, ela teria contado tudo a Mona. Mas estava magoada com o fato de Mona rir dela, e no queria lhe dar satisfao. 
Candace havia dito de forma to decidida: Esse  um lugar seguro. Agora, Hanna no sentia que tinha o direito de contar os segredos dos outros, nem mesmo quando 
parecia que A estava contando os dela. E por que, se Mona havia ouvido um boato sobre ela, no tinha lhe dito nada? Elas no deveriam ser melhores amigas?
        - Nada disso, na verdade - murmurou ela. - Foi bem chato.
        O rosto de Mona, que antes tinha uma expresso de expectativa, passou a demonstrar desapontamento. Ela e Hanna olharam uma para a outra. Ento, o celular 
de Mona tocou, e ela desviou o olhar.
        - Celeste? - disse Mona ao atender. - Oi!
        Hanna mordeu os lbios, nervosa, e olhou para o relgio Gucci que usava.
        - Tenho que ir - sussurrou para Mona, fazendo um gesto na direo da sada leste do shopping. - Meu pai...
        - Espere - disse Mona ao telefone. Ela cobriu o bocal com as mos, revirou os olhos e empurrou os sapatos Miu Miu para as mos de Hanna. - Fique com eles. 
Na verdade, eu os detestei.
        Hanna se afastou, segurando os sapatos roubados pelas tiras. De repente, ela tambm os detestava.
16
UM   NOITE  FAMILIAR  NORMAL
E  LEGAL DOS  MONTGOMERY
Naquela noite, Aria sentou-se em sua cama, tricotando uma coruja de l de mohair. O bichinho era marrom e tinha cara de macho; ela tinha comeado na semana anterior, 
pensando em d-la a Ezra. Agora que isso realmente no ia acontecer, ela estava pensando... talvez pudesse d-la ao Sean? Isso no seria esquisito?
        Antes de Ali desaparecer, ela tinha tentado arranjar uns meninos de Rosewood para Aria, dizendo: 
        -  s ir l e falar com ele. No  difcil. 
        Mas, para Aria, era difcil. Quando ela chegava perto de um menino de Rosewood, congelava e falava a primeira coisa idiota que viesse  sua mente - que, 
por alguma razo, era frequentemente algo sobre matemtica. E ela odiava matemtica. At acabar o stimo ano, apenas um cara tinha falado com ela fora da sala de 
aula:Toby Cavanaugh.
        E havia sido assustador. Acontecera apenas algumas semanas antes de Ali desaparecer; Aria tinha se inscrito num acampamento de artes, no final de semana, 
e quem apareceu logo no primeiro workshop foi ningum mais, ningum menos que Toby. Aria ficou abismada - ele no deveria estar num colgio interno... para sempre? 
Mas, aparentemente, a escola dele comeara as frias de vero antes de Rosewood Day e l estava ele. Ele sentou-se num canto, com o cabelo no rosto, mexendo num 
elstico em seu pulso.
        A professora de teatro, uma mulher magricela, de cabelo arrepiado, que usava um monte de roupas hippies manchadas, pediu para todos fazerem um exerccio: 
eles deveriam formar pares e gritar uma frase para o outro continuamente, at entrar num ritmo. A frase deveria ser dita naturalmente. Eles deveriam andar pela sala, 
se encontrando uns com os outros, e Aria rapidamente se viu em frente a Toby. A frase desse dia era: Nunca neva no vero.
        - Nunca neva no vero - disse Toby.
        - Nunca neva no vero - rebateu Aria.
        - Nunca neva no vero - repetiu Toby.
        Os olhos dele estavam fundos e as unhas, rodas at o toco. Aria sentiu arrepios por estar to perto dele. Ela no conseguia parar de pensar no rosto macabro 
na janela da Ali, pouco antes de elas ferirem Jenna. E em como os paramdicos puxaram Jenna da casa da rvore escada abaixo, quase a derrubando. E como, poucos dias 
depois, quando elas estavam na apresentao beneficente de fogos de artifcio, ela escutou a sua professora de programas de sade, sra. Iverson, dizer:
        - Se eu fosse o pai daquele garoto, no o mandaria apenas para o colgio interno. Eu o mandaria para a cadeia.
        E a, a frase mudou. Tornou-se: Eu sei o que voc fez no vero passado. Toby deveria falar primeiro, mas Aria gritou a frase algumas vezes antes de se dar 
conta do que ela realmente significava.
        - Ah, como o filme! - gritou a professora, batendo palmas.
        - Sim - concordou Toby, e sorriu para Aria.
        Um sorriso de verdade, tambm, no um sorriso sinistro, o que a fez sentir-se pior. Quando ela contou a Ali o que havia acontecido, Ali suspirou.
        - Aria, o Toby , tipo, doente da cabea, eu fiquei sabendo que ele quase se afogou no Maine, nadando num riacho gelado, enquanto tentava fotografar um alce.
        Mas Aria nunca mais voltou para as aulas de teatro.
        Ela pensou novamente sobre o recadinho de A. Voc est imaginando quem eu sou, no est? Eu estou mais perto do que voc pensa.
        Poderia A ser Toby? Ele teria se infiltrado em Rosewood Day e colocado o recado no memorial de Ali? Alguma de suas amigas o teria visto? Ou talvez A frequentasse 
alguma aula junto com ela. A turma de ingls faria mais sentido - os horrios em que havia recebido os recados batiam com o do pessoal que assistia a essa matria. 
Mas quem? Noel? James Freed? Hanna?
        Aria se concentrou em Hanna. Havia pensado sobre ela anteriormente - Ali poderia ter contado a Hanna sobre seus pais. E Hanna fazia parte de A Coisa com 
Jenna.
        Mas por qu?
        Ela folheou o livro de fotos da Rosewood Day - a lista de todos os nomes de seus colegas de classe e seus telefones havia sado naquele dia - e achou a foto 
do Sean. O cabelo dele tinha um corte esportivo, curto, e ele estava bronzeado como se tivesse passado o vero no iate do pai. Os meninos com quem Aria havia sado 
na Islndia eram branquinhos e de cabelo lambido, e, se tivessem barcos, seriam os caiaques que usavam para ir  geleira Snaefellsjkull.
        Ela discou o nmero de Sean, mas caiu na caixa postal.
        - Oi, Sean - disse ela, na esperana de que sua voz no estivesse muito cantada. -  Aria Montgomery. Eu, hum, eu s liguei para dizer oi, e, hum, eu tenho 
uma recomendao de uma filsofa para voc.  a Ayn Rand. Ela , tipo, supercomplexa, mas legvel. D uma conferida.
        Ela deixou seu nmero do celular e seu nick no Messenger, desligou e logo pensou em apagar a mensagem. Sean provavelmente tinha toneladas de meninas no 
esquisitas de Rosewood ligando para ele.
        - Aria! - chamou Ella l de baixo, da beirada da escada. - Venha jantar!
        Ela jogou o celular na cama e desceu a escadaria lentamente. Seus ouvidos captaram um estranho bipe vindo da cozinha. Seria o... alarme do forno? Mas isso 
seria impossvel. A cozinha deles era em estilo anos cinquenta retr, e o fogo era um Magic Chef autntico, de 1956. Ella raramente o usava, pois era to velho 
que poderia atear fogo na casa.
        Mas para surpresa de Aria, Ella tinha alguma coisa no forno, e o irmo e o pai estavam  mesa. Era a primeira vez, depois do final de semana, que a famlia 
toda estava reunida. Mike tinha passado as ltimas trs noites na casa de vrios meninos do lacrosse, e o pai, bem, ele estivera muito ocupado "dando aula".
        Um frango assado, uma tigela de pur de batatas e um prato de vagem ocupavam o meio da mesa. Todos os pratos e talheres combinavam e havia at jogos americanos. 
Aria ficou nervosa. Parecia muito normal... ainda mais quando se pensava que quem estava ali era a sua famlia. Alguma coisa tinha de estar errada. Algum tinha 
morrido? A tinha contado tudo?
        Mas seus pais pareciam tranquilos. A me tirou uma assadeira de pes de dentro do forno - que, por um milagre, no estava em chamas - e o pai estava quieto, 
sentado, folheando o NewYork Times. Ele estava sempre lendo:  mesa, nos eventos esportivos de Mike, at mesmo enquanto dirigia.
        Aria virou-se para o pai, que ela pouco tinha visto desde a segunda-feira, no bar Victory.
        - Oi, Byron - cumprimentou-o ela. 
        O pai deu a Aria um sorriso sincero.
        - Ol, Macaquinha.
        Ele s vezes chamava Aria de Macaquinha. Costumava cham-la de Macaquinha Peluda, tambm, at que ela pediu para ele parar. Sempre parecia que ele acabara 
de sair da cama: usava camiseta furada de uma loja barata, calo dos Philadelphia 76 ou uma cala lisa de pijama, e um velho chinelo, forrado de pele de carneiro. 
Seu denso cabelo castanho-escuro tambm estava sempre bagunado feito o de um louco. Aria achava que ele se parecia com um coala.
        - E oi, Mike! - cumprimentou Aria alegremente o irmo, bagunando o cabelo dele.
        Mike se encolheu.
        - No encosta em mim!
        - Mike. - Ella apontou para ele com um dos palitinhos que usava para fazer o coque em seu cabelo castanho.
        - Eu s estava brincando. - Aria se segurou para no dar uma resposta daquelas a Mike. Em vez disso, sentou-se, desdobrou o guardanapo florido bordado em 
seu colo e pegou um garfo com cabo de baquelita.
        - O frango est com um cheiro timo, Ella. 
        Ella colocou batatas no prato de todos.
        -  s uma dessas comidas prontas de rotisseria.
        - Desde quando voc acha que frango cheira bem? - rosnou Mike. -Voc no come frango.
        Era verdade. Aria tinha se tornado vegetariana em sua segunda semana da viagem  Islndia, quando Hallbjorn, seu primeiro namorado, comprou um lanche de 
um vendedor ambulante que ela pensou ser cachorro-quente. Era uma delcia, mas, depois de com-lo, ele contou a ela que era carne de papagaio-do-mar. Desde ento, 
toda vez que tinha carne na frente dela, ela imaginava a carinha de um beb papagaio-do-mar.
        - Bem, ainda assim. Eu como batatas. -Aria enfiou uma garfada fumegante na boca. - E estas esto maravilhosas.
        Ella franziu o cenho.
        - So pr-cozidas.Voc sabe que eu no sei cozinhar. 
        Aria sabia que estava se esforando demais. Mas se fosse uma filha modelo em vez de uma sarcstica e reclamona, Byron ia se dar conta do que estava perdendo.
        Ela se virou para Byron novamente. Aria no queria odiar o pai. Havia toneladas de coisas boas nele - sempre ouvia seus problemas, era inteligente, fazia 
brownies fique-boa-logo com calda quando ela ficava gripada. Aria havia tentado achar uma razo lgica, no romntica para o motivo pelo qual o lance da Meredith 
havia acontecido. Ela no queria achar que o pai amava outra pessoa, ou que ele estava tentando separar a famlia. Entretanto, era difcil no levar para o lado 
pessoal.
        Ao comer uma garfada cheia de vagem, o telefone de Ella, que estava apoiado na bancada da cozinha, comeou a tocar. Ella olhou para Byron.
        - Devo atender? 
        Byron franziu a testa.
        - Algum ligando para voc na hora do jantar?
        - Talvez seja o Oliver, da galeria.
        De repente, Aria sentiu um n na garganta. E se fosse A? 
        O telefone tocou de novo. Aria se levantou.
        - Eu atendo.
        Ella limpou a boca e empurrou a prpria cadeira.
        - No, eu atendo.
        - No! - Aria correu para a bancada. O telefone tocou a terceira vez.
        - Eu... hum... ...
        Ela balanou os braos loucamente, tentando pensar. Sem ideias, pegou o telefone e o arremessou para a sala de estar. Ele derrapou pelo cho, freou no sof 
e parou de tocar. O gato dos Montgomery, Polo, veio sorrateiro e deu uns tapinhas no celular com uma das patas listradas.
        Quando Aria virou-se de volta, sua famlia estava olhando para ela.
        - O que deu em voc? - perguntou Ella.
        - Eu s... - Aria estava encharcada em suor, e todo o seu corpo vibrava com as batidas do seu corao. Mike cruzou as mos atrs da cabea.
        - Doi-DINHA - falou ele.
        Ella passou por ela para ir at a sala e agachou-se para ver a tela do celular. Sua saia plissada roou no cho, pegando poeira.
        - Era o Oliver.
        Ao mesmo tempo, Byron se levantou.
        - Eu tenho que ir.
        - Ir? - A voz de Ella estava engasgada. - Mas ns comeamos a comer agora.
        Byron levou seu prato vazio para a pia. Ele sempre tinha sido o mais rpido do planeta a comer, mais rpido ainda que Mike.
        - Eu tenho coisas pra fazer no escritrio.
        - Mas... - Ella ps as mos em sua pequena cintura.
        Todos olharam, sem poder fazer nada, enquanto Byron desaparecia escada acima e voltava meio minuto depois vestindo calas cinza de pregas e uma camisa azul. 
Seu cabelo ainda estava completamente despenteado. Ele pegou sua maleta e as
chaves.
        - Vejo vocs daqui a pouco.
        - Voc pode trazer suco de laranja? - gritou Ella, mas Byron fechou a porta da frente sem responder.
        Um segundo depois, Mike saiu correndo da cozinha, sem colocar o prato na pia. Ele pegou sua jaqueta e o taco de lacrosse, e calou os tnis sem desamarr-los.
        - Agora, aonde voc vai? - perguntou Ella.
        - Treinar - respondeu Mike rapidamente. Ele estava com a cabea baixa e mordendo o lbio, como se estivesse tentando segurar o choro. Aria queria correr 
at o irmo, abra-lo e tentar pensar no que fazer naquela situao, mas congelou, como se estivesse grudada aos azulejos xadrez do cho da cozinha.
        Mike bateu a porta, fazendo a casa toda tremer. Alguns segundos depois, Ella ergueu seu olhos cinza at Aria.
        - Todos esto nos deixando.
        - No, no esto - corrigiu Aria, depressa.
        A me voltou  mesa e encarou o resto de frango em seu prato. Depois de alguns segundos ponderando, colocou um guardanapo sobre ele e voltou-se para Aria.
        -Voc achou seu pai estranho?
        Aria sentiu a boca secar.
        - Estranho como?
        - Eu no sei. - Ella passou o dedo na beirada do prato de porcelana. - Parece que alguma coisa o est incomodando. Talvez seja algo relacionado s aulas? 
Ele parece estar to atarefado...
        Aria sabia que ela ia dizer algo, mas as palavras pareciam presas em sua boca, como se ela precisasse de um desentupidor ou de um aspirador para sug-las.
        - Ele no me disse nada sobre isso. - No era exatamente uma mentira.
        Ella encarou-a.
        -Voc me falaria se ele tivesse dito, certo? 
        Aria inclinou a cabea para baixo, fingindo que tinha alguma coisa nos olhos.
        - Claro.
        Ella se levantou e tirou o resto das coisas da mesa. Aria ficou ali, sentindo-se intil. Aquela era a sua chance... e ela estava ali, parada. Como um saco 
de batatas.
        Ela andou de volta ao seu quarto e sentou-se em frente ao computador, sem ter certeza do que fazer consigo mesma. L embaixo, podia ouvir a musiquinha do 
comeo de Jeopardy!. Talvez ela devesse voltar pra l e ficar com Ella. Mas o que realmente queria fazer era chorar.
        O Messenger fez aquele som que lembrava o barulho de uma bexiga sendo estourada, o que indicava que havia uma mensagem instantnea nova. Aria foi verificar, 
pensando se seria, talvez, Sean. Mas... no era.
        A A A A A A: Duas alternativas: fazer com que tudo isso de-
        saparea ou contar  sua me. Eu te dou at a ltima ba-
        dalada da meia-noite de sbado, Cinderela. Seno, voc j 
        sabe. -A
        Um rangido a fez pular. Aria se virou e viu que o gato havia aberto a porta do quarto com o focinho. Ela o acariciou sem pensar em nada, lendo a mensagem 
de novo. E de novo. E de novo.
        Seno, voc j sabe? E fazer com que tudo isso desaparea? Como ela poderia fazer isso?
        O computador fez outro bipe. A janela de mensagem instantnea piscou.
        A A A A A A: No sabe como? Aqui vai uma dica: aa-
        demia de Ioga Montanha dos Morangos. 7:30. Amanh. 
        Esteja l.
17
A GAROTINHA DO PAPAI
TEM UM SEGREDO
Hanna parou a quinze centmetros do espelho do seu quarto, se autoinspecionando de perto. Devia ter sido um reflexo esquisito no shopping - ali, ela parecia normal 
e magra. Embora... Os seus poros pareciam um pouco dilatados? Ela estava meio vesga?
        Nervosa, abriu a gaveta da cmoda e pegou um pacote gigante de batatas fritas sabor sal e pimenta-do-reino. Ela colocou um punhado de batatas na boca, mastigou, 
e depois parou. Na semana anterior, as mensagens misteriosas a haviam levado a esse ciclo horroroso de comer muito/se livrar de tudo - mesmo ela tendo parado com 
esse hbito h muitos anos. No ia comear com aquilo de novo. Ainda mais na frente do seu pai.
        Ela fechou o pacote e olhou pela janela. Onde ele estaria? Haviam se passado quase duas horas desde que sua me a tinha chamado no shopping. Ento, ela viu 
um Range Rover virar na entrada da sua casa - um caminho sinuoso de quatrocentos metros, cheio de rvores. O carro manobrou facilmente pelas curvas da entrada, de 
uma forma que s algum que j tivesse morado l conseguiria. Quando Hanna era mais nova, ela e o pai costumavam descer at o porto de carrinho de rolim. Ele a 
ensinara a se inclinar nas curvas para no cair.
        Quando a campainha soou, ela pulou. Seu pinscher miniatura, Dot, comeou a latir, ento, a campainha tocou de novo. O latido de Dot ficou ainda mais agudo 
e enlouquecido, e a campainha tocou pela terceira vez.
        - J vou! - grunhiu Hanna.
        - Ei - falou o pai, quando ela escancarou a porta. Dot comeou a dar pulinhos em volta das pernas dele. - Ol, menino. - Ele se abaixou para pegar o cozinho.
        - Dot, no! - falou Hanna.
        - No, deixa ele. - O sr. Marin acariciou o nariz do pinscher miniatura. Hanna o havia comprado logo depois que o pai fora embora.
        - Ento. - O pai esperou na varanda, parecendo desconfortvel.
        Ele vestia um terno de trabalho cinza-escuro e uma gravata cinza e vermelha. Ele parecia um executivo que tinha acabado se sair de uma reunio. Hanna imaginou 
se ele queria entrar. Ela achou estranho convid-lo para entrar em sua prpria casa.
        - Posso... - comeou ele.
        -Voc gostaria de...? - disse Hanna, ao mesmo tempo.
        O pai riu de nervosismo. Hanna no tinha certeza se queria abra-lo. O pai deu um passo em direo a ela, e Hanna deu um passo para trs, batendo de encontro 
 porta. Ela tentou disfarar, como se tivesse feito de propsito.
        -Vamos, entra logo. - A voz de Hanna soou perturbada.
        Eles pararam no vestbulo. Hanna sentiu o olhar do pai sobre ela.
        -  muito bom ver voc - disse ele.
        Hanna deu de ombros. Ela queira ter um cigarro nas mos, ou alguma coisa para fazer com elas.
        - , bem. Ento, voc quer o negcio das finanas? Est bem aqui.
        Ele olhou de lado, ignorando-a.
        - Eu queria ter perguntado a voc no outro dia. Seu cabelo. Voc mudou alguma coisa nele. Est... Est mais curto?
        Ela abriu um sorriso falso.
        - Est mais escuro. 
        Ele apontou.
        - Bingo. E voc no est usando culos!
        - Eu fiz cirurgia a laser. - Ela desviou o olhar. - H dois anos.
        - Ah. - O pai ps as mos nos bolsos.
        - Do jeito que voc fala parece uma coisa ruim.
        - No - respondeu o pai, depressa. -Voc est... diferente.
        Hanna cruzou os braos. Quando seus pais decidiram se divorciar, Hanna achou que era porque ela tinha engordado e ficado desengonada. E feia. Encontrar 
Kate havia feito tudo isso parecer ainda mais verdadeiro. Ele tinha encontrado uma filha substituta e feito a troca.
        Depois do desastre da Annapolis, o pai tentara manter contato. No comeo, Hanna deixou. Teve umas duas conversas monossilbicas e mal-humoradas ao telefone. 
O sr. Marin tentou provoc-la para saber se havia algo de errado, mas Hanna estava muito envergonhada para tocar no assunto. Com o tempo, o intervalo entre as conversas 
ficou cada vez maior... E ento elas pararam completamente.
        O sr. Marin caminhou pelo vestbulo, os ps estalando contra o piso de madeira. Hanna imaginou se ele estaria verificando         o que mudara e o que permanecera 
como antes. Teria ele notado que a foto em preto e branco dela e dele, que ficava pendurada em cima da mesinha de madeira, havia sido retirada? E que a litogravura 
de uma mulher fazendo o exerccio de ioga saudao ao sol - um quadro que o pai de Hanna odiava, mas que a me dela amava - estava pendurado no lugar da foto?
O pai despencou no sof da sala de estar, apesar de ningum jamais usar aquele cmodo. Ele mesmo no costumava us-lo. Era escuro, muito abafado, tinha um monte 
tapetes orientais feios e cheirava a spray para limpar estofados. Hanna no sabia mais o que fazer, ento ela o seguiu e sentou-se na banqueta no canto da sala.
        - Ento. Como esto as coisas, Hanna? 
        Ela encolheu as pernas.
        - Eu estou bem.
        - Que bom.
        Outro oceano de silncio. Ela ouviu as unhazinhas de Dot rasparem o assoalho da cozinha, e o som de sua pequena lngua lambendo a gua do bebedouro. Desejou 
uma interrupo -um telefonema, o alarme de incndio apitando, at uma nova mensagem de A - qualquer coisa que pudesse tir-la daquela situao desconfortvel.
        - E voc, como est? - perguntou ela afinal.
        - Nada mal. - Ele pegou uma almofada de franjas do sof e segurou-a diante do corpo. - Estas coisas sempre foram to feias.
        Hanna concordava, mas, e da? Por acaso as almofadas da casa da Isabel eram perfeitas? 
        O pai olhou para cima.
        -Voc se lembra daquela brincadeira que voc costumava fazer? Voc punha as almofadas no cho e pulava de uma para outra fingindo que o cho era lava?
        - Pai. - Hanna franziu o nariz e abraou os joelhos com mais fora ainda.
        Ele apertou a almofada.
        -Voc podia ficar nessa brincadeira por horas a fio.
        - Eu tinha seis anos.
        -Voc se lembra do Cornelius Maximilian?
        Ela olhou pra cima. Os olhos dele brilhavam.
        -Pai...
        Ele jogou a almofada para cima e pegou de volta.
        - Eu no devo falar nele? Faz muito tempo? 
        Ela levantou o queixo, secamente.
        - Provavelmente.
        Por dentro, entretanto, ela deu um sorrisinho. Cornelius Maximilian era a piada familiar que eles haviam inventado depois de assistir a Gladiador. Tinha 
sido um grande presente para Hanna ir assistir a um filme sangrento, cuja censura era dezessete anos, mesmo tendo s onze, e todo aquele sangue a deixar traumatizada. 
Ela tinha certeza de que no conseguiria dormir naquela noite, ento, seu pai inventou o Cornelius para ela se sentir melhor. Ele era apenas um cachorro - um poodle, 
eles inventaram, entretanto, algumas vezes, mudavam para um Boston terrier - forte o bastante para lutar numa arena. Ele bateu nos tigres, bateu nos gladiadores 
que tanto assustavam Hanna. Ele podia fazer qualquer coisa, inclusive ressuscitar os gladiadores mortos.
        Eles inventaram um personagem completo para Cornelius, definindo o que ele fazia nos dias de folga, que tipo de coleiras de espetos gostava de usar, e sobre 
como ele precisava de uma namorada. s vezes, Hanna e o pai falavam do Cornelius perto da me, e ela perguntava:
        - O qu? Quem?
        Mesmo eles tendo explicado a brincadeira a ela um milho de vezes. Quando Hanna pegou o cachorro, pensou em cham-lo de Cornelius, mas isso teria sido muito 
triste.
        O pai sentou no sof mais uma vez.
        - Eu sinto muito que as coisas sejam assim.
        Hanna fingiu estar interessada em sua unha francesinha.
        - Assim como?
        - Assim... com a gente. - Ele limpou a garganta. - Desculpe, eu no estive muito presente.
        Hanna revirou os olhos. Aquilo era melodrama demais para ela.
        - No tem importncia.
        O sr. Marin tamborilou os dedos na mesinha de centro. Era bvio que ele estava angustiado. timo.
        - Ento, por que voc roubaria o carro do pai do seu namorado, mesmo? Eu perguntei a sua me se ela sabia, mas ela disse no fazia a menor ideia.
        -  complicado - disse Hanna, depressa.
        Falando em ironia: assim que seus pais se divorciaram, Hanna tentou imaginar maneiras de faz-los conversar de novo, assim, eles se apaixonariam novamente 
- exatamente como as gmeas interpretadas por Lindsay Lohan em Operao Cupido haviam feito. Para que isso acontecesse, ela acabou tendo de ser presa algumas vezes.
        - Ah, vai - insistiu o sr. Marin. -Vocs tinham terminado? Voc estava chateada?
        - Acho que sim.
        - Foi ele quem terminou?
        Hanna engoliu em seco, sentindo-se um lixo.
        - Como voc sabe?
        - Se ele largou voc, talvez no esteja  sua altura.
        Hanna no acreditava no que o pai acabara de falar. Realmente no acreditava. Talvez tivesse ouvido errado. Talvez andasse ouvindo msicas em seu iPod alto 
demais.
        -Voc tem pensado na Alison? - perguntou o pai. 
        Hanna olhou para as prprias mos.
        - Eu acho que sim. Sim.
        -  inacreditvel.
        Hanna engoliu de novo. De repente, sentiu que ia chorar.
        - Eu sei.
        O sr. Marin se recostou. O sof fez um barulho estranho, como se ele tivesse soltado um pum.  uma coisa da qual o pai falaria a respeito anos atrs, mas, 
naquele momento, deixou pra l.
        -Voc sabe qual  a minha lembrana preferida da Alison?
        - Qual? - perguntou Hanna, baixinho.
        Ela rezou para ele no dizer: "Aquela vez que vocs duas foram para Annapolis e ela se deu to bem com a Kate,"
        - Era vero. Eu acho que vocs estavam indo para o stimo ano, ou algo assim. Eu levei voc e Alison para Avalon, para passar o dia. Voc se lembra?
        -Vagamente - respondeu Hanna. Ela se lembrava de ter comido um monte de bombons, de se sentir gorda de biquni, enquanto Ali parecia perfeitamente magra 
no seu e que um surfista a convidara para um luau, mas ela o mandou passear na ltima hora.
        - Ns estvamos sentados na praia; havia um menino e uma menina perto da gente. Vocs duas conheciam a menina da escola, mas no era algum com quem vocs 
normalmente saam. Ela tinha uma espcie de cantil amarrado nas costas, onde tomava gua por um canudo. Ali conversou com o irmo dela e a ignorou.
        De repente, Hanna lembrou perfeitamente. Era normal encontrar pessoas de Rosewood na praia Jersey - e aquela menina era Mona. O menino era o primo dela. 
Ali o achou bonitinho, ento foi l falar com ele. Mona ficou extasiada por Ali estar perto dela, mas tudo que Ali fez foi olhar para Mona e dizer:
        - Ei, meus porquinhos da ndia bebem gua de uma garrafa igual a essa.
        - Essa  a sua lembrana favorita? - quis saber Hanna. 
        Ela tinha bloqueado aquilo; e tinha certeza de que Mona fizera o mesmo.
        - Eu ainda no terminei - disse ele. -Alison caminhou para a beirada da praia com o menino, mas voc ficou para trs e conversou com a garota, que parecia 
arrasada porque a Alison tinha sado. Eu no sei o que voc disse, mas voc foi legal com ela. Eu fiquei muito orgulhoso de voc.
        Hanna franziu o nariz. Ela duvidava de que tivesse sido legal - provavelmente s no tinha sido muito m. Depois da Coisa com Jenna, Hanna j no curtia 
mais azucrinar os outros.
        -Voc sempre foi legal com todo mundo - falou o pai.
        - No, eu no era - discordou ela, baixinho.
        Ela se lembrou do que costumava falar sobre a Jenna: Voc no acredita nessa menina, pai, dizia ela. Ela tentou pegar o mesmo papel que a Ali queria no musical, 
e voc devia t-la ouvido cantar. Parecia uma vaca. Ou,Jenna Cavanaugh pode ter acertado todas as questes da prova de programas de sade e ter feito doze levantamentos 
de brao na academia para a prova do Presidential Fitness, mas, ainda assim,  uma perdedora.
        O pai sempre fora um bom ouvinte, desde que soubesse que ela no diria coisas maldosas na cara das pessoas. O que fizera com ele, uns dias depois do acidente 
de Jenna, quando estavam indo de carro para a loja, era muito mais devastador. Ele tinha se virado para ela e dito, assim, do nada: "Espera a. Aquela menina que 
ficou cega... ela  aquela que canta feito uma vaca, certo?" Ele olhou como se tivesse feito a ligao. Hanna, com muito medo de responder, fingiu um acesso de tosse 
e mudou de assunto.
        O pai levantou e dirigiu-se ao pequeno piano de cauda da sala. Ele levantou a tampa, e a poeira voou. Quando apertou uma tecla, saiu um sonzinho.
        - Eu imagino que sua me tenha contado que Isabel e eu vamos nos casar.
        O corao de Hanna bateu forte.
        - Sim, ela disse algo a respeito.
        - Ns estamos pensando em realizar a cerimnia no prximo vero, mas Kate no pode ir. Ela vai fazer um curso de vero na Espanha.
        Hanna se eriou ao ouvir o nome de Kate. Pobrezinha da nenezinha, tem que ir pra Espanha.
        - Ns gostaramos que voc fosse ao casamento tambm - acrescentou o pai. Como ela no respondeu, ele continuou falando. - Se voc puder. Eu sei que  um 
pouco esquisito. Se for, acho que deveramos conversar a respeito. Eu prefiro que voc fale comigo em vez de roubar carros.
        Hanna fungou. Como o pai se atreve a pensar que o fato de ela ter roubado um carro possa ter alguma coisa a ver com ele e seu estpido casamento! Mas, a, 
ela parou. Tinha a ver?
        -Vou pensar no assunto - disse ela.
        Seu pai passou as mos na beirada do piano.
        -Vou ficar na Filadlfia o fim de semana todo, e fiz reserva para jantarmos no Le Bec-Fin no prximo sbado.
        - Mesmo? - gritou Hanna, sem perceber. Le Bec-Fin era um famoso restaurante francs, no centro da cidade, ao qual ela queria ir havia muito tempo. As famlias 
de Spencer e Ali costumavam arrast-los para l, e eles reclamavam. Era esnobe, o cardpio no era nem em ingls e era cheio de velhinhas com casacos de pele horrorosos 
que, s vezes, ostentavam tambm a cabea do animal. Mas, para Hanna, Le Bec-Fin soava totalmente charmoso.
        - E reservei uma sute para voc no Four Seasons - continuou o pai. - Sei que voc deveria estar de castigo, mas sua me disse que tudo bem.
        - Mesmo? - Hanna bateu palmas. Ela adorava ficar em hotis chiques.
        - Tem piscina. - Ele sorriu, envergonhado. Hanna costumava ficar muito animada quando eles se hospedavam em hotis com piscina. -Voc poderia vir cedo no 
sbado, para dar uma nadada.
        De repente, Hanna ficou de queixo cado. Sbado era a... Foxy.
        - Pode ser no domingo?
        - Bem, no. Tem que ser sbado. 
        Hanna mordeu o lbio.
        - Ento eu no posso.
        - Por qu?
        -  s que... tem esse lance do baile.  tipo... importante. 
        O pai cruzou os dedos das mos.
        - Sua me deixar voc ir a um baile depois... depois do que voc fez? Eu achei que voc estivesse de castigo.
        Hanna estremeceu.
        - Eu comprei os ingressos h muito tempo. Foram caros.
        - Significaria muito pra mim se voc fosse - sussurrou ele. - Eu adoraria passar o final de semana com voc.
        Ele parecia realmente chateado. Parecia que ia chorar. Ela tambm queria passar o fim de semana com ele. Ele tinha se lembrado do seu cho de lava derretida, 
de como ela costumava falar do Le Bec-Fin e do quanto adorava hotis luxuosos com piscina. Ela imaginou se ele tambm tinha esse tipo de brincadeira com Kate. No 
queria que ele tivesse. Queria ser especial.
        - Eu acho que posso deixar a festa para l - respondeu ela afinal.
        - timo. - O pai voltou a sorrir.
        -  Pelo bem de Cornelius Maximilian - adicionou ela, lanando-lhe uma olhadela tmida.
        - Melhor ainda.
        Hanna observou o pai entrar no carro e seguir lentamente pela sada da garagem. Um sentimento clido e eletrizante tomou conta dela. Estava to feliz que 
nem pensou em pegar o saco de batatas fritas que havia jogado na despensa. Em vez disso, teve vontade de danar pela casa.
        Quando ouviu o BlackBerry tocando no andar de cima, voltou  realidade. Ela tinha de fazer tanta coisa. Tinha de dizer ao Sean que no iria  Foxy. Tinha 
de ligar pra Mona, tambm. Precisava arranjar um vestido fabuloso pra usar no Le Bec-Fin - talvez aquele curtinho, com cinto, que ainda no tinha tido oportunidade 
de usar?
        Ela correu escada acima, abriu o BlackBerry e franziu as sobrancelhas. Era uma mensagem.
        Quatro palavras simples:
        Hanna. Marin. Cegou. Jenna.
        O que o papai pensaria disso se soubesse?
        Eu estou de olho em voc, Hanna, e  melhor voc fazer o
        que eu digo. -A
18
CERQUE-SE  DE GENTE  NORMAL
E TALVEZ VOC SE TORNE  NORMAL
- Voc tem sorte de poder ir  Foxy de graa - disse a irm mais velha de Emily, Carolyn. -Voc realmente deveria aproveitar.
        Era sexta-feira de manh, e Emily e Carolyn estavam na entrada da garagem, esperando a me para lev-las para o treino de natao. Emily virou-se para a 
irm, passando a mo no cabelo. Como capit, ela ganhou ingressos grtis para a Foxy, mas era esquisito ir a uma festa logo depois do enterro da Ali.
        - Nem sei se eu vou. Eu nem tenho companhia. Ben e eu no estamos mais juntos, ento...
        -V com uma amiga. - Carolyn passou protetor labial em sua boca naturalmente rosada. -Topher e eu adoraramos ir, mas eu teria que gastar todo o meu salrio 
de bab em apenas um ingresso. Ento, em vez de ir ao baile, ns vamos assistir a um filme na casa dele.
        Emily deu uma olhada na irm. Carolyn estava no ltimo ano e parecia com Emily. Tinha cabelo loiro-avermelhado, ressecados por causa do cloro, sardas nas 
bochechas, clios clarinhos, e um corpo forte e compacto de nadadora. Quando Emily foi nomeada capit, ficou preocupada que Carolyn ficasse com cime - afinal, ela 
era mais velha. Mas Carolyn pareceu muito bem com tudo aquilo. Secretamente, Emily adoraria v-la enlouquecida por alguma coisa. Pelo menos uma vez.
        - Ah! - Carolyn se ouriou. - Eu vi uma foto sua muito engraada outro dia!
        O campo de viso de Emily se estreitou.
        - Foto? - repetiu ela grosseiramente. Pensou na foto trs por quatro que A havia anexado  mensagem da noite anterior. A tinha espalhado a foto. Estava comeando.
        - . Foi tirada na reunio da Tate ontem - relembrou-a Carolyn. -Voc parece... eu no sei... numa emboscada. Voc estava com uma expresso engraada no 
rosto.
        Emily piscou. A foto que o Scott tirou... com o Toby. Seus msculos relaxaram.
        - Ah - disse ela.
        - Emily?
        Emily olhou para cima e sentiu sua respirao parar por um segundo. Maya parou a alguns centmetros dela na rua, montada na sua mountain bike azul. Seu cabelo 
castanho-escuro estava preso para trs, e ela tinha dobrado as mangas da jaqueta jeans branca. Ela estava com olheiras. Era to estranho v-la numa hora daquelas, 
to cedo.
        - Ei - grasnou Emily. - E a, tudo bem?
        - Este foi o nico lugar em que realmente achei que poderia encontrar voc. - Maya apontou para a casa. -Voc no fala comigo, tipo, desde segunda-feira.
        Emily olhou para trs, por sobre o ombro, para Carolyn, que, naquele momento, estava revirando o bolso da frente de sua mochila roxa North Face. Ela pensou 
na mensagem de A novamente. Como A teria conseguido aquelas fotos? Ser que Maya estava com elas... ou seria outra pessoa?
        - Desculpe - disse Emily. Ela no sabia o que fazer com as mos, ento as colocou em cima da caixa do correio, que era uma miniatura da sua casa. - Eu estava 
meio ocupada.
        - , parece que foi isso.
        A amargura na voz da Maya fez os pelos da nuca de Emily se arrepiarem.
        - O-O que voc quer dizer com isso? - perguntou Emily. 
        Mas Maya apenas parecia impassvel e triste.
        - Eu... eu quero dizer que voc no me ligou de volta. 
        Emily puxou os cordes de seu gorro vermelho. 
        -Vamos at ali - murmurou ela, andando at os limites do terreno de sua casa, debaixo de um salgueiro choro. Tudo que ela queria era apenas privacidade. 
Assim, Carolyn no escutaria, mas, infelizmente, era meio sexy ficar embaixo dos galhos escondidos da rvore. A luz era verde-clara, e a pele de Maya parecia to... 
cheia de orvalho. Ela parecia uma fada da floresta. - Na verdade, eu quero te fazer uma pergunta - sussurrou Emily, tentando bloquear todos os pensamentos sobre 
fadas sexy. - Sabe aquelas fotos que tiramos na mquina automtica?
        - Ah. - Maya estava debruada to perto que Emily quase podia sentir as pontas do cabelo dela roando em sua bochecha. Parecia, de repente, que tinham aparecido 
bilhes de receptores nervosos e todos estavam aguados.
        - Algum as viu? - sussurrou Emily. 
        Maya demorou um minuto para responder. 
        -No...
        -Voc tem certeza?
        Maya ergueu a cabea, como um passarinho, e sorriu.
        -  Mas eu mostro pra todo mundo, se voc quiser... - Quando ela viu Emily se encolher, o jeito provocativo nos seus olhos esmoreceu. - Espere a.  por isso 
que voc est me evitando? Voc achou que eu realmente tinha mostrado aquelas fotos por a?
        - No sei - murmurou Emily, passando o p por uma das razes expostas do choro. Seu corao batendo to forte que ela tinha certeza de que estava quebrando 
algum recorde mundial.
        Maya estendeu a mo e tocou o queixo da Emily, levantando-o para que olhasse para ela.
        - Eu no faria isso. Eu queria ficar com elas para mim. 
        Emily puxou o queixo. Aquilo no podia acontecer bem no jardim da sua casa.
        -Tem mais uma coisa que voc deveria saber... Eu conheci uma pessoa.
        Maya levantou a cabea.
        - Quem?
        - O nome dele  Toby. Ele  muito legal. E... e eu acho que estou gostando dele.
        Maya piscou, sem acreditar, como se Emily tivesse contado a ela que estava apaixonada por uma cabra.
        -  E acho que vou convid-lo para a Foxy - continuou Emily.
        A ideia tinha acabado de ocorrer a Emily, mas pareceu boa. Ela gostava do fato de Toby no ser perfeito e nem tentar ser. E, se ela fizesse um esforo, podia 
quase esquecer do fato de ele ser meio-irmo da Jenna. E se levasse um garoto  Foxy, isso negaria as fotos da festa de Noel e provaria para todo mundo que ela no 
era homossexual.
        No ?
        Maya mordeu o lbio.
        - Mas a Foxy no  amanh? E se ele tiver outros planos? 
        Emily deu de ombros. Ela tinha certeza de que ele no teria.
        - E, de qualquer forma - continuou Maya -, eu achei que voc tivesse dito que a Foxy era muito cara.
        - Eu fui, hum, nomeada capit do time de natao. Ento, posso ir de graa.
        -  Vau - disse Maya, depois de um tempo. Parecia que Emily era capaz de sentir o cheiro da decepo de Maya, como se fosse um feromnio. Maya era a pessoa 
que vinha tentando faz-la largar a natao. - Bem, parabns, eu acho.
        Emily olhou para seus Vans cor de vinho.
        -  Obrigada - agradeceu ela, apesar de Maya no ter sido sincera. Sentia que Maya estava esperando que ela olhasse para cima e dissesse: Boba. Estou s brincando. 
Emily sentiu uma pontada de irritao. Por que Maya tinha de dificultar as coisas? Por que elas no podiam ser apenas amigas?
        Maya fungou alto e, ento, seguiu de volta ao jardim da casa, empurrando os galhos da rvore. Emily a seguiu apenas pra se dar conta de que sua me estava 
na porta da frente. O cabelo supercurto da sra. Fields estava duro e arrepiado, e ela estava com aquela cara de no mexa comigo, estou com muita pressa.
        Quando ela notou a presena de Maya, empalideceu.
        - Emily, temos que ir - grunhiu.
        - Claro que temos - retrucou Emily. No queria que a me tivesse visto aquilo. Ela se virou para Maya, que agora estava parada perto de sua bicicleta na 
calada.
        Maya a estava encarando.
        -Voc no pode mudar quem voc , Emily - disse Maya, em voz alta. - Espero que voc saiba disso.
        Emily sentiu a me e Carolyn olhando para ela.
        - Eu no sei do que voc est falando - gritou de volta, to alto quanto.
        - Emily, voc vai se atrasar - avisou a sra. Fields.
        Maya deu um olhar de despedida, depois, pedalou loucamente rua abaixo. Emily engoliu em seco. Ela tinha sentimentos ambguos. Por um lado, estava brava com 
Maya, por t-la confrontado - ali, no jardim de sua casa, na frente de Carolyn e de sua me. Por outro, sentia a mesma coisa de quando tinha onze anos e soltou o 
balo do Mickey Mouse que tinha implorado para seus pais comprarem na Disneylndia. Ela ficou olhado o balo flutuar no cu at que no estivesse mais visvel. Havia 
pensado nisso pelo resto da viagem at que sua me disse:  apenas um balo, querida! E a culpa  sua, que o soltou!
        Ela caminhou penosamente de volta ao Volvo e deixou Carolyn sentar na frente, sem brigar. Ao sarem da garagem, Emily olhou para Maya, que j se transformara 
num pontinho pequenino, l longe, e depois respirou fundo e colocou as mos atrs
do assento da me.
        - Sabe o que , me?Vou convidar um menino para o negcio de caridade amanh.
        -  Que negcio de caridade? - murmurou a sra. Fields, numa voz que dizia eu no estou satisfeita com voc agora.
        - A Foxy - anunciou Carolyn, mexendo no rdio. - O evento anual de que os jornais esto falando.  to famosa que umas meninas fizeram at cirurgia plstica 
para ir.
        A sra. Fields cerrou os lbios.
        - No sei ao certo se quero que voc v.
        - Mas eu vou de graa. Porque eu sou a capito
        - Voc tem que deix-la ir, me - suplicou Carolyn. -  to glamouroso.
        A sra. Fields deu uma olhada para Emily pelo espelho retrovisor.
        - Quem  o menino?
        - Bem, o nome dele  Toby. Ele estudava na nossa escola, mas agora est na Tate - explicou Emily, deixando de fora o que Toby tinha feito nos ltimos trs 
anos e por qu. Com sorte, a me no guardava todos os detalhes sobre os adolescentes de Rosewood da idade dela, como algumas faziam. Carolyn no parecia se lembrar 
do nome, tampouco. Carolyn nunca se lembrava de escndalos, nem mesmo dos deliciosos de Hollywood.
        - Ele  mesmo um doce, e tambm um timo nadador. Muito mais rpido que o Ben.
        - Aquele Ben era legal - murmurou a sra. Fields. 
        Emily rangeu os dentes.
        - Sim, mas o Toby  muito, muito mais legal.
        Ela tambm queria acrescentar No se preocupe, ele  branco, mas no teve coragem.
        Carolyn virou-se no assento.
        -  o menino que vi na sua foto?
        - Sim - respondeu Emily, baixinho. 
        Carolyn virou-se para a me.
        - Ele  bom. Ele bateu o Topher nos duzentos livres. 
        A sra. Fields deu um sorrisinho para Emily.
        - Voc deveria estar de castigo, mas, depois de tudo que aconteceu esta semana, acho que pode ir. Mas sem cirurgia plstica.
        Emily franziu o cenho. Era o tipo de coisa ridcula, muito alm da conta, com o que sua me se preocuparia. No ano anterior, a sra. Fields tinha visto um 
programa de TV sobre cristais de anfetamina e como eles estavam em todos os lugares, at mesmo em escolas particulares, e baniu diversos remdios inofensivos da 
casas deles, como se Emily e Carolyn fossem abrir um minilaboratrio de metanfetamina em seus quartos. Emily soltou uma meia risada.
        - No vou fazer.
        Mas a sra. Fields comeou a rir sozinha e olhou para Emily pelo espelho.
        - Eu estou brincando. - Ela acenou com a cabea para a imagem da Maya desaparecendo, j no lado oposto da rua delas, e acrescentou: -  bom ver voc fazendo 
novos amigos.
19
CUIDADO COM AS GAROTAS
COM  FERROS  DE  MARCAR
O Estdio de ioga Montanhas de Morango ficava num celeiro adaptado, do outro lado de Rosewood. Na sua ida at l, de bicicleta, Aria passou por uma ponte coberta, 
cor de tabaco, e pela fileira de casas do departamento de artes de Holli. Eram casinhas decrpitas, em estilo colonial, estavam salpicadas com tinta de vrios tons 
de roxo, rosa e azul. Ela colocou a bicicleta no suporte, que j estava quase lotado, em frente ao estdio de ioga; todas as bicicletas ostentavam adesivos nos quais 
se lia CARNE  ASSASSINATO e PETA colados em seus quadros.
        Ela parou no saguo de entrada do estdio de ioga e olhou para as meninas desarrumadas, sem maquiagem, e para os meninos peludos e flexveis. Ela seria louca 
de seguir as instrues de A - Estdio de ioga Montanhas dos Morangos. Esteja l - literalmente? E estaria pronta pra ver Meredith? Talvez A a estivesse fazendo 
de isca. Talvez A estivesse ali.
        Aria tinha visto Meredith apenas trs vezes: primeiro, quando Meredith foi ao coquetel de professores e alunos de seu pai; depois, quando pegou Meredith 
e o pai juntos no carro; e, finalmente, no outro dia, na Victory. Mas ela a reconheceria em qualquer lugar. Naquele exato momento, Meredith estava parada em frente 
ao armrio do estdio, arrastando colches, cobertores, blocos e fitas. Seu cabelo castanho estava preso num rabo de cavalo bagunado, e havia aquela teia de aranha 
tatuada do lado de dentro do pulso.
        Meredith notou a presena de Aria e sorriu.
        -Voc  nova, certo? - Ela olhou nos olhos de Aria e, por um terrvel momento, Aria teve certeza de que Meredith sabia quem ela era. Mas a ela desviou o 
olhar, debruando-se para pegar um CD dentro de um aparelho de som porttil. O som de uma ctara indiana tomou conta do lugar.-Voc j fez Ashtanga antes?
        - Hum, sim - respondeu Aria. Ela notou uma grande placa na mesa, que dizia: AULA INDIVIDUAL US$15, e pegou uma nota de dez e uma de cinco, e as colocou em 
cima da mesa, pensando em como A poderia saber que Meredith estaria l, e se A realmente estaria l.
        - E eu acho que voc j conhece o segredo, hein? - Meredith sorriu.
        - Co... como ? - sussurrou Aria, seu corao disparado. - Segredo?
        - Voc trouxe seu prprio colcho. - Meredith apontou para o colcho vermelho debaixo do brao de Aria. - Muitas pessoas usam os colches do estdio. Eu 
no digo nada, mas voc pode raspar os fungos de p dos nossos colches e fazer queijo.
        Aria tentou sorrir. Ela tinha trazido seu prprio colcho para as aulas de ioga desde que tinha ido pela primeira vez a uma com a Ali, no stimo ano. Ali 
dizia que voc corria o risco de pegar uma DST nos colches das comunidades de ioga.
        Meredith olhou para ela com mais ateno.
        -Voc  da minha turma de desenho?
        Aria fez que no, percebendo, repentinamente, que o lugar cheirava a uma mistura de chul e incenso. Este era o tipo de estdio a que Ella iria. De fato, 
talvez Ella j tivesse ido.
        - Qual  o seu nome?
        - ... Alison - disse Aria depressa. Ela no tinha o nome mais comum do mundo e ficou com medo de Byron j t-lo mencionado para Meredith. Esse pensamento 
a fez parar. Ser que Byron falava dela para Meredith?
        -Voc se parece com uma menina da minha turma de desenho - disse Meredith. - Mas as aulas mal comearam e eu confundo todo mundo.
        Aria pegou um panfleto do seminrio "Conhea seus chacras".
        - Ento, voc faz faculdade? 
        Meredith confirmou.
        - Estou fazendo MBA.
                - Qual  a sua, hum, rea?
- Bem, eu fao todo tipo de coisa. Pintura, desenho. - Meredith olhou para algum entrando atrs da Aria e acenou. - Mas, recentemente, comecei a trabalhar com marcao.
        - O qu?
        - Marcao. Eu soldo dois ferros de marcao, feitos sob encomenda para formar palavras, a eu os aqueo e queimo as palavras em grandes blocos de madeira.
        - Como se fossem marcas de gado? 
        Meredith abaixou a cabea.
        - Eu tento explicar isso, mas a maioria das pessoas acha que sou louca.
        - No - disse Aria, rapidamente. -  muito legal. 
        Meredith deu uma olhada no relgio da parede.
        - Ns temos alguns minutos. Eu posso te mostrar umas fotos. - Ela pegou uma bolsa de pano listrada, que estava perto dela, e tirou seu telefone celular de 
dentro. -Vai olhando estas aqui...
        As fotos eram de blocos de madeira clara. Alguns com apenas algumas letras e outros com coisas curtas escritas, tais como vem me pegar e manipulador. As 
letras tinham um formato um pouco estranho, mas ficavam muito legais queimadas na madeira. Aria mudou para a foto seguinte. Era um bloco mais longo que dizia: Errar 
 humano, mas parece divino.
        Aria olhou para cima e disse:
        - Mae West.
        Meredith pareceu animar-se:
        - Uma das minhas frases favoritas.
        - Uma das minhas tambm. - Aria devolveu o celular dela. - So muito legais.
        Meredith sorriu.
        - Fico feliz que tenha gostado. Eu devo fazer uma exposio em alguns meses.
        - Eu est... -Aria fechou a boca. Ela ia dizer: estou admirada. Ela no esperava que Meredith fosse assim. Quando Aria imaginava Meredith, apenas atributos 
ruins vinham a sua cabea. A Meredith imaginria nmero um estudava histria da arte e trabalhava em uma galeria abarrotada e sem graa, em algum lugar da Main Line, 
vendendo paisagens da Escola Hudson River para senhoras ricas. A Meredith imaginria nmero dois ouvia Kelly Clarkson, amava Laguna Beach e, se a incentivassem, 
levantaria a camiseta para ficar como uma das Garotas Selvagens. Aria nunca pensaria que ela fosse do campo das artes. Por que Byron precisaria de uma artista? Ele 
tinha Ella.
        Quando Meredith cumprimentou outro aluno de ioga,Aria foi para a sala principal do estdio, que tinha teto alto, deixando expostas as vigas de madeira do 
celeiro, tinha piso de madeira caramelo brilhante e grandes tecidos com estampas indianas pendurados por todo lado. A maioria das pessoas j tinha sentado em seus 
colches e estava se deitando de costas. Estava estranhamente silencioso.
        Aria olhou em volta. Uma garota de rabo de cavalo e coxas grandes estava se dobrando para trs. Um cara esguio mudou da pose do cachorro para a pose da criana, 
respirando com dificuldade pelo nariz. No canto, uma menina loira fazia uma toro sentada. Quando ela olhou para a frente, seu queixo caiu.
        - Spencer? - perguntou.
        Spencer empalideceu e ajoelhou-se.
        - Ah - disse ela. - Aria. Oi. 
        Aria engoliu em seco.
        - O que voc est fazendo aqui? - Spencer olhou para ela confusa.
        - Ioga?
        - No, eu sei disso, mas... -Aria balanou a cabea. - Quer dizer, algum falou pra voc vir aqui, ou...?
        - No... - Spencer estreitou os olhos, como quem suspeitava de algo. - Espera a. a que voc quer dizer?
        Aria piscou. Imaginando quem sou eu? Estou mais perto do que imagina.
        Ela olhou de Spencer para Meredith, que estava conversando com algum no saguo, depois de volta para Spencer. Sua cabea comeou a funcionar, rodando. Alguma 
coisa naquela histria estava muito, muito errada.
        Seu corao disparava enquanto ela saa da sala principal. Ela correu para a porta, trombando com um cara alto, barbudo, que usava um macaco. Do lado de 
fora, o mundo no estava nem a para o seu pnico - os passarinhos cantavam, os pinheiros balanavam, uma mulher caminhava com um carrinho de beb, falando ao celular.
        Quando Aria correu em direo ao suporte onde estava sua bicicleta e a destravou, sentiu a mo de algum apertar seu brao com fora. Meredith estava parada 
perto dela, lanando-lhe um olhar penetrante. Aria ficou boquiaberta. Ela engoliu em seco.
        -Voc no vai ficar? - perguntou Meredith.
        Aria fez que no com a cabea.
        - Eu... hum... emergncia familiar. - Ela chacoalhou a bicicleta para solt-la e pedalou em direo a sua casa.
        - Espere! - gritou Meredith. - Deixe-me devolver o seu dinheiro!
        Mas Aria j estava na metade do quarteiro.
20
ALIS,  LAISSEZ-FAIRE
SIGNIFICA "TIRE AS  MOS DE  MIM"
Sexta-feira, na aula de economia, Andrew Campbell se inclinou do outro lado do corredor e deu um tapinha no caderno de Spencer.
        - Ento, no consigo me lembrar. Limusine ou carro, para ir  Foxy?
        Spencer rolou a caneta entre os dedos.
        - Hum, carro, eu acho.
        Era uma pergunta difcil. Normalmente, como a manaca por festas que era, Spencer sempre insistia em ir de limusine. E ela queria que sua famlia pensasse 
que estava levando o encontro do dia seguinte com Andrew a srio. S que ela estava to cansada. Ter um namorado novo era maravilhoso, mas era difcil tentar v-lo 
e continuar sendo a aluna mais ambiciosa de Rosewood Day. Na noite anterior, ela ficara acordada at as duas e meia da manh, fazendo as lies de casa. Havia adormecido 
naquela manh, durante a aula de ioga - depois de Aria sair correndo daquele jeito bizarro. Talvez Spencer devesse ter mencionado a mensagem de A, mas Aria correu 
antes que ela tivesse a chance. E havia adormecido de novo na sala de estudos. Ser que deveria ir at a enfermaria e dormir um pouco na maca?
        Andrew no teve tempo de fazer nenhuma outra pergunta. O sr. McAdam havia desistido da batalha contra o retroprojetor - aquilo acontecia toda aula - e estava 
em p diante do quadro.
        - Estou ansioso para ler os trabalhos de todos na segunda-feira - gritou ele. - E tenho uma surpresa. Se vocs enviarem os trabalhos para mim por e-mail 
at amanh, vo ganhar cinco pontos como recompensa por terem comeado cedo.
        Spencer piscou, confusa. Ela apanhou seu Sidekick e checou a data. Desde quando j era sexta-feira? Ela olhou a agenda de segunda. L estava. Entrega do 
trabalho de economia.
        Ela no tinha comeado o trabalho. Ela sequer pensara no trabalho. Depois do fiasco com o carto de crdito na tera-feira, Spencer tinha pensado em pegar 
emprestados os livros suplementares de McAdam na biblioteca. Mas ento rolou aquele lance com Wren, e a nota B- j no importava tanto. Nada importava.
        Ela havia passado a noite de quarta-feira na casa de Wren. No dia anterior, depois de ir  escola, aps a terceira aula, ela matou o treino de hquei e foi 
para a Filadlfia de novo, dessa vez de transporte pblico, em vez de dirigindo, porque achou que seria mais rpido. S que... o trem ficou parado. Quando ela chegou 
 estao da rua Treze, s tinha 45 minutos antes de ter que voltar para casa para o jantar. Ento, Wren foi at l para encontr-la, e os dois ficaram em um banco 
escondido, atrs do balco de flores da plataforma, emergindo corados pelos beijos e cheirando a lilases.
        Ela percebeu que a traduo dos dez primeiros cantos do Inferno, para a aula de Italiano VI, tambm era para segunda-feira. E ainda havia um trabalho de 
trs pginas sobre Plato, para a aula de literatura. Uma prova de clculo. As audies para conseguir papis em A Tempestade, a primeira pea do ano em Rosewood 
Day, eram na segunda-feira. Ela deitou a cabea sobre a mesa.
        - Srta. Hastings?
        Assustada, Spencer olhou para cima. O sinal tinha tocado, todos j haviam sado, e ela estava sozinha. Lula Molusco estava em p, ao seu lado.
        - Desculpe acord-la - disse ele, num tom glacial.
        - No... eu no estava... - gaguejou Spencer, juntando suas coisas. Mas era tarde demais. Lula Molusco j estava apagando as anotaes no quadro. Ela percebeu 
que ele sacudia a cabea lentamente, como se dissesse que ela no tinha jeito.
-Tudo bem - sussurrou Spencer. Ela estava sentada na frente do computador, com livros e papis espalhados ao seu redor. Lentamente, repetiu a primeira questo novamente.
        Explique o conceito de Adam Smith sobre a "mo invisvel" na economia laissez-faire, e d um exemplo atual.
        Tuuuudo beeeem.
        Normalmente, Spencer j teria lido o trabalho de economia e o livro de Adam Smith, marcado as pginas mais importantes e feito um rascunho da resposta. Mas 
ela ainda no tinha feito nada disso. Ela no fazia a menor ideia do que laissez-faire significava. Tinha algo a ver com oferta e procura? O que havia de invisvel 
naquilo? Ela digitou algumas palavras na Wikipdia, mas as teorias eram complexas e nada familiares, assim como as anotaes das aulas; no se lembrava de t-las 
escrito.
        Ela tinha estudado como uma louca por onze longos e difceis anos - doze, se contasse a creche montessoriana antes do jardim de infncia. Ser que, s daquela 
vez, ela no podia fazer um trabalho estpido, tirar um B-, e compensar a nota baixa mais tarde no semestre?
        Mas as notas eram mais importantes do que nunca. No dia anterior, quando ela e Wren se separaram na estao de trem, ele sugeriu que ela se formasse no final 
do ano e tentasse uma vaga na Universidade da Pensilvnia. Spencer imediatamente gostara da ideia e, nos poucos minutos antes de seu trem chegar, eles haviam fantasiado 
sobre o apartamento que dividiriam, sobre os cantos separados da sala para estudar e sobre o gato que comprariam -Wren nunca tivera um quando era mais novo porque 
o irmo era alrgico.
        A ideia havia florescido na mente de Spencer durante a viagem de volta para casa, e, logo que chegou em seu quarto, checou se tinha crditos suficientes 
para se formar em Rosewood, e fez o download de um formulrio de matrcula para a Universidade da Pensilvnia. Seria meio complicado, j que Melissa tambm estudava 
l, mas era uma universidade grande e Spencer imaginou que elas nunca se encontrariam.
        Ela suspirou e olhou para o Sidekick.Wren havia dito a ela que ligaria mais tarde, entre cinco e seis horas, e j eram seis e meia. Spencer ficava aborrecida 
quando as pessoas no faziam o que prometiam. Ela examinou o registro de chamadas perdidas, para ver se o nmero dele estava l. Ento acessou a caixa de mensagens 
de voz para ver se o celular estava com problemas de recepo. Nenhuma mensagem nova.
        Finalmente, tentou ligar para o nmero de Wren. Caixa postal, de novo. Spencer atirou o telefone na cama e examinou o questionrio novamente. Adam Smith. 
Laissez-faire. Mos invisveis. Mos grandes, fortes, de mdico, britnicas. Por todo o corpo dela.
        Ela lutou contra a tentao de ligar para Wren de novo. Parecia coisa de menininha - desde que Wren comentara sobre Spencer parecer to madura, ela comeara 
a questionar cada uma de suas aes. O toque de seu celular era"My Humps", do Black Eyed Peas; ser que Wren considerava aquilo irnico, como ela, ou simplesmente 
adolescente? E quanto ao chaveiro da sorte, um macaquinho de pelcia que ela usava pendurado  bolsa da escola? E ser que uma garota mais velha teria hesitado quando 
Wren apanhara uma nica tulipa do quiosque de flores, sem pagar, quando o florista no estava olhando, e a oferecera a Spencer, com medo de que eles fossem se meter 
em encrenca?
        O sol comeou a desaparecer por detrs das rvores. Quando o pai enfiou a cabea pela porta do quarto, Spencer deu um pulo.
        - Ns j vamos jantar - informou ele. - Melissa no vem comer conosco hoje.
        -Tudo bem - respondeu Spencer. Aquelas eram as primeiras palavras no hostis que ele lhe dirigia em dias.
        A luz se refletia no Rolex de platina de seu pai. O rosto dele parecia quase... arrependido.
        - Eu comprei alguns daqueles rolinhos de canela de que voc gosta.Vou esquent-los.
        Spencer piscou. Logo que ele disse aquilo, ela sentiu o cheiro que vinha do forno. O pai sabia que os rolinhos de canela da Padaria Struble eram a comida 
que Spencer mais amava no mundo. A padaria ficava perto de seu escritrio de advocacia, e ele raramente tinha tempo de ir at l. Aquilo era claramente uma oferta 
de paz.
        - Melissa nos disse que voc vai com algum  Foxy - disse o pai. -  algum que conhecemos?
        - Andrew Campbell - respondeu Spencer.
        O sr. Hastings levantou uma das sobrancelhas.
        - Andrew Campbell, o representante da classe?
        - . - Aquele era um assunto delicado. Andrew a havia derrotado na disputa pelo cargo; os pais dela tinham ficado arrasados com o fato de ela ter perdido. 
Afinal, Melissa fora representante de classe.                                                      ,
        O sr. Hastings pareceu satisfeito. Ento, abaixou os olhos.
        - Bem,  bom que voc esteja... quero dizer, estou feliz por esse problema ter se resolvido.
        Spencer esperava que suas bochechas no estivessem vermelhas.
        - Hum... o que mame acha? 
        O pai deu um sorrisinho.
        - Ela vai se acostumar com a ideia. - Ele deu umas pancadinhas na porta, e saiu andando pelo corredor. Spencer se sentiu culpada e esquisita. Os rolinhos 
de canela assando l embaixo cheiravam como se estivessem quase queimando.
        Seu telefone celular tocou, assustando-a. Ela pulou para apanh-lo.
        - Oi, voc. -Wren parecia feliz e entusiasmado quando ela atendeu, o que a irritou imediatamente.-Tudo bem?
        - Por onde voc esteve? - perguntou Spencer. 
        Wren fez uma pausa.
        - Eu e alguns amigos da faculdade estamos matando tempo antes do trabalho hoje.
        - Por que voc no ligou antes? 
        Wren fez outra pausa.
        - Tinha muito barulho no bar. - A voz dele parecia distante, irritada.
        Spencer cerrou os punhos.
        - Desculpe - disse ela. -Acho que estou um pouco estressada.
        -  Spencer Hastings, estressada? - Ela podia apostar que Wren estava sorrindo. - Por qu?
        - Trabalho de economia - suspirou ela. -  um negcio impossvel.
        - Eca - fez Wren. - Esquea isso. Venha me encontrar.
        Spencer fez uma pausa. As anotaes dela estavam espalhadas pela mesa. No cho, estava o teste da semana. O B- parecia um sinal de luz fluorescente.
        - No posso.
        - Tudo bem - grunhiu Wren. - Amanh, ento? Posso ter voc s pra mim o dia inteiro?
        Spencer mordeu o interior da bochecha.
        - Tambm no posso amanh. Eu... eu tenho de ir a uma festa beneficente. Com um garoto da escola.
        - Um encontro?
        - Na verdade, no.
        - Por que voc no me convidou? 
        Spencer franziu a testa.
        - No  como se eu gostasse dele. Ele  s um garoto da escola. Mas... eu quero dizer... eu no vou se voc no quiser que eu v.
        Wren riu.
        - Eu s estou te provocando. V para a sua festa de caridade. Divirta-se. Ns podemos ficar juntos no domingo.
        Ento, ele disse que tinha de ir, pois precisava comear o planto no hospital.
        - Boa sorte com seu trabalho - completou ele. - Tenho certeza de que voc vai se dar bem.
        Spencer olhou melancolicamente para a mensagem CHAMADA ENCERRADA, no display do celular. A conversa tinha durado um minuto e quarenta e seis segundos.
        -  claro que eu me daria bem - sussurrou ela para o telefone. Talvez com uma semana de extenso de prazo.
        Ao passar pelo computador, ela percebeu que havia um novo e-mail na caixa de entrada. Havia chegado uns cinco minutos antes, enquanto ela estava conversando 
com o pai.
        Quer tirar um A fcil? Acho que voc sabe onde achar. -A
        O estmago de Spencer deu um n. Ela olhou pela janela, mas no havia ningum no jardim. Ento, ps a cabea para fora, para verificar se no haviam instalado 
uma cmera de vigilncia ou um minimicrofone. Mas tudo o que viu foi o exterior de pedra marrom-esverdeada de sua casa.
        Melissa arquivava os documentos da escola no computador da famlia. Ela era to perfeccionista quanto Spencer e salvava tudo. Spencer nem sequer teria de 
pedir permisso a Melissa para acessar os documentos - eles estavam na pasta compartilhada.
        Mas como A poderia saber disso?
        Era tentador. S que... no. De qualquer forma, Spencer duvidava que A quisesse ajud-la. Ser que aquilo era uma armadilha elaborada? Ser que A era Melissa?
        - Spencer? - chamou a me do andar de baixo. - Venha jantar!
        Spencer minimizou o e-mail e caminhou distraidamente para a porta. O negcio era que, se usasse o trabalho de Melissa, ela teria tempo para terminar o resto 
das lies e ver Wren. Ela podia mudar algumas palavras... usar o dicionrio... Jamais faria aquilo novamente.
        O computador fez outro bipe e ela se virou.
        PS: Voc me magoou, e eu vou magoar voc. Ou, talvez, 
        eu deva magoar certo novo namorado, em vez disso?  
        melhor tomarem cuidado - vou aparecer quando vocs 
        menos esperarem. -A
21
UM ADMIRADOR SECRETO  E TANTO...
Na sexta-feira  tarde, Hanna estava sentada na arquibancada da quadra de futebol, assistindo  equipe masculina da Rosewood Day dar uma surra na Lansing Prep. S 
que ela no estava conseguindo se concentrar de verdade. Suas unhas, normalmente bem-feitas, estavam rodas, a pele dos polegares estava sangrando de tanto que ela 
a mordia, e seus olhos estavam to vermelhos devido  falta de horas de sono que ela parecia estar com conjuntivite.
        Estou de olho em voc, A havia dito.  melhor voc jazer o que eu digo.
        Mas talvez as coisas fossem mesmo como os polticos dizem a respeito de ataques terroristas: se voc se esconder em casa, com medo deles,  sinal de que 
os terroristas venceram. Ela ficaria ali assistindo ao futebol, como havia feito durante todo o ano, e no ano anterior.
        Mas ento Hanna olhou em volta. A ideia de que algum realmente soubesse sobre A Coisa com Jenna - e de que estivesse disposto a colocar a culpa nela -, 
a aterrorizava. E se A realmente contasse a seu pai? No agora. Justo quando as coisas pareciam estar melhorando.
        Ela esticou o pescoo em direo ao ptio pela milionsima vez, procurando por Mona.Assistir aos jogos dos meninos era uma pequena tradio Hanna-Mona; elas 
misturavam usque com o refrigerante da cantina e gritavam insultos para o time adversrio. Mas Mona havia sumido. Desde a estranha briga que tiveram no shopping 
no dia anterior, Hanna e Mona no haviam se falado.
        Hanna viu pelo canto do olho um rabo de cavalo loiro e uma trana ruiva, e se encolheu. Riley e Naomi haviam chegado e subido a arquibancada at um local 
no muito distante de Hanna. Naquele dia, ambas as meninas carregavam bolsas Chanel combinando e vestiam casacos de tweed que eram obviamente novos em folha, como 
se fosse um dia frio de inverno, apesar de estar fazendo 23 graus. Quando elas olharam na direo de Hanna, ela rapidamente fingiu estar fascinada pelo jogo, ainda 
que no tivesse a menor ideia do placar.
        - Hanna fica gorda com aquela roupa. - Ela ouviu Riley sussurrar.
        Hanna sentiu as bochechas esquentando. Ela olhou para o modo como seu top de algodo se esticava levemente sobre seu estmago. Ela, provavelmente, estava 
engordando por causa do exagero na comida durante aquela semana, por puro nervosismo. O problema  que estava realmente tentando resistir  tentao de vomitar - 
embora fosse exatamente o que queria fazer naquele momento.
        As equipes se dispersaram para o intervalo, e os garotos da Rosewood Day foram para o banco. Sean se jogou na grama e comeou a massagear a panturrilha. 
Hanna viu naquilo uma chance e desceu os degraus metlicos da arquibancada. No dia anterior, depois que A lhe mandara a mensagem, ela no havia ligado para Sean 
para dizer a ele que no iria  Foxy. Ela tinha ficado muito chocada.
        - Hanna - disse Sean ao v-la de p perto dele. - Oi. - Ele estava lindo naquele dia, como sempre, apesar da camiseta manchada de suor e do rosto mal barbeado. 
- Como voc est?
        Hanna sentou-se perto dele, dobrando as pernas sob o corpo e arrumando a saia do uniforme, para evitar que todos os jogadores vissem sua calcinha.
        - Eu estou... - Ela engoliu em seco, tentando no cair no choro. Perdendo a cabea. Sendo torturada por A. - Ento... ... olha s. - Ela apertou as mos. 
- Eu no vou  Foxy.
        - Srio? - Sean inclinou a cabea. - Por que no? Voc est bem?
        Hanna passou as mos no gramado recm-aparado que tinha um cheiro doce. Ela havia contado a Sean a mesma histria que contara a Mona - que seu pai tinha 
morrido.
        - ... complicado. Mas achei que deveria te contar.
        Sean abriu o fecho de velcro em sua caneleira e em seguida apertou-o novamente. Por um breve segundo, Hanna teve uma viso de suas panturrilhas perfeitas 
e musculosas. Por algum motivo, ela achou que eram a parte mais sensual do corpo dele.
        - Ento talvez eu tambm no v - disse ele.
        - Srio? - perguntou ela, espantada. 
        Sean deu de ombros.
        - Todos os meus amigos vo acompanhados. Eu vou ser o peixe fora d'gua.
        - Oh. - Hanna moveu as pernas para que o tcnico de futebol, que estava olhando fixamente para sua prancheta, pudesse passar. Ela tentou no estapear a si 
mesma. Ser que Sean havia pensado nela como par para a festa?
        Sean protegeu os olhos do sol usando uma das mos e olhou para ela.
        -Voc est bem? Voc parece... triste.
        Hanna colocou as mos sobre os joelhos  mostra. Ela precisava conversar com algum sobre A. S que no havia como fazer isso.
        - S estou cansada. - Ela suspirou. 
        Sean tocou o pulso de Hanna, de leve.
        - Oua. Talvez ns possamos sair pra jantar na semana que vem. Eu no sei... Ns, provavelmente, precisamos conversar.
        O corao de Hanna deu um pequeno pulo.
        - Claro. Parece legal.
        - timo. - Sean sorriu e se levantou. -Te vejo em breve, ento.
        A banda comeou a tocar o hino de Rosewood Day, anunciando que o intervalo havia terminado. Hanna subiu novamente at o topo da arquibancada, sentindo-se 
um pouco melhor. Quando voltou ao seu assento, Riley e Naomi estavam olhando para ela, com curiosidade.
        -  Hanna! - gritou Naomi, quando Hanna olhou para ela. - Ei!
        -  Oi. - Hanna se esforou ao mximo para abrir um sorriso.
        -Voc estava conversando com o Sean? - Naomi passou a mo pelo rabo de cavalo loiro. - Eu pensei que vocs dois tinham terminado mal.
        - No terminamos mal - corrigiu Hanna. - Ainda somos amigos... ou sei l o qu.
        Riley deu uma risadinha.
        - E foi voc quem terminou com ele, certo?
        O estmago de Hanna se contraiu. Ser que algum tinha dito alguma coisa? 
        -Foi. 
        Naomi e Riley trocaram um olhar.
        - Ento - perguntou Naomi -, voc vai  Foxy?
        - Na verdade, no - disse Hanna, rspida. -Vou me encontrar com o meu pai no Le Bec-Fin.
        - Ooh. - Naomi franziu a testa. - Eu ouvi falar que o Le Bec-Fin  o lugar onde as pessoas vo quando no querem ser vistas.
        - No, no . - O calor subiu s faces de Hanna. -  o melhor restaurante da Filadlfia. - Ela comeou a entrar em pnico. Ser que o Le Bec-Fin havia mudado?
        Naomi deu de ombros com o rosto impassivo.
        - Foi s o que eu ouvi.
        - . - Riley arregalou os olhos castanhos. -Todo mundo sabe disso.
        De repente, Hanna notou um pedao de papel perto dela, na arquibancada. Estava dobrado na forma de um avio, e preso com uma pedra para que no fosse levado 
pelo vento.
        - O que  isso? - perguntou Naomi. - Origami? 
        Hanna desdobrou o aviozinho e o virou.
        Oi de novo, Hanna! Quero que voc leia para Naomi e Riley 
        as frases abaixo, exatamente como esto escritas. Sem 
        trapaas! E se voc no fizer isso, todos vo saber a ver-
        dade sobre voc-sabe-o-qu. E isso inclui papai.  -A
        Hanna olhou estupefata para o pargrafo logo abaixo, escrito em uma caligrafia arredondada e desconhecida.
        - No - sussurrou ela, o corao comeando a martelar. O que A havia escrito iria arruinar sua reputao perfeita para sempre:
        Eu tentei seduzir Sean na festa do Noel, mas ele terminou 
        comigo. E, a propsito, eu provoco o vmito pelo menos 
        trs vezes por dia.
        - Hanna, voc recebeu uma carta de amooooor? - cantarolou Naomi. -  de um admirador secreto?
        Hanna olhou para Naomi e Riley em suas saias plissadas e saltos plataforma. As duas a olhavam como lobos, como se pudessem sentir o cheiro da fraqueza dela.
        -Vocs viram quem colocou isto aqui? - perguntou Hanna, mas elas olharam para ela de maneira inexpressiva, e deram de ombros.
        Ento, ela olhou ao redor da arquibancada de futebol, para cada grupo de garotos, para cada pai ou me, at mesmo para o motorista do nibus da Lansing no 
estacionamento, que estava apoiado contra o veculo, fumando um cigarro. Quem quer que estivesse fazendo aquilo, tinha de estar ali, certo? A pessoa tinha de saber 
que Riley e Naomi estavam sentadas perto dela.
        Ela olhou para a mensagem novamente. No podia repetir aquilo para elas. De jeito nenhum.
        Mas ento ela pensou na ltima vez em que seu pai perguntara sobre o acidente de Jenna. Ele havia se sentado na cama dela e passou um longo tempo olhando 
para o polvo de tric que Aria lhe dera de presente.
        - Hanna - disse ele, finalmente. - Eu estou preocupado com voc. Jure para mim que vocs no estavam brincando com fogos de artifcio na noite em que aquela 
menina ficou cega.
        - Eu... eu no toquei nos fogos - sussurrou Hanna. No era mentira.
        L embaixo, no campo de futebol, dois garotos da Lansing estavam se cumprimentando. Em algum lugar, debaixo da arquibancada, algum acendeu um baseado; o 
cheiro doce, de mato, subiu at as narinas de Hanna. Ela amassou o pedao de papel, levantou-se, e, com o estmago contrado, andou at Naomi e Riley. As duas olharam 
para ela, parecendo se divertir. A boca de Riley estava aberta. Seu hlito, Hanna percebeu, cheirava mal, como o de algum que fazia a dieta do dr. Atkins.
        - EutenteiseduziroSeannafestadoNoelmaseleterminoucomigo - balbuciou Hanna. Ela respirou fundo. Aquilo nem mesmo era verdade, mas que se dane. - Eeuprovocoovmitotrs-vezesp



ordia.
        As palavras saram de forma misturada e incompreensvel, e Hanna se virou bruscamente.
        - O que ela disse? - Ela ouviu Riley murmurar, mas, certamente, no iria se virar de novo e esclarecer as coisas.
        Ela desceu a arquibancada depressa, desviando da me de algum, que estava carregando uma bandeja frgil com copos de Coca-Cola e pipocas. Ela procurou por 
algum - qualquer pessoa - que pudesse estar olhando de volta. Mas nada. Ningum estava rindo ou cochichando. Todos estavam apenas assistindo aos garotos da equipe 
de futebol da Rosewood Day avanando em direo ao gol da Lansing.
        Mas A tinha de estar ali. A tinha de estar observando.
22
VOC NO  CAPAZ DE 
SUPORTAR A VERDADE
Na sexta-feira  noite, Aria desligou o rdio de seu quarto. Durante a ltima hora, o DJ local havia falado sem parar sobre a Foxy. Ele fazia a Foxy parecer um lanamento 
de nave espacial ou uma posse presidencial, em vez de apenas uma festa beneficente idiota.
        Ela ouviu o som dos passos dos pais caminhando pela cozinha. No havia a cacofonia normal - NPR no rdio, CNN ou PBS na TV da cozinha, nem um CD de msica 
clssica ou jazz experimental no som. Tudo o que Aria podia ouvir eram panelas e potes batendo. Ento, um barulho de algo caindo.
        - Desculpe - disse Ella, seca.
        - Tudo bem - retrucou Byron.
        Aria voltou-se para o laptop, sentindo-se mais confusa a cada segundo. Desde que a sua perseguio a Meredith havia sido interrompida, ela estava fazendo 
pesquisas on-line. Quando uma pessoa comeava a perseguir outra via internet, era difcil parar. Aria descobrira o sobrenome de Meredith - Stevens - em um cronograma 
das aulas da Strawberry Ridge Ioga que ela encontrara on-line, e procurara seu nmero de telefone no Google. Ela pensou que talvez pudesse ligar e dizer a ela, de 
forma amvel, para ficar longe de Byron. Mas, ento, encontrara o endereo de Meredith e quis saber o quo longe ela morava, e traara o caminho at l no MapQuest. 
Da pra frente, as coisas ficaram loucas. Ela vasculhara um trabalho, em hipertexto, que Meredith escrevera no primeiro ano da faculdade, sobre William Carlos Williams. 
Ela invadiu o portal de alunos da Hollis, para ver as notas de Meredith. Descobriu que Meredith tinha perfis no Friendster, no Facebook e no MySpace. Seus filmes 
preferidos eram Donnie Darko; Paris, Texas; e A Princesa Prometida, e se interessava por coisas estranhas, como globos de neve, tai chi e ms.
        Em um universo paralelo, Aria e Meredith poderiam ter sido amigas. Isso tornava ainda mais difcil fazer o que A mandou, na ltima mensagem de texto que 
lhe enviara -faa desaparecer.
        Parecia que a ameaa de A estava fazendo um buraco em seu smartphone, e sempre que ela pensava que vira no apenas Meredith, mas tambm Spencer, no estdio 
de ioga naquela manh, ela se sentia mal. O que Spencer estava fazendo l? Ser que ela sabia de alguma coisa?
        No stimo ano, Aria havia contado a Ali sobre ter visto Toby na oficina de teatro dela, enquanto estava relaxando na piscina da casa de Spencer com ela e 
Ali.
        - Ele no sabe de nada, Aria - respondera Ali, calmamente, aplicando mais protetor solar. - Relaxe.
        - Mas como voc pode ter certeza? - Aria havia protestado. - E quanto quela pessoa que eu vi do lado de fora da casa da rvore naquela noite? Talvez ela 
tenha contado a Toby! Talvez ela fosse Toby!
        Spencer franziu a testa e olhou para Alison.
        - Ali, talvez voc devesse... 
        Ali limpou a garganta, alto.
        - Spence - disse ela, em tom de alerta.
        Aria olhava de uma para a outra, confusa. Ento, ela deixara escapar a pergunta que queria fazer havia muito tempo:
        - Sobre o que vocs estavam cochichando na noite do acidente? Quando eu acordei e vocs estavam no banheiro?
        Ali inclinou a cabea.
        - Ns no estvamos cochichando.
        - Ali, ns estvamos cochichando - sibilou Spencer.
        Ali dirigiu outro olhar rspido para Spencer e se virou novamente para Aria.
        - Olhe, ns no estvamos falando sobre Toby. Alm disso - ela deu um sorrisinho para Aria -, voc no tem coisas mais importantes para se preocupar neste 
momento?
        Aria se irritou. Alguns dias antes, Aria e Ali tinham flagrado o pai dela com Meredith.
        Spencer puxou o brao de Ali.
        - Ali, eu realmente acho que voc deveria contar... 
        Ali levantou a mo.
        - Spence, eu juro por Deus.
        -Voc jura que o qu por Deus? - gritou Spencer. -Voc acha que isso  fcil?
        Depois que Aria vira Spencer no estdio de ioga naquela manh, ela pensara em segui-la na escola e falar com ela. Spencer e Ali haviam escondido alguma coisa, 
e talvez isso estivesse relacionado com A. Mas... ela tinha medo. Ela pensava que conhecia suas velhas amigas como a palma de sua mo. Mas, naquele momento, ela 
soube que todas tinham segredos que no queriam compartilhar...
        O celular de Aria tocou, arrancando-a das lembranas. Assustada, ela o derrubou em cima de uma pilha de camisetas sujas que havia separado para lavar. Ento 
o apanhou.
        - Oi - disse uma voz masculina, do outro lado da linha. - o Sean.
        - Ah! - exclamou Aria. - O que  que est rolando?
        - Nada de mais. Acabei de voltar de um jogo de futebol. O que voc vai fazer hoje  noite?
        Aria se encheu de alegria.
        - Hum... nada, pra falar a verdade.
        - Quer sair?
        Ela ouviu outro barulho no andar de baixo. Ento, a voz do pai.
        - Estou saindo. - A porta da frente bateu com fora. Ele nem sequer ia jantar com a famlia. De novo.
        Ela voltou ao telefone.
        - Que tal agora?
Sean estacionou seu Audi em um local deserto e levou Aria para um aterro.  esquerda deles, havia uma cerca de arame farpado e,  direita, uma ladeira. Acima, estavam 
os trilhos elevados do trem e, abaixo, podiam ver Rosewood inteira.
        - Meu irmo e eu descobrimos este lugar h alguns anos - explicou Sean.
        Ele estendeu o suter de cashmere na grama e fez um gesto para que Aria se sentasse. Ento, tirou uma garrafa trmica da mochila e ofereceu a ela.
        - Quer um pouco?
        Aria podia sentir o cheiro do rum atravs do pequeno buraco na tampa.
        Ela deu um gole grande, e, ento, olhou de lado para ele. O rosto de Sean era extremamente bem esculpido e suas roupas lhe caam muito bem, mas ele no tinha 
aquela atitude que parecia alardear sou lindo e sei disso que os outros alunos tpicos de Rosewood tinham.
        -Voc vem muito aqui? - perguntou ela.
        Sean deu de ombros e sentou-se ao lado dela.
        - No muito. s vezes.
        Aria supunha que Sean e sua turma, tpica de Rosewood, dirigiam por a festejando a noite inteira, ou roubavam cerveja dos pais, na casa vazia de algum deles 
enquanto jogavam Grand Theft Auto no PlayStation. E para terminar a noite davam um mergulho na banheira de hidromassagem,  claro. Quase todo mundo em Rosewood tinha 
uma banheira de hidromassagem no quintal.
        As luzes da cidade brilhavam l embaixo. Aria podia ver a torre da Hollis, que resplandecia num tom de marfim durante a noite.
        - Isto aqui  incrvel. - Ela suspirou. - No posso acreditar que nunca vim neste lugar.
        - Bem, minha antiga casa no era muito longe daqui. -Sean sorriu. - Meu irmo e eu pedalvamos por toda esta mata em nossas bicicletas imundas. Ns tambm 
costumvamos vir aqui para brincar de Bruxa de Blair.
        - Bruxa de Blair? - repetiu Aria. 
        Ele assentiu.
        - Depois que o filme foi lanado, ns ficamos obcecados em fazer nossos prprios filmes de terror.
        - Eu fiz isso tambm! - gritou Aria, to entusiasmada que ps a mo no brao de Sean. Ela a puxou de volta, depressa. - S que eu fiz os meus no quintal.
        -Voc ainda tem os vdeos? - perguntou Sean. 
        -Tenho. E voc?
        - Hum-hum. - Sean fez uma pausa. - Talvez voc pudesse vir assistir, uma hora dessas.
        - Eu gostaria muito. - Ela sorriu. Sean estava comeando a lembr-la do croque-monsieur que ela pedira uma vez, em Nice.  primeira vista, o prato parecera 
um simples queijo quente, nada de especial. Mas quando ela dera a primeira mordida, o queijo era Brie e havia cogumelos Portobello picados dentro dele. Havia muito 
mais l no fundo do que ela havia imaginado.
        Sean se apoiou nos cotovelos.
        - Uma vez, eu e o meu irmo viemos aqui e flagramos um casal fazendo sexo.
        - Srio? -Aria riu.
        Sean pegou a garrafa das mos dela.
        - Foi. E eles estavam to concentrados que no nos viram, no comeo. Eu comecei a me afastar bem devagar, mas tropecei em umas pedras. Eles ficaram assustadssimos.
        - Tenho certeza de que ficaram. - Ela estremeceu. - Meu Deus, isso deve ser horrvel.
        Sean a cutucou no brao.
        - O qu? Voc nunca fez em um lugar pblico? 
        Aria desviou o olhar.
        - No.
        Eles ficaram em silncio por alguns momentos. Aria no tinha certeza de como se sentia. Meio que desconfortvel. Mas tambm... um pouco excitada. Parecia 
que algo estava prestes a acontecer.
        - Ento, hum, voc se lembra daquele segredo que voc me contou, no seu carro? - perguntou ela. - Sobre no querer ser virgem?
        - Lembro.
        - Por que voc... por que voc acha que se sente assim? 
        Sean apoiou-se novamente nos cotovelos.
        - Eu comecei a ir ao Clube da Virgindade porque todo mundo parecia louco pra fazer sexo, e eu queria saber por que as pessoas reunidas ali tinham decidido 
o contrrio.
        -E?
        - Bom, eu acho que eles esto  com medo. Mas eu tambm acho que querem encontrar a pessoa certa. Tipo, algum com quem possam ser completamente honestos, 
com quem possam ser eles mesmos.
        Ele fez uma pausa. Aria apertou os joelhos contra o peito. Ela queria - s um pouquinho - que Sean dissesse: E Aria, eu acho que voc  a pessoa certa.
        Ela suspirou.
        - Eu fiz sexo, uma vez.
        Sean ps a garrafa na grama e olhou para ela.
        - Na Islndia, um ano depois que eu me mudei para l - admitiu ela. Parecia estranho dizer aquilo em voz alta. - Foi com um garoto de quem eu gostava. Oskar. 
Ele queria, e eu tambm, mas... no sei. -Aria afastou o cabelo do rosto. - Eu no o amava nem nada. - Ela fez uma pausa. - Voc  a primeira pessoa para quem eu 
conto isso.
        Eles ficaram quietos por algum tempo. Aria sentia o corao martelando no peito. Algum, l embaixo, estava fazendo churrasco; dava para sentir o cheiro 
do carvo e da carne. Ela ouviu Sean engolir em seco e mover-se, chegando um pouco mais perto. Ela tambm se aproximou, sentindo-se nervosa.
        -Voc quer ir  Foxy comigo - deixou escapar Sean.
        Aria inclinou a cabea.
        - F-Foxy?
        - A festa beneficente... em que as pessoas usam roupas bonitas? E danam?
        Ela piscou.
        - Eu sei o que  a Foxy.
        - A no ser que voc queria ir com outra pessoa. E ns podemos ir s como amigos,  claro.
        Aria sentiu uma pequena pontada de desapontamento quando ele usou a palavra amigos. Um segundo antes, achara que eles iam se beijar.
        -Voc ainda no convidou ningum?
        - No.  por isso que estou convidando voc.
        Aria olhou de lado para Sean. Os olhos dela no paravam de gravitar para a pequena covinha no queixo dele. Ali costumava chamar aquilo de "queixo de bunda", 
mas era realmente bonitinho.
        - Hum, bem, beleza ento.
        - Legal. - Sean sorriu.Aria sorriu de volta. S que... alguma coisa a fazia hesitar. Voc tem at a meia-noite de sbado, Cinderela. Seno... Sbado era 
o dia seguinte.
        Sean percebeu a expresso dela.
        - O que foi?
        Aria engoliu em seco. Sua boca toda tinha gosto de rum.
        - Ontem eu encontrei a mulher com quem o meu pai est tendo um caso. Foi por acaso. - Ela respirou fundo. - Ou no. Eu queria perguntar a ela o que estava 
acontecendo, mas no consegui. Eu s tenho medo de que a minha me... os pegue juntos. No quero que minha famlia acabe.
        Sean a abraou por um instante.
        -Voc no pode tentar falar com ela de novo?
        - No sei. - Ela olhou para as prprias mos. Estavam tremendo. - Quero dizer, eu tenho um discurso pronto para ela na minha cabea. Eu s quero que ela 
conhea o meu lado da histria. - Aria arqueou as costas e olhou para o cu, como se o universo pudesse dar uma resposta. - Mas talvez seja uma ideia estpida.
        - No . Eu vou com voc. Para dar apoio moral. 
        Aria olhou para ele.
        -Voc... voc faria isso? 
        Sean olhou para as rvores.
        - Agora mesmo, se voc quiser. 
        Aria sacudiu a cabea com fora.
        -Agora eu no posso. Eu deixei, hum, o meu script em casa.
        Sean deu de ombros.
        -Voc se lembra do que quer dizer?
        - Acho que sim. - Aria quase sussurrou. Ela olhou para as rvores. - Na verdade, no  longe... Ela mora bem ali, depois daquela colina. Em Old Hollis. - 
Ela sabia disso por causa das pesquisas sobre Meredith no Google Earth.
        -Vamos l. - Sean estendeu uma das mos. Antes que ela conseguisse pensar muito sobre o assunto, eles estavam descendo a colina gramada, passando pelo carro 
de Sean.
        Eles atravessaram a rua at Old Hollis, o bairro estudantil cheio de casas vitorianas caindo aos pedaos e meio assustadoras. Velhos Volkswagens, Volvos 
e Saabs estavam estacionados nas ruas. Para uma noite de sexta-feira, o bairro estava absolutamente vazio. Talvez houvesse algum grande evento em algum lugar de 
Hollis. Aria imaginou se Meredith estaria em casa; ela meio que esperava que no.
        Na metade do segundo quarteiro, Aria parou na frente de uma casa cor-de-rosa, que tinha quatro pares de tnis de corrida arejando na varanda, e um desenho 
a giz na calada do que parecia ser um pnis. Era bem adequado que Meredith morasse ali.
        - Eu acho que  aqui.
        -Voc quer que eu espere aqui? - murmurou Sean. 
        Aria se enrolou no suter. De repente, estava congelando.
        - Acho que sim. - Ento, ela agarrou o brao de Sean. - No posso fazer isso.
        -  claro que pode. - Sean colocou as mos nos ombros dela. +Vou estar bem aqui, certo? Nada vai acontecer a voc, eu prometo.
        Aria sentiu uma onda de gratido. Ele era to... doce. Ela se inclinou para a frente e o beijou na boca, gentilmente; quando se afastou, ele parecia espantado.
        - Obrigada - disse ela.
        Ela subiu devagar os degraus rachados da frente da casa de Meredith, o rum correndo pelas suas veias. Ela havia bebido trs quartos da garrafa de Sean, e 
ele tomara apenas alguns goles, por puro cavalheirismo. Quando tocou a campainha, ela se apoiou contra uma das colunas do prtico para manter o equilbrio. Aquela 
no era uma noite ideal para estar usando as sandlias italianas de salto alto.
        Meredith abriu a porta. Ela estava vestindo shorts de flanela e uma camiseta branca com a imagem de uma banana - era a capa de algum disco antigo, mas Aria 
no conseguia se lembrar de qual. E ela parecia maior naquela noite. Menos esbelta e mais musculosa, como as garotas num programa de luta livre da televiso. Aria 
se sentiu fraca.
        Os olhos de Meredith brilharam ao reconhec-la.
        - Alison, certo?
        - Na verdade,  Aria. Aria Montgomery. Eu sou a filha de Byron Montgomery. Eu sei de tudo o que est acontecendo. E quero que isso pare.
        Os olhos de Meredith se arregalaram. Ela respirou fundo e exalou lentamente pelo nariz. Aria quase pensou que uma fumaa de drago estava prestes a sair.
        -Voc quer, ?
        - ,isso mesmo. - Aria estremeceu, percebendo que estava falando enrolado. Eissmesm. E seu corao estava batendo to forte que ela no ficaria surpresa 
se sua pele estivesse pulsando.
        Meredith ergueu uma das sobrancelhas.
        - Isso no  da sua conta. - Ela colocou a cabea para fora da porta e olhou ao redor, desconfiada. - Como voc descobriu onde eu moro?
        - Olhe, voc est destruindo tudo - protestou Aria. - E eu s quero que isso pare. Ok? Quero dizer... isso est machucando todo mundo. Ele  casado... e 
tem uma famlia.
        Aria encolheu-se ao ouvir o tom pattico da prpria voz e seu discurso to perfeitamente ensaiado que escapara de seu controle.
        Meredith cruzou os braos sobre o peito.
        - Eu sei disso tudo - respondeu ela, comeando a fechar a porta. - E sinto muito. Sinto mesmo. Mas estamos apaixonados.
23
PRXIMA PARADA:
CADEIA DE ROSEWOOD
No final da tarde de sbado, poucas horas antes da Foxy, Spencer estava sentada em frente ao computador. Ela havia acabado de enviar um e-mail para Lula Molusco 
com seus trabalhos anexados. Apenas envie, disse a si mesma. Ela fechou os olhos, clicou no mouse e, quando os abriu, seu trabalho havia sido enviado.
        Bem, o trabalho era mais ou menos dela.
        Ela no havia trapaceado. De verdade. Bem, talvez tivesse. Mas quem poderia culp-la? Depois que a mensagem de A chegou, na noite anterior, ela passou a 
madrugada inteira telefonando para Wren, mas s caa na caixa postal. E ela deixara cinco mensagens para ele, cada uma mais frentica que a anterior. Ela havia colocado 
os sapatos doze vezes, pronta para dirigir at a Filadlfia para ver se ele estava bem, mas, ento, se convencia do contrrio. Na nica vez em que seu Sidekick tocou, 
ela dera um pulo para alcan-lo, mas era apenas uma mensagem do Lula Molusco para toda a turma, lembrando a todos sobre o estilo apropriado de respostas para as 
questes.
        Quando sentiu algum tocar seu ombro, Spencer gritou. 
        Melissa recuou.
        - Ei! Desculpe! Sou eu!
        Spencer se endireitou, respirando com dificuldade.
        - Eu... - Ela examinou sua mesa. Droga. Havia um pedao de papel que dizia Ginecologista, Tera, 17:00. Anticoncepcional? E ela tinha os trabalhos antigos 
de Histria de Melissa na tela do computador. Ela deu um chute no estabilizador, e o monitor ficou preto.
        - Est estressada? - perguntou Melissa. - Muito dever de casa antes da Foxy?
        - Mais ou menos. - Spencer juntou rapidamente todos os papis espalhados pela mesa em pilhas organizadas.
        - Quer meu travesseiro de lavanda emprestado? - ofereceu Melissa. - Alivia o estresse.
        -  Est tudo bem - respondeu Spencer, sem se atrever a olhar para a irm. Eu roubei seu trabalho e seu namorado, pensou. Voc no deveria ser gentil comigo.
        Melissa fez biquinho.
        - Bom, no quero fazer voc se estressar ainda mais, mas tem um policial l embaixo. Ele disse que quer te fazer algumas perguntas.
        - O qu? - gritou Spencer.
        -  sobre Alison - explicou Melissa. Ela sacudiu a cabea, fazendo as pontas dos cabelos balanarem. - Eles no deviam te obrigar a falar sobre isso na semana 
do funeral.  doentio.
        Spencer tentou no entrar em pnico. Ela olhou para si mesma no espelho, arrumou o cabelo loiro e aplicou corretivo sob os olhos. Ento colocou uma blusa 
branca de boto e as calas cqui justas. Parecia confivel e inocente.
        Mas seu corpo inteiro tremia.
        Sem dvida, havia um policial de p na sala de estar, mas ele estava olhando para o home office do pai dela, onde ele guardava sua coleo de guitarras antigas. 
Quando o policial se virou, Spencer percebeu que no era aquele com quem ela havia conversado no funeral. O cara que estava ali era jovem. E parecia familiar, como 
se ela o conhecesse de algum lugar.
        -Voc  a Spencer? - perguntou ele.
        - Sim - disse ela, baixinho. 
        Ele estendeu a mo.
        - Sou Darren Wilden. Acabo de ser designado para o caso do assassinato de Alison DiLaurentis.
        - Assassinato - repetiu Spencer.
        - Sim - confirmou o oficial Wilden. - Bem, estamos investigando como assassinato.
        - Tudo bem. - Spencer tentou parecer calma e madura. - Uau.
        Wilden fez um gesto para que Spencer se sentasse no sof da sala de estar; ento, ele se sentou na frente dela, na chaise-longue. Ela percebeu de onde o 
conhecia: Rosewood Day. Ele havia estudado l quando ela estava no sexto ano, e tinha adquirido a reputao de mau elemento. Uma das amigas CDFs de Melissa, Liana, 
tivera uma paixonite por ele, e uma vez fizera Spencer entregar uma mensagem de admiradora secreta para ele, na cafeteria onde ele trabalhava. Spencer se lembrava 
de ter pensado que Darren tinha bceps gigantescos.
        Agora, ele olhava fixamente para ela. Spencer sentiu o nariz coar, e o relgio de seu av deu algumas badaladas altas. Finalmente, ele disse:
        - Tem alguma coisa que voc queira me contar?
        O medo se espalhou pelo corpo dela.
        - Contar a voc?
        Wilden se recostou na cadeira.
        - Sobre Alison.
        Spencer piscou. Havia algo errado ali.
        - Ela era minha melhor amiga - conseguiu dizer Spencer. As palmas de suas mos estavam suadas. - Eu estava com ela na noite em que desapareceu.
        -  Certo. - Wilden olhou para um bloco de anotaes. - Isso est em nossos arquivos. Voc conversou com algum na delegacia de polcia depois que ela desapareceu, 
no foi?
        - Sim. Duas vezes.
        - Certo. -Wilden apertou as mos. -Voc tem certeza de que contou tudo a eles? Havia algum que odiasse Alison? Talvez um policial j tenha feito todas estas 
perguntas a voc antes, mas, como eu sou novo, talvez voc pudesse refrescar minha memria.
        O crebro de Spencer parou. Na verdade, muitas garotas odiavam Alison. At mesmo Spencer nutria certo dio da amiga s vezes, especialmente em relao ao 
modo com que ela sempre conseguia manipul-la, e como havia ameaado denunciar Spencer pela Coisa com Jenna, se ela algum dia contasse o que sabia. E, secretamente, 
sentiu certo alvio quando Ali desapareceu. Com Ali sumida, e Toby longe da escola, o segredo deles estava escondido para sempre.
        Ela engoliu em seco, fazendo barulho. No tinha certeza do que esse policial sabia. A poderia ter dado algumas dicas para os policiais, de que ela estava 
escondendo alguma coisa. E era brilhante - se Spencer dissesse a ele: Sim, eu conheo algum que odiava Ali, realmente a odiava, o suficiente para mat-la, ela teria 
que confessar seu envolvimento na Coisa com Jenna. Se no dissesse nada e se protegesse, A ainda poderia punir seus amigos... e Wren.
        Voc me magoou, e eu vou magoar voc.
        O suor comeou a escorrer pela nuca de Spencer. E havia mais: e se Toby tivesse voltado s para mago-la? E se ele e A estivessem trabalhando juntos? E se 
ele fosse A? Mas, se ele fosse - e tivesse matado Ali -, ele iria at a polcia para se incriminar?
        - Tenho certeza de que j contei tudo a eles - disse ela, finalmente.
        Houve uma pausa bastante longa. Wilden olhou fixamente para Spencer, e ela olhou de volta. Aquilo a fazia pensar sobre a noite depois de A Coisa com Jenna. 
Ela havia cado em um sono agitado e paranoico, suas amigas choravam baixinho ao seu redor. Mas, de repente, ela estava acordada de novo. O mostrador do relgio 
marcava trs e quarenta e trs da madrugada e o quarto estava quieto. Ela se sentia atordoada e encontrou Ali dormindo sentada no sof, com a cabea de Emily no 
colo.
        -  No posso fazer isso - disse ela, sacudindo-a para que acordasse. - Ns deveramos nos entregar.
        Ali se levantou, levou Spencer para o banheiro no corredor e sentou-se na borda da banheira.
        -  Controle-se, Spence - disse Ali. -Voc no pode abrir a boca se a polcia nos fizer perguntas.
        - A polcia? - gritou Spencer, o corao acelerando.
        - Shhhhhh - sussurrou Ali. Ela tamborilava as unhas contra a borda de porcelana da banheira. - No estou dizendo que a polcia vai falar conosco, mas temos 
que ter um plano para o caso de eles falarem. Tudo o que ns precisamos  de uma histria slida. Um libi.
        - Por que no podemos simplesmente contar a verdade? -perguntou Spencer. - O que exatamente voc viu o Toby fazer que te assustou tanto a ponto de voc disparar 
os fogos de artifcio por acidente?
        Ali sacudiu a cabea.
        -   melhor do meu jeito. Ns guardamos o segredo de Toby e ele guarda o nosso.
        Uma batida na porta fez com que elas se levantassem.
        - Meninas? - chamou uma voz. Era Aria.
        - Tudo bem - disse Wilden, finalmente, arrancando Spencer de suas lembranas. Ele deu a ela um carto. - Ligue para mim se voc se lembrar de alguma coisa, 
est bem?
        -  claro - balbuciou Spencer.
        Wilden ps as mos na cintura e olhou ao redor da sala. Para a moblia Chippendale, a sofisticada janela de vitral, os quadros emoldurados nas paredes e 
o relgio George Washington premiado de seu pai, que estava na famlia desde o sculo XIX. Ento, ele examinou Spencer, dos brincos de diamantes nas orelhas e do 
delicado relgio Cartier em seu pulso at as luzes loiras em seus cabelos, que custavam trezentos dlares a cada seis semanas. O sorrisinho satisfeito no rosto dele 
parecia dizer: Voc parece uma garota que tem muito a perder.
        -Voc vai quela festa beneficente hoje? - perguntou ele, sobressaltando-a. - A Foxy?
        - Hum, vou - disse Spencer, baixinho.
        -  Bem. - Wilden fez uma pequena saudao a ela. - Divirta-se. - A voz dele era totalmente normal, mas ela poderia jurar que a expresso em seu rosto dizia: 
Ainda no terminei com voc.
24
DUZENTOS E CINQUENTA DLARES
DO DIREITO A COMIDA,  DANA...
E  UMA ADVERTNCIA
A Foxy era realizada em Kingman Hall, uma velha manso campestre de estilo ingls, construda por um homem que inventara uma mquina nova de tirar leite, no incio
do sculo XX. No quarto ano, quando eles aprenderam sobre a casa na aula de histria da Pensilvnia, Emily a apelidara de "Manso Mu".
        Enquanto a recepcionista examinava seus convites, Emily olhou em volta. O lugar tinha um jardim labirntico na parte da frente. Grgulas faziam caretas nos 
arcos da imponente fachada da manso. Pouco  frente de Emily estava a tenda, toda iluminada e cheia de gente, onde o evento seria realizado.
        - Uau. -Toby apareceu atrs dela. Lindas garotas passavam por eles em direo  tenda, usando vestidos elaborados, feitos sob encomenda, e carregando bolsas 
cravejadas de joias. Emily olhou para o prprio vestido, era um tomara que caia simples, cor-de-rosa, que Carolyn havia usado no baile do ano anterior. Ela arrumara 
o prprio cabelo, colocara bastante do perfume ultrafeminino de Carolyn, Lovely, que a fazia espirrar, e estava usando brincos pela primeira vez em muito tempo, 
forando-os pelos buracos nas orelhas, que j estavam quase fechados. Mesmo com tudo aquilo, ela ainda se sentia sem graa comparada a todas as outras meninas.
        No dia anterior, quando Emily telefonou para Toby, a fim de convid-lo para a Foxy, ele pareceu muito surpreso - mas realmente empolgado. Ela estava entusiasmada, 
tambm. Eles iriam  Foxy, se beijariam de novo e... quem sabe? Talvez se transformassem em um casal. Com o tempo, eles iriam visitar Jenna na escola na Filadlfia, 
e Emily poderia, de alguma forma, compens-la por tudo. Ela cuidaria do prximo co-guia de Jenna, leria para ela todos os livros que ainda no haviam sido lanados 
em braille. Talvez, com o tempo, Emily pudesse confessar seu envolvimento no acidente de Jenna.
        Ou talvez no.
        S que agora ela estava na Foxy, e algo parecia... errado. O corpo de Emily alternava entre sensaes de calor e frio, e seu estmago estava contrado de 
dor. As mos de Toby pareciam muito speras, e ela estava to nervosa que eles mal haviam conversado no caminho para a festa. A prpria Foxy no parecia um ambiente 
muito relaxante; todos estavam exageradamente arrumados. E Emily tinha certeza de que algum a estava observando. Enquanto examinava a maquiagem de cada garota e 
o rosto barbeado de cada rapaz, ela se perguntava: Voc  A?
- Sorria! - Um flash espocou no rosto de Emily, e ela deu um gritinho. Quando as luzes brancas pararam de danar na frente de seus olhos, uma garota loira, num vestido 
vinho, com uma credencial de imprensa sobre o peito e uma cmera digital pendurada no ombro, estava rindo para ela. - Eu s estava tirando fotos para o Philadelphia 
Inquirer- explicou.- Quer tentar de novo, sem a caril de pnico, dessa vez? - Emily agarrou o brao de Toby e tentou parecer feliz, mas sua expresso parecia mais 
uma careta petrificada.
        Depois que a moa da imprensa se afastou, Toby se virou para Emily.
        - Tem algo errado? Voc sempre pareceu to relaxada na frente das cmeras.
        Emily se enrijeceu.
        - Quando voc me viu na frente de uma cmera?
        - Na reunio da Rosewood com a Tate? - lembrou-a Toby. -  O cara maluco do livro do ano?
        - Oh, sim. - Emily expirou o ar de seus pulmes.
        Os olhos de Toby seguiram um garom que passava com uma bandeja de drinques.
        - Ento, este  o seu mundo?
        - Deus, no! - retrucou Emily. - Eu nunca estive em um lugar como este na minha vida.
        Ele olhou em volta.
        - Todo mundo parece to... feito de plstico. Eu costumava ter vontade de matar a maioria dessas pessoas.
        Uma sensao assustadora invadiu Emily. Era o mesmo tipo de sentimento que ela experimentou ao acordar no banco de trs do carro de Toby. Quando ele percebeu 
a expresso dela, rapidamente deu um sorriso.
        - No literalmente. - Ele apertou a mo dela. -Voc  muito mais bonita do que todas as outras garotas aqui.
        Emily corou. Mas ela estava descobrindo que suas entranhas no viravam do avesso quando ele dizia coisas assim, ou quando tocava nela. E deveriam. Toby era 
sexy. Na verdade, estava lindo com seu terno e seus sapatos pretos, os cabelos penteados para trs, e seu rosto angulado e quadrado. Todas as garotas estavam olhando 
para ele. Quando ele apareceu na porta de sua casa, at mesmo a discreta Carolyn havia deixado escapar:
        - Ele  to bonitinho!
        Mas quando ele segurou a mo de Emily, ainda que ela quisesse muito sentir alguma coisa, no aconteceu nada. Era como dar a mo  sua irm.
Emily tentou relaxar. Ela e Toby caminharam em direo  tenda, apanharam duas pias coladas e se juntaram a um grupo de garotos na pista de dana. Algumas meninas 
tentando danar de um jeito supersexy, com mos para cima, como se estivessem ensaiando para um evento da MTV A maioria estava simplesmente pulando e cantando ao 
som de Madonna. Tcnicos de som estavam instalando um aparelho de caraoqu em um dos cantos, e as garotas estavam escrevendo os nomes das msicas que queriam cantar.
        Emily afastou-se para ir ao banheiro, deixando a tenda e caminhando por um corredor iluminado por velas e com o cho coberto de ptalas de rosa. Garotas 
passavam por ela, de brao dado, cochichando e rindo. Emily checou discretamente o peito; ela nunca havia usado um tomara que caia antes, e tinha certeza de que, 
a qualquer momento, o vestido iria escorregar e expor seus seios ao mundo.
        - Quer que eu leia sua sorte?
        Emily se virou. Uma mulher de cabelos escuros, usando um vestido de seda estampado, estava sentada a uma pequena mesa debaixo de um enorme retrato de Horace 
Kingman, o inventor da mquina de tirar leite. Ela usava uma tonelada de pulseiras no brao esquerdo e um grande medalho em forma de cobra pendia de sua garganta. 
Um baralho estava  sua frente, junto com uma pequena placa na borda da mesa que dizia: A MGICA DO TAR.
        - No, tudo bem - disse Emily. A mesa de tar era to... pblica. Ali, em um espao aberto, no meio do saguo.
        A mulher estendeu uma longa unha na direo de Emily. 
        - Voc precisa saber a sua sorte, mesmo assim. Alguma coisa vai acontecer com voc esta noite. Algo que vai mudar sua vida. 
        Emily enrijeceu.
        - Comigo?
        - , com voc. E esse garoto que voc trouxe? No  ele que voc quer. Voc deve procurar quem realmente ama.
        O queixo de Emily caiu, e sua mente comeou a girar. 
        A cartomante parecia prestes a dizer alguma outra coisa, mas Naomi Zeigler passou por Emily e se sentou  mesa.
        - Eu conheci voc aqui, no ano passado - tagarelou Naomi, apoiando-se nos cotovelos, excitada. - Voc fez a melhor previso da minha vida.
        Emily se afastou. Sua cabea estava a mil. Algo ia acontecer com ela naquela noite? Algo... que iria mudar sua vida? Talvez Ben contasse para todo mundo. 
Ou Maya contasse para todo mundo. Ou A mostrasse aquelas fotos para todo mundo. Ou A tivesse contado a Toby... sobre Jenna. Poderia ser qualquer coisa.
        Emily jogou gua fria no rosto e saiu do banheiro. Quando ela se virou para voltar para a tenda, esbarrou nas costas de algum. Assim que viu quem era, seu 
corpo ficou tenso.
        - Oi - disse Ben, em um falso tom amistoso, esticando as palavras. Ele usava um terno cinza-chumbo e tinha uma pequena gardnia branca na lapela.
        - O-oi - gaguejou Emily. - Eu no sabia que voc vinha.
        - Eu ia dizer a mesma coisa. - Ben se inclinou. - Gosto do seu namorado. - Ele colocou a palavra namorado entre aspas no ar. - Eu vi voc com ele ontem na 
reunio com a Tate. Quanto voc teve que pagar a ele para vir at aqui com voc?
        Emily o empurrou e passou por ele. Ela desceu o corredor escuro, considerando que aquela no seria a melhor hora para tropear nos saltos. Os passos de Ben 
ecoavam atrs dela.
        - Por que voc est fugindo? - cantarolou Ben.
        - Me deixa em paz. - Ela no se virou.
        - Aquele cara  seu guarda-costas? Primeiro, ele te protege na natao e agora aqui. E onde ele est agora? Ou voc s o contratou para vir at aqui com 
voc, para que as pessoas no descubram que voc  uma grande lsbica? - Ben deu uma risadinha.
        - R r. - Emily se virou para encar-lo. -Voc  engraado.
        - ? - Ben a empurrou contra a parede. Simples assim. Ele segurou os pulsos de Emily e apertou o corpo contra o dela. - Isto  engraado?
        Ben estava sendo bruto, e o corpo dele era pesado. A apenas alguns passos de distncia, alguns garotos passaram por eles, em direo ao banheiro. Ser que 
eles no viram?
        - Pare - conseguiu dizer Emily.
        A mo spera de Ben procurou a barra do vestido dela. Ele acariciou o joelho de Emily e deslizou a mo por suas pernas.
        - S diga que voc gosta disso - disse ele, no ouvido dela. - Ou eu vou contar pra todo mundo que voc  lsbica.
        Lgrimas encheram os olhos de Emily.
        - Ben - sussurrou ela, fechando as pernas. - Eu no sou lsbica.
        - Ento, diga que voc gosta - rosnou Ben. A mo dele apertou a coxa nua dela.
        Ben estava chegando cada vez mais perto da calcinha dela. Quando eles estavam namorando, no tinham chegado to longe. Emily mordeu o lbio com tanta fora 
que teve certeza de ter tirado sangue. Ela estava prestes a ceder e dizer a ele que estava gostando, s para faz-lo parar, mas a fria a invadiu. Que Ben pensasse 
o que quisesse. Que ele contasse para a escola in.teira, Ele no podia fazer aquilo com ela, de jeito nenhum.
        Ela pressionou o corpo contra a parede, para pegar impulso. Ento, levantou o joelho e acertou a virilha de Ben com fora.
        -Ai! - Ben se afastou, com as mos na virilha. Um gemido fraco, como de um beb, escapou de sua boca. - O que voc... - engasgou ele.
        Emily arrumou o vestido.
        -  Fique longe de mim. - A raiva corria pelas veias dela como uma droga. - Seno, juro por Deus...
        Ben cambaleou para trs, at se encostar na parede. Seus joelhos se dobraram e ele escorregou at sentar-se no cho.
        - Pssima, pssima ideia.
        -  Que se dane. - Emily se virou para ir embora. Ela deu passos longos, rpidos e confiantes. No o deixaria ver o quanto estava chateada. Que estava prestes 
a chorar.
        -  Ei. - Algum segurou gentilmente o brao de Emily. Quando seus olhos se focaram novamente, ela percebeu que era Maya. - Eu vi aquilo tudo - sussurrou 
Maya, apontando com o queixo para o local onde Ben ainda estava cado. -Voc est bem?
        - Estou - respondeu Emily, depressa. Mas sua voz estava embargada. Ela tentou se controlar, mas no conseguiu. Ela se apoiou contra a parede e cobriu o rosto 
com as mos. Se contasse at dez, poderia esquecer aquilo. Um... dois.. trs...
        Maya tocou no brao de Emily.
        - Eu sinto muito, Em.
        - No sinta - conseguiu dizer Emily, o rosto ainda coberto. Oito... nove... dez. Ela afastou as mos do rosto e se endireitou. - Eu estou bem.
        Ela fez uma pausa, olhando para o vestido branco de Maya, estilo gueixa. Ela parecia to mais bonita do que todos aqueles clones loiros de coque e Chanel 
que havia visto na festa. Ela correu as mos pelos lados do prprio vestido, imaginando se Maya a estaria examinando tambm.
        - Eu... eu provavelmente deveria voltar para o meu parceiro - gaguejou ela.
        Maya deu um pequeno passo na direo dela. S que Emily no conseguia se mover um centmetro.
        - Eu tenho um segredo para contar a voc, antes de voc ir - informou Maya.
        Emily chegou mais perto, e Maya se inclinou em direo a sua orelha. Os lbios de Maya no a tocaram, mas estavam bem perto. Arrepios percorreram a espinha 
de Emily, e ela se ouviu respirando pesado. No era certo reagir daquele jeito, mas simplesmente... no conseguia... evitar.
        Voc deve procurar quem voc realmente ama.
        - Eu vou esperar por voc - sussurrou Maya com a voz um pouco triste e muito sexy. - No importa quanto tempo leve.
25
A VIDA SURREAL -
ESTRELANDO  HANNA MARIN
Na noite de sbado, Hanna pegou o elevador para a sua sute no Four Seasons Filadlfia, sentindo-se leve, solta e energizada. Ela tinha acabado de fazer um tratamento 
corporal com limo, uma massagem de uma hora e vinte minutos, e um bronzeamento Kissed by the Sun em seguida. Toda aquela paparicao a fez se sentir um pouco menos 
estressada. Aquilo e o fato de estar longe de Rosewood... e de A.
        Ela esperava estar longe de A.
        Hanna abriu a porta da sute de dois quartos e entrou. Seu pai estava sentado no sof da sala.
        - Oi - cumprimentou-a ele. - Como foi tudo?
        - Maravilhoso. - Hanna dirigiu-lhe um olhar radiante, tomada de felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Ela queria dizer o quanto estava grata por estarem 
juntos novamente, e, ainda assim, sentia que seu futuro com ele estava ameaado, por A. Ela tinha esperanas de que ter dito aquilo tudo a Naomi e Riley no dia anterior 
iria mant-la a salvo, mas e se no fosse assim? Talvez ela devesse simplesmente contar a verdade sobre Jenna, antes que A chegasse a ele primeiro.
        Ela apertou os lbios e olhou para o tapete, tmida.
        - Bom, eu preciso tomar um banho bem rpido, se quisermos chegar a tempo no Le Bec-Fin.
        -  S um segundo. - O pai se levantou. - Eu tenho outra surpresa pra voc.
        Por instinto, Hanna olhou para as mos do pai, esperando que ele estivesse segurando um presente para ela. Talvez fosse algo para compens-la por todos aqueles 
cartes de aniversrio estpidos. Mas a nica coisa na mo dele era o celular.
        Ento, houve uma batida na porta do quarto da sute conjugada.
        - Tom? Ela est aqui?
        Hanna congelou, sentindo o sangue abandonar sua cabea. Ela conhecia aquela voz.
        - Kate e Isabel esto aqui - sussurrou o pai, excitado. - Elas vo ao Le Bec-Fin conosco, e depois todos ns vamos assistir a Mamma Mia!. Voc no disse 
na quinta-feira que queria ver essa pea?
        - Espere! - Hanna o interceptou antes que ele chegasse  porta. - Voc as convidou?
        -  Sim. - O pai olhou para ela como se estivesse doida. -Quem mais teria sido?
        A, Hanna pensou. Parecia bem o estilo de A.
        - Mas eu pensei que seramos s voc e eu.
        - Eu nunca disse isso.
        Hanna franziu a testa. Disse sim. No disse?
        -Tom? - chamou a voz de Kate. Hanna estava aliviada porque Kate o chamava de Tom, e no de papai, mas apertou o pulso do pai com mais fora.
        O pai hesitou  porta, os olhos se movendo para um lado e para o outro, de forma estranha.
        - Mas, quero dizer, Hanna, elas j esto aqui. Eu achei que seria legal.
        - Por que... - Por que voc pensaria isso? Hanna queria perguntar. Kate faz eu me sentir uma droga, e voc me ignora quando ela est aqui.  por isso que 
eu no falei com voc durante todos esses anos!
        Mas havia tanta confuso e desapontamento no rosto do pai. Ele provavelmente estava planejando aquilo havia dias. Hanna ficou olhando para as franjas do 
tapete oriental. Sua garganta estava presa, como se ela tivesse acabado de engolir algo enorme.
        - Eu acho que voc deve deix-las entrar, ento - resmungou Hanna.
        Quando o pai abriu a porta, Isabel gritou de alegria, como se tivessem estado separados por galxias inteiras, no apenas estados. Ela ainda estava excessivamente 
magra e muito bronzeada, e os olhos de Hanna voaram imediatamente para a pedra em sua mo esquerda. Era um anel de diamante Legacy, da Tiffany, de trs quilates. 
Hanna conhecia o catlogo da loja de trs para a frente..
        E Kate. Ela estava mais bonita do que nunca. Seu vestido de faixas diagonais sem dvida era manequim 36, e os cabelos castanhos e lisos estavam mais compridos 
do que h alguns anos. Ela colocou a bolsa Louis Vuitton graciosamente na pequena mesa de jantar do quarto de hotel. Hanna estava fervendo de raiva. Kate, provavelmente, 
jamais tropeava em seus novos sapatos Jimmy Choo, nem escorregava no cho de madeira depois que a faxineira o encerava.
        O rosto de Kate tinha uma expresso retesada, como se ela estivesse realmente irritada por estar ali. Quando percebeu a presena de Hanna, contudo, ficou 
mais relaxada. Ela observou Hanna de cima para baixo - da jaqueta estruturada Chlo at as sandlias de tiras e, ento, sorriu.
        - Oi, Hanna - disse Kate, obviamente surpresa. - Uau. - Ela ps a mo no ombro de Hanna, mas por sorte no a abraou. Se ela tivesse feito isso, teria percebido 
o quanto Hanna estava tremendo.
-Tudo parece to bom - murmurou Kate, olhando o cardpio.
        - Sem dvida - ecoou o sr. Marin. Ele chamou o garom e pediu uma garrafa de Pinot Grigio. Ento, olhou com carinho para Kate, Isabel e Hanna. - Estou feliz 
de estarmos todos aqui. Juntos.
        -  realmente maravilhoso ver voc de novo, Hanna - disse Isabel.
        -  - concordou Kate. - Sem dvida.
        Hanna olhou para seus talheres de prata sofisticados. Era surreal v-las de novo. E no surreal do tipo legal, como um vestido-caleidoscpio Zac Posen, mas 
surreal do tipo pesadelo, como quando aquele cara do livro que Hanna tivera de ler para a aula de literatura, no ano anterior, acordava e descobria que havia se 
transformado em uma barata.
        - Querida, o que voc vai pedir? - perguntou Isabel a ela, com a mo sobre a de seu pai. Ela ainda no podia acreditar que seu pai estivesse apaixonado por 
Isabel. Ela era to... comum. E muito bronzeada. O que era uma coisa legal se voc fosse modelo, tivesse catorze anos ou morasse no Brasil, e no uma mulher de meia-idade 
de Maryland.
        - Hmmmm - fez o sr. Marin. - O que  pintade?  peixe? 
        Hanna virou as pginas do cardpio. Ela no tinha ideia do que ia comer. Tudo era frito ou feito com molho branco.
        - Kate, voc pode traduzir? - Isabel se inclinou na direo de Hanna. - Kate  fluente em francs.
         claro que , pensou Hanna.
        - Ns passamos o ltimo vero em Paris - explicou Isabel, olhando para Hanna. Hanna se escondeu atrs da carta de vinhos. Eles tinham ido para Paris? Junto 
com o pai dela, tambm?
        - Hanna, voc estuda lnguas? - perguntou Isabel.
        - Hum. - Hanna deu de ombros. - Fiz um ano de espanhol.
        Isabel fez biquinho.
        - Qual  a sua matria preferida na escola?
        - Ingls?
        - A minha tambm! - exclamou Kate.
        - Kate ganhou o prmio mximo em Ingls da escola dela no ano passado - gabou-se Isabel, parecendo muito orgulhosa.
        - Me - reclamou Kate. Ela olhou para Hanna e murmurou: Desculpe.
        Hanna ainda no conseguia acreditar em como a expresso irritada de Kate havia se dissipado quando ela a tinha visto. Hanna havia feito aquela cara antes. 
Como daquela vez no nono ano quando seu professor de ingls a indicara como voluntria para mostrar a escola para Carlos, o estudante que viera fazer intercmbio 
chileno. Hanna sara da sala do professor ressentida demais para cumprimentar o garoto, certa de que Carlos seria um idiota e causaria um estrago em sua popularidade. 
Quando ela chegou  recepo e viu um garoto alto, de cabelos ondulados e olhos verdes, que parecia ter jogado voleibol desde o bero, ela se endireitou e checou 
discretamente o prprio hlito. Kate provavelmente pensava que as duas compartilhavam algum tipo de lao de mulherzinha.
        -Voc tem alguma atividade extracurricular? - perguntou Isabel. - Pratica esportes?
        Hanna deu de ombros.
        - Na verdade no. - Ela havia se esquecido de que Isabel era uma daquelas mes: ela s falava de Kate, de suas premiaes escolares, das aulas de lnguas, 
das atividades extracurriculares, e da por diante. Era outra coisa com que Hanna no podia competir.
        -  No seja to modesta. - O pai cutucou o ombro de Hanna. -Voc tem vrias atividades extracurriculares.
        Hanna olhou para o pai, espantada. Como o qu? Roubar?
        - A clnica para pessoas que sofreram queimaduras? - citou ele. - E sua me me contou que voc se juntou a um grupo de apoio.
        O queixo de Hanna caiu. Em um momento de fraqueza, ela contara  me sobre o Clube da Virgindade, como que dizendo: Est vendo? Eu tenho valores. Ela no 
podia acreditar que a me tivesse dito ao pai.
        - Eu... - gaguejou ela. - No  nada importante.
        -  claro que  importante. - O sr. Marin apontou o garfo para ela.
        - Pai - sibilou Hanna.
        As outras olharam para ela, na expectativa. Os olhos j grandes de Isabel se arregalaram ainda mais. Kate tinha um trao quase imperceptvel de sorriso no 
rosto, mas seus olhos expressavam simpatia. Hanna olhou para a cesta de po. Dane-se, pensou ela, e enfiou um brioche inteiro na boca.
        -  um clube de abstinncia, t legal? - disparou ela, com a boca cheia de massa de po e sementes de papoula, e ento se levantou. - Muito obrigada, papai.
        - Hanna! - O pai empurrou a cadeira para trs e fez meno de se levantar, mas Hanna saiu andando. Por que ela tinha acreditado naquela historinha de eu 
adoraria passar um fim de semana com voc? Era exatamente como da ltima vez, quando ele a chamara de porquinha. E pensar em tudo o que ela havia arriscado para 
estar ali, dissera quelas putinhas que vomitava trs vezes por dia! Aquilo nem era mais verdade!
        Ela empurrou a porta do banheiro, entrou em uma das cabines e se ajoelhou na frente do vaso sanitrio. O estmago dela estava embrulhado, e ela sentiu vontade 
de resolver logo o problema. Acalme-se, disse a si mesma, olhando meio tonta para o prprio reflexo na gua do vaso. Voc consegue.
        Hanna se levantou novamente, o maxilar tremendo, lgrimas transbordando dos olhos. Se ela pudesse ficar naquele banheiro pelo resto da noite... eles que 
tivessem o fim de semana especial de Hanna sem ela. O celular tocou. Hanna tirou-o da bolsa para silenci-lo. Ento, seu estmago se contraiu. Ela tinha recebido 
um e-mail de um endereo familiar.
        J que voc seguiu minhas ordens to direitinho ontem, 
        considere isto um presente: v para a Foxy, agora. Sean 
        est l com outra garota.  -A
        Ela ficou to assustada que quase derrubou o telefone no cho de mrmore do banheiro.
        Ento ligou para Mona. Elas ainda no estavam se falando - Hanna nem tinha contado a Mona que no iria  Foxy - e Mona no atendeu. Hanna desligou, to frustrada 
que atirou o telefone contra a parede. Com quem Sean poderia estar? Naomi? Alguma putinha do Clube da Virgindade?
        Ela saiu da cabine fazendo barulho, assustando uma senhora que estava lavando as mos. Quando Hanna estava quase chegando  porta, parou abruptamente. Kate 
estava sentada na chaise-longue, passando um batom cor-de-rosa plido. Suas pernas longas e esbeltas estavam cruzadas, e ela parecia ser a pessoa mais chique do
mundo.
        -Tubo bem? - Kate levantou os olhos, de um azul profundo, para Hanna. -Vim ver como voc estava.
        Hanna se enrijeceu.
        - Sim, estou bem. 
        Kate torceu a boca.
        - Sem querer ofender o seu pai, mas, s vezes, ele  capaz de dizer as coisas mais inadequadas. Teve uma vez em que eu tive um encontro com um cara. Ns 
estvamos saindo de casa, e o seu pai disse:"Kate, eu vi que voc escreveu OB na lista de compras. O que  isso? Em que prateleira eu devo procurar?" Eu quase morri 
de vergonha.
        - Deus. - Hanna sentiu uma pontada de simpatia. Aquilo soava bem como algo que seu pai faria.
        - Ei, no importa - disse Kate, gentilmente. - Ele no teve m inteno.
        Hanna sacudiu a cabea.
        - No  isso. - Ela olhou para Kate. Mas, que diabos! Talvez elas tivessem algum lao de mulherzinha. - ...  o meu ex. Eu recebi uma mensagem dizendo que 
ele est numa festa beneficente chamada Foxy, com outra garota.
        Kate franziu a testa.
        - Quando vocs terminaram?
        -  H oito dias. - Hanna sentou-se na chaise. - Eu estou meio que tentada a voltar l agora e acabar com ele.
        - E por que no vai? 
        Hanna se recostou no sof.
        - Eu queria, mas... - Ela fez um gesto em direo ao restaurante.
        - Oua. - Kate se levantou e fez biquinho em frente ao espelho. - Por que voc no pe a culpa nesse tal grupo de apoio que voc est frequentando? Diga 
que algum de l ligou pra voc e disse que estava se sentindo muito "fraco", e voc  amiga dele, e precisa ir l dar uma fora.
        Hanna levantou uma das sobrancelhas.
        -Voc parece saber muito sobre grupos de apoio.
        Kate deu de ombros.
        - Eu tenho alguns amigos que passaram pela reabilitao. 
        Tuuuuuuuuudo beeeem.
        - Eu no acho que seja uma boa ideia.
        - Eu te dou cobertura, se voc quiser - ofereceu Kate. 
        Hanna olhou para ela, pelo espelho.
        - Srio?
        Kate olhou de volta, significativamente.
        -Vamos dizer que eu te devo uma.
        Hanna se encolheu. Algo lhe dizia que Kate estava falando sobre aquela vez, em Anpolis. Aquilo a fazia sentir-se desconfortvel - que Kate lembrasse, e 
que reconhecesse que havia sido cruel. Ao mesmo tempo, lhe dava uma certa satisfao.
        - Alm disso - continuou Kate -,seu pai disse que ns nos veramos muito mais.  bom comear do jeito certo.
        Hanna piscou.
        - Ele disse... ele disse que quer me ver mais?
        - Bom, voc  filha dele.
        Hanna brincou com o pingente em forma de corao em sua pulseira Tiffany. Dava a ela uma certa excitao, ouvir Kate falar daquele jeito. Talvez ela tivesse 
exagerado na mesa do jantar.
        -Vai levar quanto tempo? Duas horas, no mximo? - perguntou Kate.
        - Provavelmente menos que isso. - Tudo o que ela queria era pegar o trem para Rosewood e xingar aquela vaca. Ela abriu a bolsa para ver se tinha dinheiro 
para a passagem. Kate ficou em p ao lado dela e apontou para algo no fundo da bolsa.
        - O que  isso?
        -  Isso? - Assim que Hanna tirou o objeto da bolsa, quis enfi-lo l de novo. Era a caixa de Percocet que havia roubado da clnica para pessoas com queimaduras 
na tera-feira. Ela havia esquecido.
        - Posso pegar um? - sussurrou Kate, excitada. Hanna olhou para ela de soslaio.
        - Srio?
        Kate deu a Hanna um olhar malicioso.
        - Eu preciso de alguma coisa para me ajudar a aguentar esse musical para o qual seu pai vai nos arrastar.
        Hanna deu a ela uma cartela. Kate guardou as plulas, virou-se nos saltos e saiu com passos confiantes do banheiro. Hanna a seguiu, boquiaberta.
        Aquela fora a coisa mais surreal da noite. Talvez, se ela tivesse que ver Kate novamente, no fosse um destino pior que a morte. Poderia at ser... divertido.
26
PELO  MENOS ELA NO TEM
QUE CANTAR  NO CORAL
Quando Spencer e Andrew chegaram  Foxy, o lugar j estava lotado. A fila para o estacionamento tinha uns vinte carros, pessoas sem convite se aglomeravam ao redor 
da entrada, e a tenda principal estava repleta de gente nas mesas, junto ao bar e na pista de dana.
        Enquanto Andrew abria caminho at a mesa de drinques, Spencer checou o celular de novo. Nenhuma chamada de Wren ainda. Ela andou pelo cho de mrmore do 
salo, perguntando a si mesma por que estava ali. Andrew havia passado para apanh-la, e apesar de toda a ansiedade, Spencer tinha colocado as habilidades da aula 
de teatro em prtica e enganado a famlia, fazendo todos pensarem que eles eram um casal - dando em Andrew um beijinho perto da boca quando o vira, graciosamente 
aceitando suas flores, posando para uma foto com o rosto encostado ao dele. Andrew parecera alegremente constrangido, o que contribura ainda mais para a farsa.
        Agora ele no tinha mais utilidade para ela, mas, infelizmente, ele no sabia disso. Andrew apresentava Spencer a todos - pessoas que ambos conheciam - como 
sua namorada. O que ela realmente queria fazer era ir para um lugar silencioso e pensar. Precisava descobrir o que aquele policial, Wilden, sabia, e o que no sabia. 
Se Toby fosse A e o assassino de Ali, ele no estaria conversando com a polcia. Mas e se Toby no fosse A... e A tivesse contado algo  polcia?
        - Eu acho que aqui tem um caraoqu. - Andrew apontou para o palco. De fato, uma menina estava berrando "I Will Survive". - Quer cantar?
        - Acho que no - respondeu Spencer, ansiosa, brincando com o boto do corpete. Ela olhou ao redor pela quinquagsima vez, procurando as velhas amigas, esperando 
que elas aparecessem. Sentia que devia avis-las sobre Toby e sobre os policiais. A havia dito para no fazer aquilo, mas podia tentar um cdigo.
        - Bom, talvez voc queira cantar uma comigo? - insistiu Andrew.
        Spencer voltou-se para ele. Andrew parecia um dos labradores de sua famlia, implorando por migalhas da mesa.
        - Eu no acabei de dizer que no quero?
        - Ah. - Andrew brincou com a gravata. - Desculpe.
        No final, ela concordou em cantar, nos vocais de apoio, "Dirrty", de Christina Aguilera - incrvel que o certinho Andrew escolhesse cantar aquela msica 
- porque era mais fcil assim. Agora, Mona Vanderwaal e Celeste sei-l-o-sobrenome-dela - ela frequentava a escola Quaker - estavam no palco cantando "Total Eclipse 
of the Heart". Elas j pareciam um pouco tontas, uma segurando o brao da outra para manter o equilbrio, e repetidamente derrubando as pequenas bolsas de veludo 
no cho.
        - Ns vamos cantar muito melhor que elas - disse Andrew. Ele estava perto demais. Spencer sentia seu hlito quente, cheirando a chiclete de menta, e se irritou. 
A respirao pesada de Wren em seu pescoo era uma coisa, mas Andrew era bem diferente. Se ela no apanhasse algum ar imediatamente, podia desmaiar.
        - J volto - murmurou ela para Andrew e saiu correndo em direo  porta.
        Assim que passou pelas portas francesas do terrao, seu telefone vibrou. Ela se assustou. Quando olhou para o mostrador, seu corao deu um pulo. Wren.
        -Voc est bem? - quis saber Spencer. - Eu estava to preocupada!
        -Voc deixou doze mensagens - respondeu Wren.- O que est acontecendo?
        Spencer podia sentir a tenso se esvair dela, e seus ombros relaxando.
        - Eu... no tive notcias suas, e pensei... por que voc no checou sua caixa postal?
        Wren limpou a garganta, parecendo um pouco desconfortvel.
        - Eu estava ocupado, s isso.
        - Mas eu pensei que voc estava...
        - O qu? - disse Wren, meio rindo. - Cado na sarjeta? Ora, vamos, Spence.
        - Mas... - Spencer fez uma pausa, tentando achar um jeito de explicar. -  que eu tive uma sensao estranha.
        - Bom, eu estou bem. - Wren fez uma pausa. - Voc est bem?
        - Estou. - Spencer abriu um leve sorriso. - Quero dizer, estou aqui nesta festa ridcula, com meu parceiro ridculo, e preferia estar com voc, mas me sinto 
muito melhor agora. Estou feliz por voc estar bem.
        Quando desligou, estava to aliviada que queria correr e beijar qualquer pessoa no terrao - como Adriana Peoples, a garota da escola catlica que estava 
sentada na esttua de Dionsio, fumando um cigarro de cravo. Ou Liam Olsen, o jogador de hquei que estava agarrando uma menina. Ou Andrew Campbell, que estava parado 
atrs dela, parecendo chateado e intil. Quando o crebro de Spencer registrou que Andrew era, bem, Andrew, seu estmago se contraiu.
        - Hum, oi - disse ela, apressada. - H quanto tempo... h quanto tempo voc est aqui?
        Pela expresso desolada no rosto de Andrew, Spencer percebeu que ele estava ali por tempo suficiente.
        - Oua - suspirou ela. Era melhor cortar o mal pela raiz. - A verdade, Andrew,  que eu espero que voc no pense que vai acontecer alguma coisa entre a 
gente. Eu tenho namorado.
        Primeiro, Andrew pareceu espantado. Depois, magoado; ento, envergonhado; e, por fim, furioso. As emoes passaram to rpido pelo rosto dele que era como 
assistir a um pr do sol em cmera acelerada.
        - Eu sei. - Ele apontou para o Sidekick dela. - Eu ouvi a conversa.
         claro que ouviu.
        - Sinto muito - respondeu Spencer. - Mas eu... 
        Andrew levantou a mo para interromp-la.
        - Ento, por que convidar a mim, e no a ele? Ele  algum cara que os seus pais no querem que voc namore? Da, voc vem comigo, pensando que pode engan-los?
        - No - disse Spencer depressa, sentindo-se incomodada. Ela era to transparente assim, ou Andrew era simplesmente um bom adivinhador? - ...  difcil de 
explicar. Eu pensei que a gente pudesse se divertir. Eu no quis magoar voc.
        Um cacho de cabelos caiu sobre os olhos de Andrew.
        - Pois eu ca direitinho. - Ele correu para a porta.
        - Andrew! - gritou Spencer. - Espere! - Enquanto ela o observava desaparecer na multido de garotos, uma sensao gelada e desconfortvel a invadiu. Ela, 
definitivamente, havia escolhido o garoto errado para fingir ser seu namorado. Teria sido melhor ter ido  festa com Ryan Vreeland, que estava no armrio; ou Thayer 
Anderson, interessado demais em basquete para levar qualquer garota a srio.
        Ela correu para a tenda principal e olhou ao redor; devia, pelo menos, pedir desculpas a Andrew. O lugar inteiro estava iluminado por velas, de modo que 
era difcil encontrar algum.. Ela conseguia identificar Noel e a garota da escola Quaker na pista de dana, bebendo da garrafinha de usque. Naomi Zeigler e James 
Freed estavam no palco, cantando uma msica da Avril Lavigne que Spencer no suportava. Mason Byers e Devon Arliss estavam se beijando. Kirsten Cullen e Bethany 
Wells cochichavam em um canto.
        - Andrew? - chamou ela.
        Ento, Spencer notou Emily do outro lado do salo. Ela usava um vestido tomara que caia cor-de-rosa e tinha uma pashmina no mesmo tom sobre os ombros. Spencer 
deu alguns passos na direo de Emily, mas, ento, percebeu o parceiro dela parado ao seu lado, a mo em seu brao. Assim que Spencer apertou os olhos para ver melhor, 
o rapaz virou a cabea e a notou. Ele tinha olhos azul-escuros, a mesma cor que ela havia visto em seu sonho.
        Spencer engasgou e recuou.
        Eu vou aparecer quando voc menos esperar.
        Era Toby.
27
ARIA EST DISPONVEL APENAS
SOB  PRESCRIO  MDICA
Aria encostou-se no balco do bar da Foxy e pediu uma xcara de caf puro. A tenda estava to lotada que a costura de seu vestido de bolinhas j estava ensopada 
de suor. E ela s havia chegado h vinte minutos.
        -  Oi. - O irmo dela se aproximou. Ele usava o mesmo terno cinza que vestiu no funeral de Ali, e sapatos pretos engraxados que pertenciam a Byron.
        - Oi - guinchou Aria, surpresa. - Eu... eu no sabia que voc vinha. - Quando ela saiu do banho para se arrumar, a casa estava vazia. Confusa, por um momento 
ela pensara que sua famlia a havia abandonado.
        - , eu vim com... - Mike se virou e apontou para uma moa magra e plida, que Aria reconheceu da festa de Noel Kahn, na semana anterior. - Bonita, no ?
        - .- Aria virou o caf em trs goles e notou que suas mos estavam tremendo. Aquela era a quarta xcara que ela tomava em uma hora.
        - Ento, cad o Sean? - perguntou Mike. - Foi com ele que voc veio, no foi? Todo mundo est comentando.
        - Est? - perguntou Aria, com sinceridade.
        - Est. Vocs so o novo casal do momento.
        Aria no sabia se ria ou chorava. Ela podia imaginar algumas das garotas da Rosewood Day fofocando sobre ela e Sean.
        - Eu no sei onde ele est.
        - Por qu? a casalzinho do momento j se separou?
        - No... - A verdade era que Aria estava meio que se escondendo de Sean.
        Na noite anterior, depois que Meredith dissera a Aria que ela e Byron estavam apaixonados, ela havia corrido de volta para Sean e se desmanchado em lgrimas. 
Nunca, em um milho de anos, ela havia esperado que Meredith dissesse aquilo. Agora que Aria sabia a verdade, se sentia impotente. Sua famlia estava condenada. 
Por dez minutos, ela uivara no ombro de Sean: O que  que eu vou fazeeeeeer? Sean a acalmou o suficiente para lev-la para casa, e at mesmo a acompanhou ao seu 
quarto, colocando-a na cama e deixando o bichinho de pelcia favorito dela, Pigtunia, no travesseiro a seu lado.
        Logo que Sean saiu, Aria jogou as cobertas para longe e andou pela casa. Ela olhou para o quarto principal. A me estava l, dormindo tranquilamente... sozinha. 
Mas Aria no podia acord-la. Quando Aria despertou novamente, algumas horas depois, foi ao quarto principal de novo, preparando-se para simplesmente jazer o que 
devia ser jeito, mas, desta vez, Byron estava na cama, ao lado de Ella. Ele estava deitado de lado, com o brao por cima do ombro da esposa.
        Por que algum dormiria abraado a uma pessoa quando estava apaixonado por outra?
        De manh, quando Aria acordou, aps uma nica hora de sono, seus olhos estavam inchados, e uma srie de pequenas brotoejas vermelhas haviam estourado em 
sua pele. Ela sentia como se estivesse de ressaca e, quando se lembrou dos acontecimentos da noite, se escondeu debaixo do edredom, envergonhada. Sean a havia colocado 
na cama. Ela havia fungado no ombro dele. Ela havia uivado como uma pessoa insana. Que melhor modo de perder o cara de quem voc gosta, alm de babar nele todo? 
Quando Sean a apanhou para a Foxy - incrvel que tivesse aparecido -, ele imediatamente quis conversar sobre a noite anterior, mas ela evitou o assunto, dizendo 
que estava se sentindo muito melhor. Sean olhou para ela de modo estranho, mas era inteligente o suficiente para no fazer perguntas. E, desde de ento, ela estava 
fugindo dele.
        Mike se apoiou contra o balco de madeira do bar da Foxy, balanando a cabea quando o DJ comeou a tocar Franz Ferdinand. Havia um sorrisinho satisfeito 
em seu rosto -Aria sabia que ele se sentia o mximo por ter conseguido um convite para a Foxy, j que estava apenas no segundo ano. Mas ela era irm dele, por isso 
podia enxergar a tristeza e a dor por baixo da superfcie. Era como na vez em que eles eram pequenos e brincavam na piscina comunitria, e os amigos de Mike o chamaram 
de gay porque seu calo de banho branco tinha ficado cor-de-rosa na lavagem. Mike tentara aguentar firme, entretanto, mais tarde, durante o treino de natao dos 
adultos, Aria o encontrara chorando escondido perto da piscina infantil.
        Ela queria dizer alguma coisa para fazer com que ele se sentisse melhor. Sobre o quanto ela sentia pelo que estava prestes a contar a Ella - Aria contaria 
tudo  me naquela noite, quando chegasse em casa, sem desculpas - e que nada daquilo era culpa dele, e que se a famlia deles se desintegrasse, tudo ainda ficaria 
bem. De algum jeito.
        Mas ela sabia o que aconteceria se tentasse. Mike simplesmente fugiria.
        Aria pegou mais caf e saiu do bar. Ela s precisava de movimento.
        - Aria - chamou uma voz atrs dela. Ela se virou. Sean estava a cerca de dois metros de distncia, perto de uma das mesas. Ele parecia chateado.
        Em pnico, Aria colocou o caf na mesa e saiu correndo em direo ao banheiro feminino. Uma de suas sandlias escapou de seu p. Enfiando-a de volta depressa, 
ela continuou correndo, mas terminou encurralada por uma parede de gente. Ela tentou abrir caminho a cotoveladas, mas ningum se mexeu.
        - Ei. - Sean estava bem do lado dela.
        - Ah - gritou Aria por sobre a msica, tentando agir normalmente. - Oi.
        Sean tomou Aria pelo brao e a levou para o estacionamento, que era o nico lugar vazio na Foxy. Sean pegou as chaves com o manobrista. Ele ajudou Aria a 
entrar no carro e dirigiu at um local deserto, um pouco mais abaixo da estrada.
        - O que est havendo com voc? - exigiu saber ele.
        - Nada. -Aria olhou pela janela. - Estou bem.
        - No, no est. Voc parece... um zumbi. Est me assustando.
        - Eu s... - Aria brincou com sua pulseira de prolas, rolando-a para cima e para baixo no brao. - Eu no sei. Eu no quero aborrecer voc.
        - Por qu?
        Ela deu de ombros.
        - Porque voc no quer ouvir isso.Voc deve pensar que eu sou completamente doida. Tipo, sinistramente obcecada pelos meus pais. Eu s consigo falar nisso.
        - Bem...  verdade. Mas... quer dizer...
        - Eu no ficaria zangada - interrompeu ela -, se voc quisesse ir danar com outras garotas e tudo.Tem umas garotas bem bonitas aqui.
        Sean piscou, o rosto plido.
        - Mas eu no quero danar com mais ningum.
        Eles ficaram quietos. Dava para ouvir a msica de Kanye West, "Gold Digger", vindo da tenda.
        -Voc est pensando em seus pais? - perguntou Sean, baixinho.
        Ela assentiu.
        - Acho que sim. Eu tenho que contar tudo para a minha me hoje.
        - Por que  que voc tem que contar a ela?
        - Porque... - Aria no podia contar a ele sobre A. - Tem que ser eu. Isso no pode continuar assim.
        Sean suspirou.
        -Voc coloca muita presso em si mesma. No d pra tirar uma noite de folga?
        No comeo, Aria ficou na defensiva, mas depois relaxou.
        - Eu realmente acho que voc deve voltar para l, Sean. Voc no devia me deixar estragar a sua noite.
        -Aria...- Sean deixou escapar um suspiro frustrado. - Pare com isso.
        Aria fez uma careta.
        - Eu s acho que a gente no vai dar certo.
        - Por qu?
        - Porque... - Ela fez uma pausa, tentando descobrir o que queria dizer. Porque ela no era a tpica garota de Rosewood? Porque o que quer que Sean admirasse 
nela, havia muito mais a respeito de sua pessoa para no admirar? Ela se sentia como algum daqueles remdios maravilhosos que so sempre anunciadas na TV O narrador 
l pargrafos e mais pargrafos sobre como o remdio ajuda milhes de pessoas, mas, bem no finalzinho do comercial, ele diz bem baixinho que os efeitos colaterais 
incluem palpitaes cardacas e diarreia. No caso dela, seria algo do tipo: Garota legal, inteligente... mas a histria familiar pode resultar em surtos psicticos 
e, de vez em quando, ela pode fungar bem na sua camisa cara.
        Sean ps a mo cuidadosamente sobre a de Aria.
        - Se voc est com medo de que eu tenha ficado assustado com a noite passada, est enganada. Eu gosto de voc de verdade. Acho que gosto ainda mais por causa 
da noite passada.
        Lgrimas encheram os olhos de Aria.
        - Srio?
        - Srio.
        Ele apertou a testa contra a dela. Aria prendeu a respirao. Finalmente, seus lbios se tocaram. E de novo. Com mais fora, desta vez.
        Aria apertou a boca contra a dele e segurou-o pela nuca, puxando-o para mais perto. O corpo dele era to quente e seguro. Sean correu as mos pela cintura 
de Aria. De repente, eles estavam mordendo os lbios um do outro, as mos subindo e descendo pelas costas um do outro. Ento, se separaram por um instante, com a 
respirao pesada e se olharam nos olhos.
        Eles se agarraram de novo. Sean puxou o zper do vestido de Aria. Ele tirou o palet e atirou-o no banco de trs, e ela atacou os botes da camisa dele. 
Ela beijou as lindas orelhas de Sean e enfiou as mos por dentro da camisa dele, arrastando-as pela pele macia. Ela envolveu a cintura dele com as mos da melhor 
forma possvel, o corpo em um ngulo estranho no banco apertado do Audi. Sean abaixou o banco do carro, levantou Aria e a apertou contra si. A espinha dela batia 
contra o volante.
        Ela arqueou o pescoo enquanto Sean beijava sua garganta. Quando Aria abriu os olhos, viu alguma coisa - um pedao de papel amarelo sob o limpador do para-brisas. 
Primeiro, pensou que fosse algum tipo de anncio - talvez, algum garoto fazendo propaganda de uma festa depois da Foxy -, mas, ento, notou as palavras grandes, 
arredondadas, escritas de forma descuidada com hidrocor preto.
        No esquea! Ao bater da meia-noite!
        Ela se afastou de Sean rapidamente. 
        - O que foi? - perguntou ele. 
        Ela apontou para a nota, as mos tremendo. 
        -Voc escreveu aquilo? - Era uma pergunta estpida. Ela j sabia a resposta.
28
NO   UMA FESTA 
SEM  HANNA MARIN
Assim que o txi parou no Kingman Hall, Hanna deu vinte pratas para o taxista, um cara velho e careca, que parecia ter um problema com suor.
        - Fique com o troco. - Ela bateu a porta do carro e correu para a entrada com o estmago embrulhado. Tinha comprado um pacote de Doritos na estao de trem, 
na Filadlfia, e comido o saquinho todo feito uma desvairada, em cinco minutos. Pssima escolha.
         sua direita, estava o balco de entrada da Foxy. Uma moa magra como um galgo, com cabelos loiros muito curtos e toneladas de delineador, estava pegando 
os ingressos e verificando os nomes num livro. Hanna hesitou. Ela no tinha ideia de onde colocara seu convite, mas se tentasse negociar sua entrada, iriam mand-la 
para casa. Focou os olhos na tenda da Foxy, que brilhou como um bolo de aniversrio. De jeito nenhum ela ia deixar Sean se livrar dessa. Ela ia entrar na Foxy, quer 
a Garota de Delineador gostasse ou no. Respirando fundo para tomar flego, Hanna correu em alta velocidade pelo balco de entrada.
        - Ei! - Ela ouviu a moa falar. - Espere!
        Hanna se escondeu atrs de uma coluna, o corao batendo acelerado. Um segurana musculoso, vestindo um smoking, passou correndo por ela, depois parou e 
olhou ao redor. Frustrado e confuso, ele deu de ombros e disse alguma coisa no radiocomunicador. Hanna sentiu certa satisfao. Entrar de penetra causou-lhe a mesma 
sensao de roubar algo.
        A Foxy era uma confuso de garotos e garotas. Ela no se lembrava de nenhum ano em que a festa tivesse estado to 10tada. A maioria das meninas na pista 
de dana tinha tirado os sapatos, segurando-os no ar enquanto rodopiavam. Havia uma multido igualmente enorme no bar, e mais jovens estavam amontoados numa fila 
do que parecia uma cabine de caraoqu. Pelas mesas arrumadas e vazias, eles ainda no tinham servido o jantar.
        Hanna agarrou o cotovelo de Amanda Williamson, estudante do ensino mdio de Rosewood Day, que sempre tentava lhe dar um oi nas festas. O rosto da menina 
se iluminou.
        - Oiii, Hanna!
        -Voc viu o Sean? - berrou Hanna.
        Um olhar de surpresa passou pelo rosto de Amanda; ento, ela deu de ombros.
        - No tenho certeza...
        Hanna continuou andando, seu corao dando cambalhotas. Talvez ele no estivesse ali. Mudou de direo, quase esbarrando num garom, que carregava uma enorme 
bandeja de queijo. Hanna agarrou um pedao enorme de cheddar e enfiou na boca. Engoliu sem sentir o gosto.
        -  Hanna! - gritou Naomi Zeigler, que usava um vestido dourado apertado e parecia ter acabado de sair de uma cmara de bronzeamento artificial.
        - Que legal! Voc est aqui! Eu pensei que voc tivesse dito que no vinha!
        Hanna franziu a testa. Naomi estava abraada a James Freed. Ela apontou para os dois.
        - Vocs dois vieram juntos? - Hanna tinha achado que talvez Naomi fosse a acompanhante de Sean.
        Naomi fez que sim. Ento, ela se inclinou para a frente.
        -Voc est procurando o Sean?
        Ela balanou a cabea, abismada.
        -  que todos tm comentado. Eu, sinceramente, no consigo acreditar nisso.
        O corao de Hanna bateu mais rpido.
        - Ento, o Sean est aqui?
        - , est aqui, sim. - James se esquivou, tirou do bolso do blazer uma garrafa de Coca-Cola, cheia de um lquido transparente com aparncia suspeita, e o 
despejou no seu suco de laranja. Ele tomou um gole e sorriu.
        - Quer dizer, eles so to diferentes. - Naomi admirou-se.
        - Voc disse que ainda so amigos, certo? Ele contou pra voc por que convidou a outra?
        - Para com isso - disse James para Naomi.
        - Ela  sexy.
        - Quem? - berrou Hanna. Por que todo mundo sabia o que estava rolando menos ela?
        -  Olha eles ali. - Naomi apontou para o outro lado do salo.
        Foi como se o mar de jovens se abrisse e um grande holofote os iluminasse do teto. Sean estava no canto perto do aparelho de caraoqu, abraado a uma moa 
alta, com um vestido de bolinhas preto e branco. Ele estava com a cabea enfiada no pescoo dela, e as mos dela estavam perigosamente perto do traseiro dele. Ento, 
a moa virou a cabea, e Hanna viu a elfa que ela conhecia muito bem - as caractersticas exticas, e aquele tpico cabelo negro azulado. Aria.
        Hanna gritou:
        - Ai, meu Deus, eu no acredito que voc no sabia. -Naomi colocou um dos braos ao redor do ombro de Hanna, para consol-la.
        Hanna balanou a cabea e saiu enfurecida pelo salo, bem na direo de Sean e Aria, que estavam se abraando. No danando, apenas se abraando. Que gente 
bizarra.
        Depois de Hanna ter ficado parada l por alguns segundos, Aria abriu um dos olhos, depois o outro. E soltou um pequeno suspiro.
        - Hum... oi, Hanna.
        Hanna ficou l parada, tremendo de raiva.
        - Sua... sua vadia.
        Sean entrou na frente de Aria, para defend-la.
        - Segura a onda...
        - Segura a onda? - A voz de Hanna desafinou por completo. Ela apontou para Sean. Estava to brava que seu dedo tremia. - Voc... voc disse que no viria 
porque todos os seus amigos trariam alguma garota, e voc no queria vir!
        Sean deu de ombros.
        - As coisas mudaram.
        As bochechas de Hanna estavam ardendo, como se ele tivesse dado um tapa nela.
        - Mas ns amos sair para um encontro esta semana!
        - Ns vamos jantar juntos esta semana - corrigiu Sean. -Como amigos. - Ele sorriu para Hanna, como se ela estivesse no jardim da infncia. - Ns terminamos 
sexta passada, Hanna. Lembra?
        Ela piscou.
        - E a voc fica com ela?.
        - Bem.... - Sean olhou para Aria. - Sim.
        Hanna abraou a prpria barriga, certa de que iria vomitar. Isso tinha de ser uma piada. Sean e Aria juntos fazia tanto sentido quanto uma garota gorda usar 
um jeans apertado.
        Ento, ela notou o vestido de Aria. O zper lateral estava aberto, mostrando metade de seu suti de renda tomara que caia.
        - Seu peito est escapando do vestido - grunhiu ela, apontando para o zper.
        Aria rapidamente olhou para baixo, cruzou os braos sobre o peito e fechou o zper do vestido.
        -  Onde voc conseguiu esse vestido, hein? - perguntou Hanna. - Na ponta de estoque da Luella?
        Aria endireitou as costas.
        - Na verdade, foi mesmo. Eu achei uma graa.
        - Meu Deus. - Hanna revirou os olhos. -Voc  uma pobre coitada. - Ela olhou para Sean. - De fato, eu acho que vocs dois tm isso em comum. Voc sabia que 
o Sean quer ficar virgem at os trinta anos, Aria? Ele deve ter tentado te passar a mo, mas no vai chegar at o fim. Ele fez uma promessa sagrada.
        - Hanna... - Sean tentou faz-la calar a boca.
        - Eu, pessoalmente, acho que ele  gay. O que voc acha?
        - Hanna... - Havia, ento, um tom de splica na voz de Sean.
        -  O qu? - desafiou-o Hanna. - Voc  um mentiroso, Sean. E um safado.
        Quando Hanna olhou ao redor, um grupo de jovens havia se juntado em torno deles. Aqueles que sempre eram convidados para as festas, aqueles que eram convidados 
de vez em quando. As garotas que no eram descoladas o suficiente, os garotos com excesso de peso, aceitos apenas por serem engraados, os garotos riquinhos que 
gastavam rios de dinheiro com todo mundo, pois eram bonitinhos, interessantes ou manipuladores. Todos estavam devorando avidamente a situao. Os murmrios j haviam 
comeado.
        Hanna deu uma ltima olhada em Sean, mas, em vez de dizer alguma coisa, foi embora.
        No banheiro feminino, ela encaminhou-se diretamente para a frente da fila. Como se estivesse saindo de uma barraca de feira, Hanna abriu caminho.
        -Vagabunda! - gritou algum, mas Hanna no se importou. 
        Uma vez que a porta se fechou, ela se inclinou e livrou-se do Doritos e de tudo o mais que havia contido aquela noite. Quando terminou, deu um suspiro.
        A expresso no rosto de todo mundo. De pena. E Hanna tinha chorado na frente das pessoas. Esta era uma das primeiras regras dela e de Mona, depois de terem 
se reinventado: nunca, de jeito nenhum, deixe algum ver voc chorar. E, mais do que isso, ela sentiu-se to ingnua. Realmente estava pensando que Sean voltaria 
para ela. Achou que, indo  clnica para pessoas com queimaduras e ao Clube da Virgindade, estivesse fazendo a diferena, mas o tempo todo... ele estava pensando 
em outra pessoa.
        Quando, finalmente, abriu a porta, o banheiro encontrava-se vazio. Estava to quieto que ela podia ouvir a gua pingando no mosaico de azulejos da pia. Hanna 
olhou-se no espelho, para ver se estava com uma aparncia muito ruim. Quando o fez, gritou.
        Uma Hanna muito diferente a encarou de volta. Essa Hanna era gorducha, com cabelos castanhos, cor de coc, e uma pele horrvel. Ela usava aparelho com elstico 
cor-de-rosa, e seus olhos estavam semicerrados por tentar focar o que via, pois no quis usar culos. O casaco marrom estava apertado em seus braos rolios, e a 
blusa estava enrugada na linha do suti.
        Hanna cobriu os olhos horrorizada.  A, ela pensou. A est fazendo isso comigo.
        Ento, pensou no recado de A: V  Foxy agora. Sean est l, com outra garota. Se A sabia que Sean estava na Foxy com outra garota, ento, isso significava 
que...
        A estava na Foxy.
        -Oi.
        Hanna deu um pulo e se virou. Mona estava parada na porta, linda num vestido preto colado que Hanna no reconheceu de nenhuma das expedies de compras que 
haviam feito juntas. O cabelo claro estava preso pra trs, e sua pele brilhava. Envergonhada - ela provavelmente tinha vmito no rosto -, Hanna cambaleou de volta 
 privada.
        - Espere. - Mona agarrou o brao dela.
        Quando Hanna se virou, Mona parecia realmente muito preocupada.
        - Naomi disse que voc no viria esta noite.
        Hanna deu uma olhada no espelho novamente. Seu reflexo mostrou a Hanna do segundo ano do ensino mdio, no a do ensino fundamental. Seus olhos estavam um 
pouco vermelhos, mas, no geral, parecia bem.
        -  o Sean, no ? - perguntou Mona. - Eu acabei de chegar e o vi com aquela garota. - Ela abaixou a cabea. - Sinto muito, Han.
        Hanna fechou os olhos.
        - Eu me sinto uma grande idiota - admitiu ela. 
        No. Ele  que .
        Elas se entreolharam. Hanna sentiu uma ponta de arrependimento. A amizade da Mona significava muito para ela, e ela estava deixando todo o restante entrar 
no caminho. Nem conseguia lembrar por que haviam brigado.
        - Eu sinto muito, Mon. Por tudo.
        - Me desculpe - disse Mona. 
        E elas se abraaram, bem forte.
        Spencer Hastings sapateou no piso de mrmore do banheiro e puxou Hanna do abrao.
        - Eu preciso falar com voc. 
        Hanna se desvencilhou, incomodada.
        - O qu? Por qu?
        Spencer deu uma olhada de travs para Mona.
        - No posso contar aqui.Voc precisa vir comigo.
        - Hanna no precisa ir a lugar nenhum. - Mona pegou no brao dela e a puxou para mais perto.
        - Desta vez, precisa sim - disse Spencer, aumentando o tom da voz. -  uma emergncia.
        Mona segurou firmemente o brao da Hanna. Ela tinha a mesma expresso de proibio do outro dia, no shopping - o olhar que dizia: se voc esconder mais um 
segredo de mim, eu juro que nossa amizade estar acabada. Mas Spencer parecia apavorada. Alguma coisa parecia errada. Muito errada.
        - Desculpe - disse Hanna, tocando a mo de Mona. - Eu j volto.
        Mona largou o brao dela.
        - Tudo bem. - Brava, ela foi em direo ao espelho para verificar a maquiagem. - Sem pressa.
29
BOTE TUDO PARA FORA
Sem pronunciar uma nica palavra, Spencer guiou Hanna para fora do banheiro, passando por um amontoado de jovens. Ento, ela notou Aria parada perto do bar, sozinha.
        -Voc vem tambm.
        Hanna largou a mo de Spencer.
        - Eu no vou a lugar nenhum com ela.
        - Hanna, voc disse para todo mundo que terminou com o Sean! - reclamou Aria. - Preciso ser mais clara?
        Hanna cruzou os braos sobre o peito.
        - No significa que era para voc vir aqui com ele. No significa que eu queria que voc o roubasse de mim.
        - Eu no estou roubando nada! - gritou Aria, levantando o punho.
        Por um segundo, Spencer ficou preocupada com a possibilidade de Aria tentar bater em Hanna e enfiou seu corpo entre as duas.
        -  Chega - disse ela. -Vamos parar com isso. Temos que achar a Emily.
        Antes que pudessem protestar, ela as arrastou pelas esculturas de gelo, pela fila do caraoqu e pela mesa do leilo de joias. Spencer tinha visto Emily no 
fazia nem vinte minutos, mas depois ela havia desaparecido. Ela tinha passado por Andrew, que estava sentado a uma mesa longa, iluminada por candelabros, junto com 
seus amigos. Ele a viu e, ento, se virou rapidamente de costas para o pessoal que o acompanhava e se esgoelou bem alto, dando uma risada falsa, obviamente fazendo 
alguma piadinha a respeito dela. Spencer sentiu uma ponta de remorso. Mas no podia lidar com Andrew naquele momento.
        Apertando mais as mos das meninas, ela andou a passos largos, passando pelas mesas, em direo ao terrao. Jovens estavam reunidos ao redor da fonte, molhando 
os ps descalos, mas nem sinal de Emily. Na esttua gigante de Pan, Hanna comeou a gemer.
        - Eu preciso voltar.
        -Voc no pode voltar ainda. - Spencer empurrou Aria e Hanna de volta  sala de jantar.
        - Isso  importante para todas ns. Temos que encontrar Emily.
        - Por que isso  to importante? - perguntou Hanna. - Quem liga para onde ela est?
        - Porque sim. - Spencer fez uma pausa. - Ela est aqui com Toby.
        - E? - perguntou Aria. 
        Spencer respirou bem fundo.
        - Eu acho que Toby pode tentar machuc-la. Acho que ele quer machucar todas ns.
        As meninas ficaram chocadas.
        - Por qu? - insistiu Aria, com as mos nos quadris.
        Spencer olhou para o cho. Seu estmago se apertou.
        - Eu acho que Toby  A.
        - O que a faz pensar isso? -Aria parecia zangada.
        - A me enviou uma mensagem - admitiu ela. - Dizendo que todas ns estvamos em perigo.
        -Voc recebeu uma mensagem? - esganiou Hanna. - Eu pensei que amos contar tudo umas para as outras!
        - Eu sei. - Spencer encarou os sapatos Louboutins pontudos, de salto. Dentro da tenda, alguns garotos estavam danando break num concurso. Noel Kahn estava 
tentando fazer um passo de dana chamado kickworm, e Mason Byers estava dando rodopiando sobre o traseiro. Aquela no deveria ser uma festa civilizada? - Eu no 
sabia o que fazer. Eu... na verdade recebi duas mensagens. A primeira dizia que seria melhor se eu no contasse pra vocs. Mas a segunda realmente soou como se fosse 
o Toby... e agora o ele est aqui com a Emily, e...
        - Espere, o primeiro recado dizia que ns estvamos encrencadas, e voc no fez nada? - perguntou Hanna. Ela no parecia exatamente zangada, apenas confusa.
        - Eu no estava certa de que era verdade - explicou Spencer. Ela passou uma das mos pelos cabelos. - Quer dizer, se eu soubesse...
        -  Sabe... eu tambm recebi uma mensagem - confessou Aria, calmamente.
        Spencer piscou para ela.
        - Recebeu? Era sobre o qu?
        - No... - Aria parecia estar medindo as palavras. - Spencer, por que voc estava na academia de ioga na sexta-feira?
        - Academia de ioga? - Spencer cerrou os olhos.- O que  que isso tem a ver com...?
        -  um pouco mais do que uma coincidncia - continuou Aria.
        - Do que voc est falando? - gritou Spencer. 
        Hanna as interrompeu.
        - Aria, seu recado era sobre o Sean?
        - No. - Aria se virou para Hanna e franziu as sobrancelhas.
        - Bem, que pena! - resmungou Hanna. - Eu tenho um recado de A tambm, e era sobre o Sean! Dizia que ele estava na Foxy com outra garota... voc!
        -Vocs, hein? - advertiu Spencer, no querendo entrar no assunto novamente. Ento, ela franziu as sobrancelhas. - Espere. Quando voc recebeu essa mensagem, 
Hanna?
        - Esta noite, um pouco mais cedo.
        - Ento, isso significa... -Aria apontou para Hanna. - Se o seu recado de A dizia que Sean estava na Foxy comigo, quer dizer que A nos viu. O que quer dizer...
        - Que A est na Foxy, eu sei - terminou Hanna, lanando um sorriso falso para Aria.
        O corao de Spencer deu um pulo. Estava mesmo acontecendo. A estava ali... e A era Toby.
        -Vamos. - Spencer as encaminhou para o longo e estreito corredor que levava  sala de leiles. Durante o dia, a sala era entulhada, decorada  maneira tpica 
da Filadlfia, com toneladas de mesinhas baixas, retratos a leo de homens ricos e mal-humorados, e o comum assoalho barulhento de madeira, mas,  noite, em cada 
mesa havia uma vela de aromoterapia, e os painis das paredes estavam decorados com luzes multicoloridas. Quando pararam embaixo de uma luz azul, as garotas ficaram 
parecendo cadveres.
        - Recapitule tudo para mim, Spencer - pediu Aria, lentamente. - Sua primeira mensagem dizia que voc no devia contar para ns. Mas no devia nos contar 
o qu? Que voc recebeu a mensagem? Que A  Toby?
        - No... - Spencer virou-se para encar-las de frente. - Eu no deveria contar para vocs o que eu sabia. Sobre A Coisa com Jenna.
        O terror apareceu nos rostos das meninas. L vamos ns, pensou Spencer. Ela respirou fundo.
        -A verdade  que... Toby viu quando Ali acendeu os fogos de artifcio. Ele sabe de tudo.
        Aria deu um passo para trs e trombou com a mesa. Uma pea de porcelana balanou e, ento, caiu, despedaando-se por todo o cho. Ningum se mexeu para limpar.
        -Voc est mentindo - sussurrou Hanna.
        - Antes fosse.
        - O que voc quer dizer? Toby viu? -A voz de Aria estava trmula. - Ali disse que ele no tinha visto.
        Spencer apertou as mos.
        - Ele me disse que viu. Para mim e para Ali. 
        As amigas piscaram para ela, embasbacadas.
        - Na noite em que Jenna se machucou, quando eu corri para fora para ver o que estava acontecendo, Toby veio at mim e Ali. Ele disse que viu Ali... acendendo. 
- A voz de Spencer estava trmula, ela tivera tantos pesadelos com aquele momento; era surreal estar revivendo aquilo. - Ali resolveu tomar uma atitude - continuou 
Spencer. - Ela disse ao Toby que o havia visto fazendo algo... horrvel.. e que ia contar para todo mundo. A nica maneira de evitar isso seria Toby concordar em 
levar a culpa. Antes de fugir, ele falou: Eu vou pegar voc. Mas, no dia seguinte, ele contou  polcia que havia acendido os fogos.
        Spencer passou a mo na nuca. Falar aquilo em voz alta a transportou diretamente para a noite da Coisa com Jenna. Ela podia sentir o cheiro de enxofre do 
rojo estourado e o odor da grama recm-aparada. Ela podia ver Ali, seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, usando os brincos de prola em formato de gota que 
ganhara de aniversrio. Ficou com lgrimas nos olhos.
        Ela engoliu em seco e prosseguiu.
        - A segunda mensagem que A me mandou dizia: Voc me magoou, ento, eu vou magoar voc tambm, e que iria aparecer quando ns menos esperssemos. Um policial 
foi at a minha casa esta manh e perguntou sobre Ali mais uma vez, e me ameaou, agindo como se eu soubesse de alguma coisa que .no deveria. Eu achei que Toby 
estava por trs disso. Agora ele est aqui com a Emily. Estou com medo de que possa machuc-la.
        Demorou um tempo para Aria e Hanna responderem. Finalmente, as mos de Aria comearam a tremer. Uma mancha vermelha subiu por seu pescoo at as bochechas.
        - Por que voc no nos contou antes? - gritou ela, incerta, para Spencer, procurando pelas palavras. - Quer dizer, teve aquela vez, no stimo ano, quando 
eu estive sozinha com o Toby, naquele lance de teatro! Ele podia ter me machucado... ou a todas ns... e se ele realmente machucou Ali, ns poderamos ter ajudado 
a salv-la!
        - Eu estou enjoada - gemeu Hanna, baixinho. 
        Lgrimas desceram pelo rosto de Spencer.
        - Eu queria contar a vocs, gente, mas estava apavorada.
        - O que Ali disse para chantagear Toby, para que ele no contasse o que viu? - perguntou Aria.
        -Ali no me falou - mentiu Spencer. Ela se sentia meio supersticiosa quanto a confessar o segredo de Toby, como se assim que contasse, um monte de raios 
fossem descer pelos cus... ou Toby aparecesse, de modo sobrenatural, depois de ouvir tudo. 
        Aria olhou para as prprias mos.
        - Toby sabe de tudo - repetiu ela.
        - E, agora, ele... est aqui - falou Spencer. - Ele est aqui. E ele  A.
        Aria agarrou o brao de Hanna. 
        -Vamos.
        -Aonde voc vai? - perguntou Spencer, nervosamente. Ela no queria Aria fora de sua vista. 
        Aria virou de volta.
        - Ns temos que encontrar Emily - disse, amarga. Ela levantou a barra do vestido e comeou a correr.
30
AS PLANTAES DE  MILHO
SO OS LUGARES MAIS
ASSUSTADORES DE ROSEWOOD
Emily tinha se enfiado num quartinho, no fundo do terrao do Kingman Hall, e estava calada, observando todos os fumantes da Foxy. As garotas nos vestidos claros 
bufantes; os garotos em seus ternos elegantes. Mas quem ela estava observando com mais ateno? Ela no estava certa. Cerrou os olhos com fora, ento, os abriu 
bem rpido, e a primeira pessoa que notou foi Tara Kelley, uma aluna do ltimo ano de Rosewood Day. Ela tinha cabelos ruivos, brilhantes, e uma linda pele clara. 
Emily rangeu os dentes e fechou os olhos novamente. Quando os abriu, viu Ori Case, o jogador de futebol gostoso. Um cara. L.
        Mas, ento, no pode deixar de notar os braos finos, parecidos com os de uma girafa, de Rachel Firestein. Chloe Davis fez uma cara sexy e insinuante para 
seu namorado, o Chad Fulano-de-tal, que fez sua boca ficar linda. Elle Carmichael fez um beicinho to bonito quanto. Emily sentiu o cheiro do perfume de Michael 
Kors - ela nunca tinha sentido nada to delicioso em sua vida. Com exceo de chiclete de banana.
        No podia ser verdade. No podia.
        - O que voc est fazendo?
        Toby estava parado, olhando para ela.
        - Eu... - gaguejou Emily.
        - Eu estava procurando por voc em todos os cantos.Voc est bem?
        Emily ponderou: estava se escondendo num cantinho de um terrao gelado, usando sua pashmina como uma capa de invisibilidade, e fazendo um perigoso jogo de 
esconde-esconde para testar se gostava de meninos ou meninas. Ela olhou para Toby. Queria explicar o que lhe acontecera. Com Ben, com Maya, com a cartomante - tudo.
        -Voc vai me odiar pelo que eu vou te pedir, mas... voc se importa se formos embora? 
        Toby sorriu.
        - Eu estava com esperana que voc pedisse isso. - Ele puxou Emily pelos pulsos.
        No caminho para a sada, Emily notou Spencer Hastings parada na beira da pista de dana. Spencer estava de costas para Emily, que pensou em ir at ela e 
dizer oi. Ento, Toby puxou sua mo, e ela decidiu no ir. Spencer poderia perguntar alguma coisa sobre A, e ela no estava a fim de falar nada sobre esse assunto 
naquele momento.
Quando o carro deixou o estacionamento, Emily abaixou o vidro da janela. A noite cheirava deliciosamente. A lua estava enorme e cheia, e algumas nuvens comeavam 
a chegar. Estava to quieto l fora, Emily podia ouvir os pneus do carro rolando no asfalto.
        -Voc est bem? - perguntou Toby.
        Emily deu um pulinho.
        - Sim, estou bem. - Ela deu uma olhada em Toby. Ele disse que ia comprar um terno novo para a festa e ela o estava fazendo ir para casa trs horas mais cedo.
        - Desculpe, a noite foi uma porcaria.
        - No tem problema - balbuciou Toby.
        Emily virou a pequena caixa da Tiffany que estava no seu colo. Ela pegou uma da mesa, antes de sair da tenda, pensando que tambm podia ter uma lembrancinha 
da festa.
        - Ento, tem certeza de que no aconteceu nada? - perguntou Toby. -Voc est to quieta.
        Emily assoprou. Ela viu passarem trs plantaes de milho antes de responder.
        - Uma cartomante veio falar comigo.
        Toby franziu as sobrancelhas, sem entender nada.
        - Ela s disse que alguma coisa ia me acontecer esta noite. Algo que ia mudar minha vida. - Emily tentou simular uma risada. Toby abriu a boca para falar 
alguma coisa, mas logo a fechou.
        - Acontece que acabou se tornando verdade - continuou Emily. - Eu esbarrei naquele cara, o Ben. Aquele que estava no corredor da Tank, que estava... voc 
sabe. De qualquer forma, ele tentou... eu no sei. Acho que ele tentou me machucar.
        -  O qu?
        - No tem problema. Eu estou bem. Ele s... - O queixo de Emily tremeu. - Eu no sei. Talvez eu tenha merecido.
        - Por qu? -Toby cerrou os dentes. - O que voc fez? 
        Emily segurou no lao branco da lembrancinha. Gotas de chuva comearam a cair no para-brisa. Ela tomou flego. Ia mesmo dizer aquilo em voz alta?
        - Ben e eu ramos namorados. Quando ainda estvamos juntos, ele me pegou beijando outra pessoa. Uma garota. Ele me chamou de lsbica e, quando tentei lhe 
dizer que eu no era nada disso, ele tentou me fazer provar. Dando um beijo nele e... essas coisas. Era isso que estava acontecendo no vestirio. 
        Toby se mexeu no assento, desconfortvel. 
        Emily acariciou a gardnia que ele lhe dera para prender no vestido.
        - O lance  que talvez eu seja lsbica. Quer dizer, eu realmente, tipo, amei a Alison DiLaurentis. Mas eu achei que s tivesse amado a Ali, no que eu fosse 
lsbica. Agora... agora, eu no sei. Talvez Ben esteja certo. Talvez eu seja homossexual. Talvez eu devesse simplesmente lidar com isso.
        Emily no conseguia acreditar que tudo isso tivesse sado de sua boca. Ela virou-se para Toby Sua boca estava esttica, uma linha impassvel. Ela achou que, 
se tivesse uma hora para ele admitir que havia sido namorado de Ali, seria aquela. Em vez disso, ele disse baixinho.
        - Por que voc est com tanto medo de admitir isso?
        - Porque sim! - Emily riu. No era bvio? - Porque eu no quero ser... voc sabe. Homossexual. - E a, numa voz baixinha: - Todo mundo vai rir da minha cara.
        Eles dirigiram at uma placa que indicava "pare", numa via de mo dupla, deserta. Em vez de parar e depois continuar, Toby desligou o carro. Emily estava 
intrigada.
        - O que ns vamos fazer?
        Toby tirou as mos da direo e encarou Emily por um longo tempo. To longo que ela comeou a se sentir esquisita. Ele parecia chateado. Ela ps a mo na 
nuca, ento, se virou e olhou pela janela. A rua estava silenciosa e morta, e, do outro lado, havia outra plantao de milho, uma das maiores de Rosewood. A chuva 
caa forte agora, e Toby no tinha ligado o limpador de para-brisa, ento tudo estava borrado. Ela desejou, inesperadamente, ver um pouco de civilizao. Um carro 
que passasse. Uma casa. Um posto de gasolina. Alguma coisa. Ser que Toby estava chateado porque gostava dela, e ela havia sido capaz de quase se assumir? Ser que 
Toby era homofbico? Era com isso que ela teria que lidar, se realmente achasse que era homossexual. As pessoas iam fazer aquilo todos os dias, pelo resto da sua 
vida.
        - Isso nunca chegou a acontecer, chegou? - disse Toby, quebrando o silncio. - Ningum nunca riu da sua cara.
        - N-No... - Ela tentou adivinhar o que significava a expresso de Toby, tentando entender a pergunta dele. -Acho que no. Bem, no antes de Ben, de qualquer 
forma.
        Ouviu-se o barulho de um trovo, e ela pulou. Ento, viu um raio riscando o cu, alguns quilmetros  frente deles. Tudo ficou iluminado por um instante, 
e Emily pde ver Toby franzindo as sobrancelhas, mexendo num dos botes do blazer.
        -Ver todas essas pessoas esta noite acabou me fazendo perceber como era difcil viver em Rosewood - disse ele. - A galera costumava me odiar de verdade. 
Mas, esta noite, todos foram to gentis... todas as pessoas que me sacaneavam. Foi revoltante. Como se nada nunca tivesse acontecido. - Ele franziu a testa. - Eles 
no percebem que so uns cretinos?
        - Acho que no. - Emily se sentia desconfortvel. 
        Toby olhou para ela.
        - Eu vi uma de suas antigas amigas l. Spencer Hastings. 
        Um relmpago caiu de novo, fazendo Emily pular. Toby deu um sorriso malvolo.
        -Vocs eram uma turma e tanto, antigamente. Aprontavam com todo mundo. Comigo... com minha irm...
        - No era de propsito - disse Emily, por instinto.
        - Emily. - Toby deu de ombros. - Por que no? Vocs eram as garotas mais populares da escola. Vocs podiam. - A voz dele era extremamente sarcstica.
        Emily tentou sorrir, com esperana de que aquilo fosse uma brincadeira. Mas Toby no sorriu de volta. Por que estavam falando sobre esse assunto? Eles no 
deveriam estar falando sobre o fato de Emily ser homossexual?
        -  Desculpe. Ns apenas... ramos to idiotas. Fazamos o que Ali queria que fizssemos. Quer dizer, eu achei que voc tivesse superado isso, j que voc 
e Ali ficaram juntos no ano seguinte.
        -  O qu? - interrompeu-a Toby de imediato.
        Emily encostou-se na janela. Seu peito queimava de tanta adrenalina.
        -Voc... voc no estava saindo com a Ali no, hum, stimo ano?
        Toby olhou para Emily, horrorizado.
        - Era difcil para mim at olhar para ela - confessou Toby baixinho. - Agora  difcil at mesmo ouvir o nome dela.
        Ele colocou as mos na testa e expirou longamente. Quando se virou para Emily novamente, seus olhos estavam escuros.
        - Especialmente depois... depois do que ela fez.
        Emily o encarou. Um relmpago rasgou o cu mais uma vez e o vento ficou mais forte, fazendo a plantao de milho balanar. As folhas pareciam mos, tentando 
desesperadamente alcanar alguma coisa.
        - Espera a, o qu? - Ela riu, na expectativa, rezando para que tivesse entendido tudo errado. Apostando que, se ela piscasse, a noite ia se endireitar e 
voltar ao normal.
        - Acho que voc me ouviu - disse Toby, num tom seco, sem emoo. - Eu sei que vocs eram amigas, e que voc a amava e coisa e tal, mas, pessoalmente, estou 
feliz que aquela vagabunda esteja morta.
        Emily sentiu como se algo tivesse sugado todo o oxignio de seu corpo. Alguma coisa vai acontecer com voc esta noite. Algo que vai mudar sua vida.
        Vocs aprontavam com todo mundo. Comigo... com minha irm...
         difcil para mim at mesmo ouvir o nome dela. Especialmente depois do que ela fez...
        DEPOIS DO QUE ELA FEZ.
        Estou feliz que aquela vagabunda esteja morta.
        Toby... sabia?
        Uma ideia comeava a se formar no crebro de Emily. Toby realmente sabia. Ela estava certa disso, mais certa do que jamais estivera em toda sua vida. Emily 
sentiu como se sempre soubesse disso, como se isso sempre estivesse bem na sua cara, embora ela tentasse ignorar. Toby sabia o que elas tinham feito com Jenna, mas 
A no tinha contado para ele. Toby j sabia havia muito tempo. E ele devia ter odiado Ali por causa disso. E teria odiado todas elas se soubesse que estavam envolvidas.
        - Ai, meu Deus - sussurrou Emily.
        Ela puxou a maaneta da porta, segurando a saia com as mos, ao sair do carro. A chuva a pegou imediatamente e os pingos pareciam agulhas. Claro que havia 
alguma coisa suspeita sobre Toby sendo to amistoso com ela. Ele queria arruinar a vida de Emily.
        -  Emily? - Toby desatou o cinto de segurana. - Onde voc...
        Ento, ela ouviu o motor rugir. Toby estava dirigindo estrada abaixo, na sua direo, com a porta do passageiro aberta. Ela olhou para a direita e para a 
esquerda, e, ento, esperando que soubesse onde estava, entrou na plantao de milho, no se importando de estar ensopada.
        - Emily! - chamou Toby de novo. Mas Emily continuou correndo.
        Toby tinha matado Ali. Toby era A.
31
COMO SE  HANNA FOSSE ROUBAR
UM AVIO...  ELA NEM SABIA PILOTAR!
Hanna abriu caminho pela multido de jovens, na esperana de ver os conhecidos cabelos loiro-avermelhados de Emily. Ela achou Spencer e Aria perto das janelas enormes, 
conversando com Gemma Curran, colega de Emily na equipe de natao.
        - Ela estava com aquele cara da Tate, no ? - Gemma mordeu o lbio e tentou pensar. - Tenho quase certeza de que os vi saindo.
        Hanna trocou olhares nervosos com as amigas.
        -  O que ns vamos fazer? - sussurrou Spencer. - No temos a menor ideia de para onde eles foram.
        - Eu tentei ligar para ela - informou Aria. - Mas o celular s chama e ningum atende.
        - Ai, meu Deus. - Os olhos de Spencer comeavam a se encher de lgrimas.
        - Bem, o que voc esperava? - falou Aria, por entre os dentes. - Foi voc quem deixou isso acontecer.
        - Eu sei - repetiu Spencer. - Desculpem.
        Um estrondo as interrompeu. Todos olharam para fora, para ver as rvores balanando de lado e a chuva torrencial caindo.
        - Droga. - Hanna ouviu uma menina perto dela xingando. -Vai estragar todo o meu vestido.
        Hanna encarou as amigas.
        - Eu sei de algum que pode nos ajudar. Um policial. 
        Ela olhou em volta, meio que esperando ver o policial Wilden - o cara que tinha prendido Hanna por roubar uma pulseira da Tiffany e o carro do sr. Ackard, 
e que a livrara dessas encrencas - na Foxy naquela noite. Mas os caras de guarda nas sadas e no leilo de joias eram da equipe de seguranas particulares da Liga 
de Caa  Raposa - s no caso de alguma coisa devastadora acontecer, eles chamariam a polcia. No ano anterior, um aluno do ensino mdio bebeu demais e fugiu com 
um David Yurman que estava para ser leiloado, e, mesmo assim, tudo o que tinham feito foi deixar uma mensagem discreta na secretria eletrnica da famlia do garoto, 
dizendo que gostariam de ter o item de volta no dia seguinte.
        - Ns no podemos ir at a polcia - gritou Spencer. - Do jeito que aquele policial agiu comigo esta manh, eu no me surpreenderia se eles achassem que 
ns matamos a Ali.
        Hanna olhou para o lustre de cristal no teto. Uma dupla de garotos estava jogando guardanapos nele, tentando fazer os cristais balanarem.
        - Mas, quer dizer, sua mensagem dizia basicamente: Eu vou magoar voc, certo? Isso no  suficiente?
        - Est assinado A. E diz que ns o magoamos. Como vamos explicar isso?
        - Mas como faremos para ter certeza de que Emily est bem? - perguntou Aria, puxando para cima seu vestido de bolinhas. Hanna notou, amargamente, que o zper 
ainda estava meio aberto.
        - Talvez devssemos ir at a casa dela - sugeriu Spencer.
        - Sean e eu poderamos ir agora mesmo - ofereceu-se Aria. 
        Hanna ficou boquiaberta.
        -Voc vai contar para ele?
        - No - gritou Aria, por cima dos berros de Natasha Bedingfield e da chuva torrencial.
        Hanna pde at ver a claraboia do salo embaando, nove metros acima de suas cabeas.
        - Eu no vou contar nada a ele. Nem sei como explicar isso. Mas ele no vai saber.
        - Ento, voc e o Sean vo para alguma after-party? - intrometeu-se Hanna.
        Aria olhou para ela com uma expresso enlouquecida.
        - Voc acha que eu iria para algum lugar depois da festa com tudo isso acontecendo?
        - Tudo bem, mas se no tivesse acontecido, voc teria ido?
        - Hanna. - Spencer colocou a mo fria e fina no ombro dela. - Deixa pra l.
        Hanna rangeu os dentes, pegou um copo de champanhe da bandeja do garom e entornou. Ela no podia deixar pra l. No era possvel.
        - Voc d uma olhada na casa da Emily - falou Spencer para Aria. - Eu vou continuar ligando pra ela.
        - E se ns formos de carro at a casa da Emily e o Toby estiver com ela? - perguntou Aria. - Ns o confrontamos? Quer dizer... se ele for A...?
        Hanna trocou olhares apreensivos com as outras. Ela queria dar um p na bunda do Toby - como ele tinha descoberto sobre a Kate? Seu pai? Suas prises? Que 
Sean tinha terminado com ela e que ela enfiara o dedo na garganta para vomitar? Como  que ele se atrevia a tentar a acabar com ela?! Mas ela tambm estava com medo. 
Se Toby era A - se ele sabia - ento realmente ia querer machuc-las. Fazia... sentido.
        - Ns deveramos nos concentrar apenas em ter certeza de que Emily est bem - falou Spencer. - O que vocs acham de, caso no tenhamos notcias dela logo, 
ligarmos pra polcia e fazer uma denncia annima? Poderamos dizer que vimos o Toby machucando Emily. Ns no teramos que dar detalhes.
        - Se o policial vier procurar por Toby, ele saber que fomos ns - argumentou Hanna. - Alm do mais, e se ele contar sobre a Jenna?
        Ela podia se ver numa instituio para menores infratores, usando um macaco laranja e conversando com o pai atravs de uma parede de vidro.
        - Ou o que faremos se ele vier atrs da gente? - quis saber Aria.
        -Vamos ter que ach-la antes que isso acontea - interrompeu Spencer.
        Hanna olhou o relgio. Dez e meia.
        - Estou fora. - Ela marchou em direo  porta. - Eu ligo pra voc, Spencer. - No disse nada a Aria. Ela nem podia olhar para Aria. Ou para o enorme chupo 
em seu pescoo.
        Ao sair, Naomi Zeigler segurou sua mo.
        - Han, sobre aquilo que voc me disse ontem, no jogo de futebol. - Ela tinha aquele olhar de simpatia de uma apresentadora de televiso. - Existem grupos 
de apoio para bulmicos. Eu posso ajudar voc a achar um.
        - D o fora - disse Hanna e passou esbarrando nela.
Quando despencou no vago, completamente encharcada de ter corrido do txi para o trem, sua cabea estava pesada. Em cada reflexo, uma nebulosa quimera de si mesma 
no stimo ano aparecia de volta. Ela fechou os olhos.
        Quando os abriu novamente, o trem tinha quebrado.Todas as luzes estavam apagadas, exceto pelos sinais de sada de emergncia que brilhavam no escuro. S 
que eles no diziam mais SADA. Diziam: VEJA ISTO.
         sua esquerda, Hanna viu quilmetros de florestas. A lua brilhava, cheia e clara, acima da copa das rvores. Mas no tinha cado uma tempestade, minutos 
atrs? O trem estava paralelo  Estrada Trinta. A rodovia, normalmente, estaria abarrotada pelo trnsito, mas, naquele momento, no havia um carro sequer aguardando 
no cruzamento. Ao virar a cabea para o corredor, para ver como os outros estavam reagindo  quebra do trem, notou que todos os passageiros estavam dormindo.
        - Eles no esto dormindo - falou uma voz. - Esto mortos. 
        Hanna pulou. Era Toby. O rosto dele estava borrado, mas ela sabia que era ele. Vagarosamente, ele levantou de seu assento e caminhou em direo a ela.
        O trem apitou, e Hanna acordou com o susto. As luzes fluorescentes eram brilhantes e nada convidativas, como sempre. O trem bufou em direo  cidade; e, 
do lado de fora, relmpagos estalavam e danavam. Quando olhou pela janela, viu um galho de rvore rachar e se espatifar no cho. Duas senhoras de cabelo branco, 
no banco imediatamente em frente, continuaram comentando sobre os raios, dizendo:
        - Ai, Senhor! Esse foi dos grandes!
        Hanna ps os ps em cima do assento, os joelhos perto do peito. Nada como uma confisso avassaladora a respeito de Toby Cavanaugh para chacoalhar seu mundo. 
E deix-la paranoica.
        Ela no estava certa sobre como encarar as novidades. No reagia s coisas imediatamente, como Aria; tinha de digeri-las por inteiro. Estava chateada com 
Spencer por no ter lhe contado nada, sim. E apavorada por causa de Toby. Mas, naquele momento, seus pensamentos insuportveis giravam em torno de Jenna. Ela sabia, 
tambm? Soubera o tempo todo? Saberia que Toby tinha matado Ali?
        Hanna tinha visto Jenna depois do acidente - apenas uma vez - e nunca contou s outras. Foi algumas semanas antes de Ali desaparecer, e ela tinha dado uma 
festa improvisada em sua casa. Todos os alunos mais populares de Rosewood Day compareceram - at mesmo algumas garotas mais velhas do time de Ali de hquei na grama. 
Pela primeira vez, Hanna teve uma conversa de verdade com Sean; eles falaram sobre Gladiador. Hanna comentou sobre quo assustador o filme era, quando Ali chegou, 
de mansinho, ao lado deles.
        Primeiramente, Ali olhou para Hanna como quem dizia: Viva! Voc finalmente est falando com ele! Mas a, quando Hanna disse: "Quando meu pai e eu samos 
do cinema, ai, meu Deus, estava to apavorada que fui direto pro banheiro e vomitei", Ali cutucou Hanna de leve.
        - Voc tem tido alguns problemas com isso ultimamente, no tem? - brincou ela.
        Hanna empalideceu.
        - O qu? -Aquilo tinha sido pouco tempo depois do lance de Annapolis.
        Ali fez questo de atrair a ateno de Sean.
        - Esta  a Hanna. - Ela enfiou um dedo na garganta, fingiu engasgar e depois soltou uma gargalhada.
        Sean no riu, entretanto. Olhou para as duas, alternadamente, parecendo desconfortvel e confuso.
        - Eu, hum, tenho que... - Ele se calou e saiu de fininho, em direo aos seus amigos.
        Hanna virou-se para Ali, horrorizada.
        - Por que voc fez isso?
        - Ai, Hanna! - Ali se virou para ir embora. -Voc no aguenta uma brincadeira?
        Mas Hanna no aguentava. No sobre isso. Ela foi pisando duro para o outro lado da varanda da casa de Ali, brava, sua respirao audvel. Quando olhou para 
cima, se viu encarando Jenna Cavanaugh.
        Jenna estava parada nos limites da propriedade de sua famlia, usando grandes culos escuros e segurando uma bengala branca. Hanna ficou com um n na garganta. 
Era como ver um fantasma. Ela ficou realmente cega, pensou Hanna. Ela meio que achava que aquilo no tivesse acontecido de verdade.
        Jenna estava completamente imvel no meio-fio. Se ela pudesse ver, estaria olhando para o enorme buraco na lateral do jardim de Ali, que eles estavam cavando 
para construir um caramancho que abrigaria uma mesa de vinte lugares - o exato lugar onde, anos depois, os trabalhadores encontrariam o corpo da Ali. Hanna a encarou 
por um longo tempo, e Jenna a encarou de volta, sem expresso. Foi ento que lhe ocorreu. Naquela poca, com o Sean, Hanna havia tomado o lugar de Jenna, e Ali tinha 
tomado o de Hanna. No havia razo para ela provocar Hanna, seno o fato de que ela podia. A percepo do acontecido a pegou to de surpresa que ela teve de segurar 
no corrimo para no perder o equilbrio.
        Ela olhou para Jenna mais uma vez. Desculpe, falou, apenas movendo os lbios. Jenna, obviamente, no respondeu. Ela no podia ver.
        Hanna nunca ficara to feliz por ver as luzes da Filadlfia _ finalmente estava longe de Rosewood e de Toby. Ainda tinha tempo de voltar para o hotel antes 
que o pai, Isabel e Kate retornassem de Mamma Mia! e, talvez, pudesse tomar um banho de espuma. Provavelmente, tambm haveria algo bom no frigobar. Algo forte. Talvez 
ela at contasse para Kate o que tinha acontecido, e elas pediriam servio de quarto e tomariam alguma coisa juntas.
        Nossa! Esse era um pensamento que Hanna nunca imaginou que pudesse passar por sua cabea.
        Ela encaixou o carto na porta do quarto, abriu-a, despencou para dentro e... quase trombou no pai. Ele estava parado em frente  porta, falando ao telefone 
celular.
        -Ah! - gritou ela.
        O pai se virou.
        - Ela est aqui - falou ele ao telefone, e desligou. Olhou friamente para Hanna. - Bom, bem-vinda de volta.
        Hanna piscou. Diante do pai estavam Kate e Isabel. Simplesmente... sentadas l, no sof, lendo as revistas de turismo da Filadlfia que colocam no quarto.
        - Oi - disse ela, com cuidado. Todos estavam olhando para ela. - Kate contou pra vocs? Eu tive que...
        - Ir  Foxy? - interrompeu Isabel.
        Hanna ficou boquiaberta. Outro claro de relmpago do lado de fora a fez pular. Ela se virou desesperada para Kate, que estava com as mos orgulhosamente 
dobradas no colo e a cabea inclinada para o alto. Ela tinha... ela tinha contado? Sua expresso indicava que sim.
Hanna         sentiu como se o mundo estivesse desabando em sua cabea.
        - Foi... foi uma emergncia.
        - Tenho certeza de que foi. Eu nem acredito que voc est de volta. Ns pensamos que voc fosse varar a noite... roubar outro carro, talvez. Ou... ou, quem 
sabe? Roubar o avio de algum? Assassinar o presidente?
        - Pai... - suplicou Hanna.
        Ela nunca havia visto o pai daquele jeito. Sua camisa estava para fora da cala, as meias no estavam completamente esticadas e havia uma mancha atrs de 
sua orelha. E estava enlouquecido. Ele no costumava gritar daquele jeito.
        - Eu posso explicar.
        O pai apertou as mos contra a prpria testa.
        - Hanna... voc pode explicar isto tambm? - Ele procurou algo no bolso. Lentamente, abriu os dedos, um por um. Dentro, havia um pacote de Percocet. Lacrado.
        Quando Hanna tentou alcan-lo, ele fechou a mo em concha.
        - No, voc no vai pegar. 
        Hanna apontou para Kate.
        - Ela pegou isso de mim. Ela queria o pacote para ela. 
        -Voc me deu - disse Kate, da mesma forma. Ela ostentava aquele conhecido olhar de te peguei, um olhar que dizia: no pense que voc est conseguindo dar 
um jeitinho de entrar em nossas vidas. Hanna odiou a si mesma por ter sido to burra. Kate no tinha mudado. Nem um pouquinho.
        - Para que voc est usando estes comprimidos, em primeiro lugar? - perguntou o pai. Ento, levantou as mos. - No. Esquea. Eu no quero saber. Eu... - 
Ele cerrou os olhos. - Eu no sei mais quem voc , Hanna. Eu realmente no sei. 
        Hanna no conseguiu se conter.
        - Bem,  claro que no! - gritou ela. -Voc nem sequer se preocupou em falar comigo por quase quatro anos!
        Um silncio pairou sobre o quarto. Todos estavam com medo de se mexer. As mos de Kate estavam apoiadas na revista. Isabel ficou esttica, um dos dedos estranhamente 
parado no lbulo da orelha. O pai abriu a boca para falar, mas depois a fechou de novo.
        Algum bateu  porta, e todos pularam.
        A sra. Marin estava do outro lado, parecendo toda desarrumada: o cabelo estava molhado e esfiapado, ela no estava muito maquiada e vestia simplesmente camiseta 
e uma cala jeans, muito diferente dos terninhos que normalmente usava para ir trabalhar.
        -Voc vem comigo. - Ela semicerrou os olhos ao olhar para Hanna, mas nem olhou para Kate e Isabel. Hanna estava imaginando rapidamente se aquela era a primeira 
vez que todos se encontravam. Quando a me viu o Percocet na mo do sr. Marin, empalideceu.
        - Ele me contou sobre aquilo enquanto eu estava vindo. 
        Hanna olhou sobre os ombros para o pai, mas ele tinha abaixado a cabea. Ele no parecia exatamente desapontado. Apenas parecia... triste. Sem esperana. 
Envergonhado.
        - Pai... - grunhiu ela, desesperada, deixando a me para trs. - Eu no tenho que ir, tenho? Pensei que voc quisesse saber.
        -Tarde demais - disse ele, automaticamente. -Voc vai para casa com sua me. Talvez ela possa botar algum juzo na sua cabea.
        Hanna teve que rir.
        -Voc acha que ela vai botar juzo na minha cabea? Ela est... est indo pra cama com o policial que me prendeu na semana passada.  conhecida por chegar 
em casa s duas da manh durante a semana. Se eu fico doente e tenho que ficar em casa, diz que no tem problema ligar pra secretaria da escola e fingir que sou 
ela, pois est muito ocupada, e...
        - Hanna - gritou a me, agarrando o seu brao.
        A cabea de Hanna estava to confusa. Ela no sabia se contar aquelas coisas para o pai a estava ajudando ou machucando. Simplesmente se sentia vitimada. 
Por todos. Estava cansada das pessoas passando por cima dela.
        -Tem tantas coisas que eu queria contar pra voc, mas no posso. Por favor, me deixe ficar. Por favor.
        A nica coisa que se mexia no rosto do pai dela era um pequeno msculo, em cima do pescoo. De resto, seu rosto continuava imvel e impassvel. Ele deu um 
passo para perto de Isabel e Kate. Isabel segurou a mo dele.
        - Boa-noite, Ashley - disse ele para a me de Hanna. Para Hanna, no disse absolutamente nada.
32
EMILY NA LINHA DE  DEFESA
Emily suspirou aliviada quando descobriu que a porta lateral de sua casa estava aberta. Jogou o corpo encharcado dentro da lavanderia, quase se debulhando em lgrimas 
pela isolada e descomplicada domesticidade de tudo: a baguna abenoada de sua me! Ponto cruz em cima da lavadora; a fila bem-organizada de sabo em p, alvejante 
e amaciante na prateleira, as galochas verdes de borracha que o pai usava para trabalhar no jardim perto da porta.
        O telefone tocou, soando como um grito. Emily apanhou uma toalha da pilha de roupa suja, enrolou-a em volta dos ombros e, cedendo  tentao, pegou a extenso 
sem fio do telefone.
        -Al? -At o som de sua prpria voz pareceu assustador.
        - Emily? - Era uma voz sria e familiar do outro lado da linha.
        Emily franziu as sobrancelhas.
        - Spencer?
        - Ai, meu Deus - sussurrou Spencer. - Ns estvamos procurando por voc. Voc est bem?
        - Eu... eu no sei - respondeu Emily, tremendo.
        Ela havia corrido loucamente pela plantao de milho. A chuva tinha feito rios de lama entre as fileiras. Um de seus sapatos havia sado do p, mas ela continuou 
andando e, naquele momento, a parte de trs do vestido e suas pernas estavam imundas. O fundo da plantao dava no bosque atrs de sua casa, e ela tambm tinha atravessado 
a pequena extenso de floresta. Escorregou duas vezes na grama molhada, ralando o cotovelo e o quadril e, em algum momento, um raio caiu numa rvore a seis metros 
dela, jogando galhos no cho com violncia. Ela sabia que era perigoso ficar ali fora no meio de uma tempestade, mas no podia parar, com medo de que Toby estivesse 
bem atrs dela.
        - Emily, fique onde est - instruiu Spencer. - E fique longe do Toby. Eu explico tudo depois, mas, por agora, apenas tranque a porta e...
        - Eu acho que o Toby  A - interrompeu Emily, sua voz, um sussurro arranhado e trmulo. - E acho que ele matou Ali.
        Houve uma pausa.
        - Eu sei. Eu tambm acho.
        -  O qu? - gritou Emily.
        Um claro de relmpago iluminou o cu, fazendo Emily encolher-se. Spencer no respondeu. A linha estava muda.
        Emily colocou o telefone em cima da secadora. Spencer sabia? Isso fez a revelao de Emily ainda mais real - e muito, muito mais assustadora.
        Ento, ela ouviu uma voz:
        - Emily! Emily?
        Ela congelou. Soava como se estivesse vindo da cozinha. Ela voou pra l e viu Toby olhando pra dentro, as mos contra a porta de vidro. A chuva havia encharcado 
seu terno e emplastrado seu cabelo, e ele estava tremendo. Seu rosto estava na sombra.
        Emily gritou.
        - Emily! - chamou Toby novamente. Ele virou a maaneta, mas Emily rapidamente trancou-a.
        -V embora! - gritou ela. Ele podia... podia queimar a casa toda. Entrar. Sufocar Emily enquanto ela dormia. Se ele pde matar Ali, era capaz de qualquer 
coisa.
        - Estou todo ensopado - falou Toby. - Me deixa entrar.
        - Eu... Eu no posso falar com voc. Por favor, Toby, por favor. Apenas me deixe em paz.
        - Por que voc fugiu de mim? - Toby olhava para dentro da casa, confuso. Ele tambm estava gritando, pois a chuva estava muito forte. - Eu no estou certo 
do que aconteceu l no carro. Eu fiquei apenas... simplesmente fiquei meio confuso ao ver toda aquela gente. Mas isso foi h muitos anos. Desculpe.
        A suavidade da voz dele tornou tudo muito pior. Ele tentou a maaneta de novo, e Emily gritou:
        -No!
        Toby parou, e Emily comeou a procurar por algo que pudesse usar como arma. Um prato de frango pesado de cermica. Uma faca de cozinha cega.Talvez ela pudesse 
caar a chapa dentro do armrio...
        - Por favor.
        Emily estava tremendo muito, suas pernas estavam bambas.
        - Apenas v embora.
        - Pelo menos me deixe entregar sua bolsa. Est no meu carro.
        - Pode pr na caixa do correio.
        - Emily, no seja ridcula. -Toby comeou a bater na porta, nervosamente. -Venha aqui agora e me deixe entrar!
        Emily pegou a pesada travessa de frango da mesa da cozinha. Ela a segurou diante de si como um escudo.
        -V embora!
        Toby tirou o cabelo molhado do rosto.
        -As coisas que eu disse no carro... saiu tudo errado. Desculpe se falei algo que...
        -Tarde demais - interrompeu-o Emily. Ela fechou os olhos, apertando-os bem. Tudo que queria era abri-los novamente e que tudo fosse apenas um sonho.
        - Eu sei o que voc fez com ela. 
        Toby endureceu.
        - Espere a. O qu?
        -Voc me ouviu - disse Emily.- Eu... sei... o... que... voc... fez... com... ela.
        Toby ficou boquiaberto. A chuva caa mais forte, fazendo com que os olhos dele parecessem buracos vazios.
        -  Como voc poderia saber disso? - Sua voz trmula. -Ningum... ningum sabia. Foi... foi h muito tempo, Emily.
        Emily ficou boquiaberta. Como assim? Ele pensava que era to esperto que sairia ileso daquela?
        - Acho que seu segredo vazou.
        Toby comeou a andar para l e para c do lado de fora da casa de Emily, passando os dedos pelo cabelo.
        - Mas, Emily, voc no entende, eu era muito jovem. E... e confuso. Eu gostaria de no ter feito aquilo...
        Emily sentiu um enorme remorso. Ela no queria que Toby fosse o assassino de Ali. O jeito meigo com que ele a havia ajudado a sair do carro, como ele a tinha 
defendido na frente do Ben, quo perdido e vulnervel ele tinha parecido quando ela botou os olhos nele, parado sozinho na pista de dana da Foxy. Talvez ele realmente 
estivesse arrependido do que fizera. Talvez estivesse apenas confuso.
                Mas a Emily se lembrou da noite em que Ali desapareceu. Estava to bonito l fora, o incio perfeito para o que seria um vero perfeito. Elas tinham 
planejado ir pra Jersey Shore no final de semana seguinte, tinham ingressos para ir ao show do No Doubt em julho, e Ali ia dar uma enorme festa para comemorar seus 
treze anos em agosto. Foi tudo por gua abaixo no instante em que Ali entrou no celeiro da famlia de Spencer.
Toby deve ter entrado por trs. Talvez tenha batido nela com alguma coisa. Talvez tenha dito coisas para ela. Quando ele a jogou no buraco, ele deve ter... coberto 
ali com terra para que ningum a encontrasse. Ser que foi assim que aconteceu? E depois que Toby a machucou, teria pego sua bicicleta, pedalado para casa e se escondido? 
Ele teria assistido a todo o mundo lendo o jornal, com um balde de pipoca de micro-ondas no colo, como se fosse um filme da HBO?
        Estou feliz que aquela vagabunda esteja morta. Emily nunca tinha ouvido nada to horrvel em sua vida.
        - Por favor! - gritou Toby. - Eu no consigo passar por tudo isso de novo. E nem a...
        Ele nem sequer conseguiu terminar a frase. Ento, de repente, cobriu o rosto com as mos e correu para ir embora, de volta ao bosque, no quintal da casa 
dela.
        Tudo ficou quieto. Emily olhou ao redor. A cozinha estava impecvel - os pais tinham ido passar o final de semana em Pittsburgh para visitar a av, e sua 
me sempre fazia uma limpeza manaca antes de partir. Carolyn ainda estava fora, com Topher.
        Emily estava completamente sozinha.
        Ela correu para a porta da frente. Estava trancada, mas ela passou o trinco para se sentir mais protegida.Torceu o cadeado para checar se estava de fato 
fechado. Ento, se lembrou da porta da garagem: o controle estava quebrado, e o pai ainda no tinha consertado. Algum forte o suficiente poderia levantar a porta 
da garagem sozinho.
        E a ela se deu conta. Toby estava com sua bolsa. O que significava que... ele estava com suas chaves.
        Ela pegou o telefone na sala e ligou para a polcia. Mas no ouviu nenhum rudo no fone. Ela desligou e esperou pelo sinal, mas no havia nenhum. Emily sentiu 
os joelhos amolecerem.A tempestade devia ter danificado as linhas telefnicas.
        Ela ficou congelada no corredor por alguns instantes, com o queixo tremendo. Ser que Toby arrastara Ali pelos cabelos? Ser que ela estava viva quando ele 
a jogou naquele buraco?
        Ela correu para a garagem e olhou ao redor. No canto, estava seu velho taco de beisebol. Pareceu muito forte e pesado em suas mos. Satisfeita, deslizou 
para fora, na varanda da frente, trancou a porta atrs de si com as chaves reserva da cozinha, e sentou gentilmente no balano da varanda, na sombra, com o taco 
no colo. Estava muito frio l fora, e ela podia ver uma aranha gigantesca fazendo uma teia no outro canto da varanda. Aranhas sempre a haviam apavorado, mas tinha 
de ser forte. No deixaria Toby machuc-la tambm.
33
QUEM   A IRM
DESOBEDIENTE AGORA?
Na manh seguinte, Spencer voltou para o quarto depois de tomar um banho e notou que a janela estava aberta, toda aberta mesmo, erguida uns sessenta centmetros. 
As cortinas balanavam com o vento.
        Ela correu at a janela, com um n na garganta. Embora tivesse se acalmado depois de ter conseguido falar com Emily na noite anterior, isso era esquisito. 
Os Hastings nunca abriam os vidros, pois mariposas poderiam entrar e estragar os tapetes carssimos. Ela fechou a janela. Muito nervosa, verificou embaixo da cama 
e no guarda-roupa. No havia ningum.
        Quando o Sidekick tocou, ela quase pulou para fora das calas do pijama de seda. Achou o telefone enterrado no vestido que usou na Foxy, ela o havia tirado 
na noite passada e deixado numa pilha no cho - algo que a velha Spencer Hastings nunca teria feito. Era um e-mail do Lula Molusco.
        Cara Spencer, obrigado por entregar as questes do seu 
        trabalho adiantadas. Eu li e estou muito contente. Vejo 
        voc na segunda. -Sr. McAdam
        Spencer pulou de volta na cama, seu corao batia, lentamente, mas com fora.
        Pela janela do quarto, ela podia ver um dia lindo, um delicioso domingo de setembro. O cheiro das mas pairava no ar. Sua me, usando um chapu de palha 
e calas jeans com as barras dobradas, caminhava para o fundo do quintal com o tesouro para podar os arbustos.
        Ela no conseguia lidar com isso... com toda a calmaria. Pegou o celular e apertou a discagem rpida para o nmero de Wren. Talvez eles pudessem se encontrar 
mais cedo. Ela precisava se livrar de Rosewood. O telefone tocou algumas vezes; ento, veio o bipe que indicava bateria fraca. Demorou alguns segundos para Wren 
dizer al.
        - Sou eu - gemeu Spencer.
        - Spencer? -Wren soou grogue.
        - Sim. - Seu humor mudou para irritao. Ele no reconheceu sua voz?
        - Posso ligar depois? -Wren bocejou. - Desculpe... ainda estou dormindo.
        - Mas... eu preciso falar com voc. 
        Ele suspirou.
        Spencer assumiu um tom mais dcil.
        - Desculpe. Voc pode, por favor, falar comigo agora? - Ela caminhava pelo quarto. - Preciso ouvir uma voz conhecida.
        Wren estava quieto. Spencer at verificou a tela de seu aparelho para ter certeza de que a ligao no tinha cado.
        - Olha s - disse ele, finalmente. - No  a coisa mais fcil de dizer, mas... no acho que isso v funcionar.
        Spencer esfregou as orelhas.
        - O qu?
        -  Eu achei que ia ser legal. - Wren soava entorpecido. Quase robtico. - Mas acho que voc  muito nova para mim. Eu simplesmente... no sei. Parece que 
estamos em lugares diferentes.
        O quarto ficou borrado e, ento, turvo. Spencer apertou tanto o telefone que as juntas dos dedos ficaram brancas.
        - Espere. O qu? Ns estivemos juntos no outro dia, e estava tudo bem.
        - Eu sei. Mas... Deus, isso no  fcil... eu comecei a sair com outra pessoa.
        Por alguns segundos, o crebro de Spencer desligou. Ela no fazia ideia de como responder. Tinha certeza de que no estava nem respirando.
        - Mas eu transei com voc - sussurrou ela.
        - Eu sei. Desculpe. Mas acho que  melhor assim. 
        Melhor... para quem? No fundo, Spencer podia ouvir a cafeteira de Wren apitando para indicar que o caf estava pronto.
        - Wren... - suplicou ela. - Por que voc est fazendo isso? 
        Mas ele j havia desligado.
        O visor do telefone indicava LIGAO ENCERRADA. Spencer o contemplou, segurando-o com o brao esticado.
        -Oi!
        Spencer se assustou. Melissa estava parada na porta.Vestindo uma camiseta J. Crew de tecido amarelo e shorts Adidas laranja. Parecia irradiar raios de sol.
        - Como foi?
        Spencer piscou.
        - Hein?
        - A Foxy! Foi legal?
        Spencer tentou disfarar o seu turbilho de emoes.
        - Hum, sim, foi divertida.
        - Eles fizeram um leilo de joias feias este ano? Como est o Andrew?
        Andrew? Ela queria ter explicado tudo para Andrew, mas Toby tinha entrado no meio. Spencer havia sado da Foxy pouco depois de ter descoberto que Emily estava 
bem, tomando um dos txis que zuniam pela rotatria do Kingman Hall. Seus pais tinham reativado seus cartes de crdito, ento, podia pagar para volta pra casa.
        Pensar em como Andrew estaria se sentindo naquele dia a fez tremer. Eles deviam estar se sentindo da mesma forma - postos de lado, descartados. Mas o que 
acontecera entre eles havia sido uma coisa boba. Spencer e Wren tinham tido algo srio... Andrew estava delirando se achava que ele e Spencer tinham estado juntos 
para valer.
        Os olhos de Spencer se escancararam. Ela tambm estaria delirando, pensando que estava mesmo com Wren? Que tipo de sacana dispensa algum pelo telefone?
        Melissa sentou-se ao seu lado na cama, esperando ansiosamente por uma resposta.
        - Andrew foi legal. - O crebro de Spencer parecia mais lerdo que nunca. - Ele... bem... ... hum... cavalheiro.
        - O que tinha pra jantar?
        - Hum, codorna - mentiu Spencer. Ela no fazia a menor ideia.
        - E foi romntico?
        Spencer rapidamente tentou imaginar umas cenas romnticas com Andrew. Compartilhando o aperitivo. Danando ao som de Shakira. Ela se controlou. Para que 
fazer isso? J no importava mais.
        O crebro dela comeou a desenevoar. Melissa estava sentada ali, tentando docemente fazer um esforo para consertar as coisas. O jeito como ela tinha se 
interessado pela Foxy, a maneira como implorara a seus pais para a perdoarem... e Spencer a tinha recompensado roubando Wren e afanando seu velho relatrio de economia. 
Nem mesmo Melissa merecia aquilo.
        - Eu tenho uma coisa para te contar - desembuchou Spencer. - Eu... eu vi Wren.
        Melissa no deu um pio, por isso Spencer continuou:
        - Esta semana toda. Fui ao novo apartamento dele, na Filadlfia, conversamos pelo telefone e tudo mais. Mas... acho que est tudo acabado agora.
        Ela se curvou em posio fetal, protegendo-se para quando Melissa comeasse a bater nela.
        -Voc pode me odiar. Quer dizer, eu no a culparia. Pode ir contar  mame e ao papai, para eles me expulsarem de casa.
        Melissa calmamente abraou o travesseiro listrado de Spencer contra o peito e levou um tempo para responder.
        - Tudo bem. Eu no vou contar nada. - Melissa se encostou de volta. - Na verdade, eu tenho uma coisa pra contar a voc. Lembra-se de sexta  noite, quando 
voc no conseguia achar o Wren? De quando voc deixou cinco mensagens?
        Spencer a encarou.
        - C-Como  que voc sabe disso?
        Melissa deu um sorriso satisfeito. Um sorriso que, de repente, deixou tudo muito claro. Estou saindo com outra pessoa, Wren tinha dito. No pode ser, pensou 
Spencer.
        - Porque Wren no estava na Filadlfia - respondeu Melissa friamente. - Estava aqui, em Rosewood. Comigo.
        Ela levantou-se da cama, colocou o cabelo atrs das orelhas e Spencer viu o chupo no pescoo de Melissa, praticamente no mesmo lugar em que o seu tinha 
estado. Melissa no poderia deix-lo mais aparente nem que o tivesse contornado com caneta marca-texto.
        - Ele contou pra voc? - conseguiu dizer ela. -Voc sabia, o tempo todo?
        - No, s descobri na noite passada. - Melissa passou a mo no queixo. - Digamos que eu recebi uma denncia annima de uma pessoa preocupada.
        Spencer segurou a sua colcha. A.
        - De qualquer forma - anunciou Melissa -, eu estava com Wren na noite passada tambm, quando voc estava na Foxy. - Ela abaixou a cabea at Spencer, com 
aquele mesmo olhar de desdm que ela dava quando brincavam de rainha, antigamente, quando eram pequenas. As regras do jogo nunca mudaram: Melissa era sempre a rainha, 
e Spencer sempre tinha que fazer o que ela mandava. Faa minha cama, sdito leal, Melissa dizia. Beije meus ps. Voc ser minha para sempre.
        Melissa deu um passo em direo  porta.
        - Mas eu decidi esta manh. No disse a ele ainda, mas Wren, realmente, no  pra mim. Ento, nunca mais o verei de novo. - Ela fez uma pausa, mediu suas 
palavras e ento deu um sorriso falso. - E pelo jeito que as coisas esto indo, acho que voc tambm no vai v-lo nunca mais.
34
V? NO FUNDO, HANNA
 REALMENTE UMA BOA MENINA
A primeira coisa que Hanna ouviu na manh de domingo foi algum cantando uma msica de Elvis Costello chamada "Alison". 
        "Aaaaalison, I know this world is KILLING you!": Alison, sei que este mundo est te matando. Era um cara, com uma voz estridente e irritante como um cortador 
de grama cantando. Hanna jogou as cobertas para longe. Seria a TV? Seria algum l fora?
        Quando se levantou, sua cabea parecia cheia de algodo-doce. Ela viu a jaqueta Chlo que tinha usado na noite passada jogada em cima de sua cadeira, e a 
lembrana de tudo voltou numa enxurrada.
        Depois de a me t-la buscado no Four Seasons, elas voltaram para casa num silncio sepulcral. Quando pararam na entrada, a sra. Marin puxou o freio de mo 
do Lexus e correu desconjuntada para dentro de casa, trpega de raiva. Quando Hanna se aproximou, a me bateu a porta na cara dela, com um estrondo forte. Hanna 
ficou para trs, chocada.Tudo bem, ento, ela revelara o pior aspecto de suas habilidades maternais, o que provavelmente no tinha sido uma boa ttica. Mas a me 
estava mesmo trancando-a l fora?
        Hanna bateu na porta, e a sra. Marin abriu uma fresta. Suas sobrancelhas estavam franzidas.
        - Ah, desculpe, voc quer entrar?
        - S-Sim - piou Hanna. 
        Sua me gargalhou.
        -Voc est realmente querendo me insultar e me desrespeitar na frente do seu pai, mas no  orgulhosa demais para morar aqui?
        Hanna tinha tentado balbuciar um pedido de desculpas, mas a me foi embora, pisando com fora. Entretanto, deixou a porta aberta. Hanna pegou Dot e correu 
para o seu quarto, traumatizada demais at para chorar.
        Ohhhhhhh, Aaaaalison... I know this world is KILLLing YOU!
        Hanna foi at a porta nas pontas dos ps. A cantoria vinha de dentro de casa. Suas pernas comearam a tremer. Somente um louco seria idiota o suficiente 
pra cantar aquela msica em Rosewood nesse momento. A polcia poderia prender algum s por cantarol-la em pblico.
        Seria Toby?
        Ela endireitou a camisola amarela e entrou na sala. Na mesma hora, a porta do banheiro se abriu e de l saiu um cara.
        Hanna tampou a boca com a mo. O cara estava com uma toalha - sua toalha fofa da Pottery Barn - enrolada na cintura. Seus cabelos escuros estavam arrepiados. 
Um grito silencioso ficou preso na garganta de Hanna.
        E a, ele se virou e a encarou. Hanna deu um passo para trs. Era Darren Wilden. O policial Darren Wilden.
        - Ei. - Ele estacou. - Hanna.
        Era difcil no admirar seu abdome perfeito. Ele, definitivamente, no era o tipo de policial que comia rosquinhas.
        - Por que voc est cantando isso? - perguntou ela finalmente. 
        Wilden parecia envergonhado.
        - s vezes, no percebo que estou cantando.
        - Eu achei que voc... - Hanna parou de falar.
        O que diabos Wilden estava fazendo ali? Mas a ela se deu conta. Claro. Sua me. Ela passou a mo no cabelo, embora isso no a acalmasse. E se tivesse sido 
Toby? a que ela poderia ter feito? Provavelmente, estaria morta.
        -Voc... voc precisa usar aqui? -Wilden apontou para o banheiro cheio de vapor. - Sua me est no dela.
        Hanna estava muito chocada para responder. Ento, antes de saber exatamente o que estava fazendo, desembuchou.
        - Eu tenho uma coisa pra contar. Uma coisa importante.
        - Como? - Uma gota de gua caiu de um fio de cabelo de Wilden direto no cho.
        -  Eu acho que sei de umas coisas sobre... sobre quem matou Alison DiLaurentis.
        Wilden levantou uma das sobrancelhas.
        - Quem?
        Hanna lambeu os lbios.
        - Toby Cavanaugh.
        - Por que voc acha isso?
        - Eu... eu no posso contar por qu. Voc tem que confiar na minha palavra.
        Wilden franziu as sobrancelhas e se apoiou no batente da porta, ainda seminu.
        -Voc vai ter que me contar um pouco mais do que isso. Voc poderia estar tentando se vingar de um cara que te magoou.
        Nesse caso eu teria dito Sean Ackard, pensou Hanna, amargamente. Ela no sabia o que fazer. Se contasse a Wilden sobre A Coisa com Jenna, seu pai a odiaria. 
Todos em Rosewood iam comentar. Ela e suas amigas iriam parar em um reformatrio.
        Mas no contar o segredo por causa do seu pai - e do restante de Rosewood - no fazia mais sentido. Toda sua vida estava destruda, e, alm disso, era verdade 
que fora ela quem machucara Jenna. Naquela noite, pode ter sido um acidente, mas Hanna a machucara muitas vezes de propsito.
        - Eu vou contar - disse ela, devagar. - Mas no quero mais ningum envolvido. S... s eu, se algum tiver que estar. Tudo bem?
        Wilden levantou a mo.
        - No tem importncia. Ns verificamos Toby quando Alison desapareceu. Ele tem um libi perfeito. No pode ter sido ele.
        Hanna bufou.
        - Ele tem um libi? Quem?
        - Eu no posso contar isso.-Wilden pareceu srio por um momento, mas a os cantos de sua boca se curvaram para cima num sorriso. Ele apontou para as calas 
de flanela E&F com desenho de alce. -Voc fica uma graa de pijaminha.
        Hanna curvou os dedos dos ps no carpete. Ela sempre odiou a palavra pijaminha.
        - Espera a, voc tem certeza de que Toby  inocente? 
        Wilden estava quase respondendo, mas seu radiocornunicador, que estava na beirada da pia do banheiro, fez uns barulhos e ele se virou para peg-lo, mantendo 
a mo na toalha em volta da cintura.
        - Casey?
        - Apareceu outro corpo - respondeu uma voz entrecortada. - E  de ... -A transmisso transformou-se em esttica.
        O corao de Hanna estava galopando novamente. Outro corpo?
        - Casey? -Wilden estava abotoando a camisa do uniforme. -Voc pode repetir? Al? - Mas s conseguiu barulhos de esttica como resposta. Ele notou Hanna ainda 
parada ali.
        -V para o seu quarto.
        Hanna se eriou. Que coragem a dele, de falar com ela como se fosse seu pai!
        - E o outro corpo? - sussurrou ela.
        Wilden ps o rdio de volta no balco, colocou as calas em um segundo, e tirou a toalha da parte de baixo, jogando-a no cho do mesmo modo que Hanna tinha 
feito tantas vezes.
        - Acalme-se - ordenou ele. Sua gentileza se fora. Ele ps a arma no coldre e correu escada abaixo.
        Hanna o seguiu. Spencer tinha ligado na noite passada para dizer que Emily estava bem - mas e se ela estivesse enganada?
        -  o corpo de uma menina? Voc sabe?
        Wilden saiu quase correndo pela porta da frente. Na sada, perto do Lexus cor de champanhe da me, estava sua viatura. Polcia de Rosewood estava escrito 
em letras garrafais, na lateral. Hanna admirou-se. O carro teria estado l durante a noite toda? Os vizinhos conseguiriam v-lo da rua?
        Hanna o seguiu at a viatura.
        - Ser que agora voc pode me dizer de quem  o corpo?
        Ele olhou em volta.
        - Eu no posso contar isso para voc.
        - Mas... voc no entende...
        - Hanna -Wilden no a deixou terminar -, diga  sua me que eu telefono depois. - Ele entrou na viatura e ligou a sirene. Se antes os vizinhos no sabiam 
ao certo se ele estivera l, agora eles tinham certeza.
35
ENTREGA ESPECIAL
Domingo, s 11:52, Aria sentou na sua cama, olhando para as unhas pintadas de vermelho. Ela se sentia ligeiramente desorientada, como se estivesse esquecendo algo... 
algo grande. Como naqueles sonhos que tinha de vez em quando, em que era junho e ela se dava conta de que no tinha ido para as aulas de matemtica o ano todo e 
de que ia tomar pau.
        A, se lembrou. Toby era A. E hoje era domingo. Seu tempo tinha acabado.
        Dar um nome e um rosto  vingana de A a apavorava -assim como o fato de que Ali e Spencer estavam escondendo algo, algo que poderia ser muito, muito srio. 
Aria ainda no fazia a menor ideia de como Toby tinha descoberto sobre Byron e Meredith, mas se ela os flagrou juntos duas vezes, outros poderiam t-los visto juntos, 
tambm - inclusive Toby.
        Ela no tinha inteno de contar a Ella sobre tudo que acontecera na noite anterior. Quando Sean a deixou em casa, perguntou repetidas vezes se deveria entrar 
com ela. Mas Aria disse que no - tinha que fazer aquilo sozinha. A casa estava escura e quieta, o nico som era o barulho do lava-louas, no modo superlavagem. 
Aria tinha procurado as luzes da entrada, e a, seguira pela cozinha escura nas pontas dos ps. Normalmente, a me ficava acordada at uma ou duas da manh no sbado 
 noite, fazendo Sudoku ou debatendo com Byron  mesa, tomando caf descafeinado. Mas a mesa estava impecvel; ela podia ver as marcas circulares da esponja na superfcie.
        Aria ento dera um pulo no quarto dos pais, imaginando se Ella tinha cado no sono mais cedo. A porta estava escancarada. A cama estava desfeita, mas no 
havia ningum nela. O banheiro da sute tambm estava vazio. Ento, Aria percebeu que o Honda Civic dos pais no estava na entrada.
        A, ela os esperou nos degraus da escada, olhando ansiosamente para o relgio a cada trinta segundos at meia-noite. Possivelmente, os pais eram as nicas 
pessoas no universo que no tinham telefones celulares, ento, no podia ligar para eles. Isso significava que Toby tambm no podia ligar para eles... ou ele tinha 
achado outro meio para se comunicar?
        E ento... ela acordara ali em cima, na prpria cama. Algum deve t-la carregado, e Aria, que dormia feito pedra, no notou nada.
        Ela ouviu barulhos no andar de baixo. Gavetas abrindo e fechando. O assoalho de madeira rangendo debaixo dos ps de algum. Pginas de jornal sendo viradas. 
Ser que seus pais estariam l embaixo, ou apenas um deles? Ela foi, nas pontas dos ps, l para baixo, um bilho de cenas passando por sua cabea... A ela viu: 
pequenas gotas vermelhas, por todo o cho da entrada. Havia uma trilha que vinha da cozinha at a porta de entrada.
        Parecia sangue.
        Aria correu para a cozinha. Toby teria contado para a me, e Ella, num acesso de raiva, teria matado Byron? Ou Meredith? Ou Toby? Ou todo mundo? Ou Mike 
teria matado a todos? Ou... ou Byron teria matado Ella? Quando chegou  cozinha, Aria estacou.
        Ella estava  mesa, sozinha. Usava uma blusa vinho, saltos altos e maquiagem, como se estivesse pronta para sair. O New York Times estava dobrado na pgina 
das palavras cruzadas, mas, em vez de letras dentro dos quadrados, a pgina estava cheia de rabiscos grossos em tinta preta. Ella olhava para a frente, meio vagamente, 
pela janela da cozinha, apertando os dentes de um garfo contra a palma de sua mo.
        - Me - grunhiu Aria, chegando mais perto. S ento, Aria percebeu que a blusa estava amassada e a maquiagem parecia borrada. Era como se ela tivesse dormido 
com aquelas roupas... ou no tivesse nem dormido. - Me? - perguntou Aria novamente, sua voz com um tom de medo.
        Por fim, a me olhou para ela, lentamente. Os olhos de Ella estavam pesados e midos. Ela enfiou o garfo bem fundo na mo. Aria queria tir-lo dela, mas 
ficou com medo. Nunca tinha visto a me daquele jeito.
        - O que est acontecendo? 
        Ella engoliu em seco.
        - Oh... voc sabe. 
        Aria engoliu em seco.
        - O que ... essa coisa vermelha na sala?
        -  Coisa vermelha? - perguntou Ella, desconsolada. - Ah. Talvez seja tinta, eu joguei fora uns materiais de pintura de manh, joguei um monte de coisa fora 
esta manh.
        - Me. -Aria podia sentir as lgrimas em seus olhos. - Tem alguma coisa errada?
        A me olhou para cima. Seus movimentos eram lentos, como se ela estivesse embaixo d'gua.
        - Faz quatro anos que voc sabe. 
        Aria prendeu a respirao.
        - O qu? - sussurrou.
        -Voc  amiga dela? - perguntou Ella, ainda com a mesma voz morta. - Ela no  muito mais velha que voc. E ouvi dizer que voc foi  academia de ioga dela, 
no outro dia.
        -  O qu? - sussurrou Aria. - Academia de ioga? No sei do que voc est falando!
        -  claro que sabe. - Ella deu o sorriso mais triste que Afia jamais havia visto. - Eu recebi uma carta. Primeiro, no acreditei, mas depois perguntei ao 
seu pai. E pensar que achei que ele estava distante por causa de trabalho.
        -  O qu? -Aria deu um passo para trs. Sua viso comeou a escurecer. -Voc recebeu uma carta? Quando? Quem mandou?
        Pelo jeito ausente e frio com o qual Ella a olhava, Aria sabia exatamente quem tinha mandado a carta. A. Toby. E ele tinha contado tudo a ela.
        Aria ps as mos na testa.
        - Eu sinto muito. Eu... eu queria te contar, mas estava com tanto medo e...
        - Byron foi embora - disse Ella, quase que de maneira casual. - Ele est com a garota. - Ela deixou escapar uma risadinha. -Talvez, eles estejam fazendo 
ioga juntos.
        - Eu tenho certeza de que ns conseguiremos convenc-lo a voltar. -Aria engasgou em lgrimas. - Quer dizer, ele tem que voltar, certo? Ns somos a famlia 
dele.
        Naquele momento, o relgio cuco da cozinha bateu meio-dia. O relgio havia sido um presente de Byron para Ella no dcimo segundo aniversrio de casamento 
deles, no ano anterior, na Islndia; Ella estava muito interessada na pea, pois supostamente pertencera a Edvard Munch, o famoso pintor noruegus que fez O Grito. 
Ela o havia trazido cuidadosamente consigo no avio, constantemente tirando o plstico bolha para ver se o relgio estava intacto. A partir de ento, eles sempre 
tinham de ouvir as doze badaladas e ver aquele passarinho idiota sair da casinha de madeira doze vezes. Cada piado soava cada vez mais acusador. Em vez de cuco, 
o passarinho cantarolava: Voc sabia. Voc sabia. Voc sabia.
        - Ah, Aria - falou Ella, com ar de censura. - Eu no acho que ele v voltar.
        - Onde est a carta? - perguntou Aria, seu nariz escorrendo. - Posso ver? Eu no sei quem faria isso conosco... quem estragaria as coisas desse jeito.
        Ella a encarou. Seus olhos estavam cheio de lgrimas e tambm enormes.
        - Eu joguei a carta fora. Mas no importa quem mandou. O que importa  que  verdade.
        - Eu sinto muito. -Aria ajoelhou-se perto dela, sentindo o cheiro engraado e familiar de sua me: terebentina, tinta de jornal, incenso de sndalo e, estranhamente, 
ovos mexidos. Ela colocou sua cabea no ombro da me, mas Ella a afastou.
        -Aria - disse ela, diretamente, ficando de p. - Eu no consigo ficar perto de voc agora.
        - O qu? - gritou Aria.
        Ella no estava olhando para ela, mas para sua mo esquerda, a qual, Aria notou, de repente, no estava mais com a aliana de casamento.
        Ela passou por Aria e seguiu, como um fantasma para a sala e pelo rastro de tinta vermelha at as escadas.
        - Espere - gritou Aria, indo atrs dela.
        Ela cambaleou escada acima, mas tropeou num par de tacos de lacrosse do Mike, bateu o joelho e escorregou dois degraus.
        - Maldio - xingou, raspando o carpete com as unhas. Ela se levantou e chegou l em cima arfando de raiva. A porta do quarto de sua me estava fechada. 
Assim como a porta do banheiro. A porta do quarto de Mike estava aberta, mas ele no estava l. Mike, pensou Aria, seu corao partido novamente. Ele sabia?
        Seu celular comeou a tocar. Aturdida, foi at o quarto para procur-lo. Sua cabea estava uma baguna. Ainda estava arfando. Ela quase queria que a ligao 
fosse de A - Toby - para poder falar bastante. Mas era Spencer. Aria olhou para o nmero, fumegando. No importava que Spencer no fosse A - ela bem que poderia 
ser. Se Spencer no tivesse ficado do lado de Toby l no stimo ano, ele nunca teria contado a Ella, e sua famlia estaria inteira.
        Ela abriu o telefone para atender, mas no disse nada. Apenas ficou sentada, respirando fundo, respiraes suspiradas.
        - Aria? - chamou Spencer, cuidadosamente.
        - Eu no tenho nada para te dizer - rebateu Aria. -Voc acabou com a minha vida.
        - Eu sei - respondeu Spencer, calmamente. -  que... Aria, me desculpe. Eu no queria guardar o segredo do Toby de voc. Mas eu no sabia o que fazer. Voc 
pode se pr no meu lugar?
        - No - respondeu Aria, rudemente. -Voc no entende. Voc acabou com a minha vida.
        - Espere a, o que voc quer dizer? - Spencer pareceu preocupada. - O que... o que aconteceu?
        Aria colocou as mos na cabea. Aquilo era to difcil de explicar. E ela conseguia ver as coisas do ponto de vista de Spencer. Claro que conseguia. O que 
Spencer estava dizendo era assombrosamente parecido com o que Aria dissera para Ella, trs minutos atrs. Eu no queria guardar segredo de voc. Eu no sabia o que 
jazer. Eu no queria te magoar.
        Ela suspirou e limpou o nariz.
        - Por que voc ligou?
        - Bem... - Spencer esperou. -Voc teve alguma notcia da Emily agora de manh?
        - No.
        - Droga - sussurrou Spencer.
        - Qual  o problema? -Aria endireitou-se na cadeira. - Eu pensei que voc tivesse dito que tinha achado ela ontem  noite, e que ela estava em casa.
        - Bem, ela estava... - Aria ouviu Spencer engolindo em seco. - Eu tenho certeza de que no  nada, mas minha me estava passando pelo bairro da Emily e tinha 
trs viaturas policiais na entrada da casa dela.
36
APENAS OUTRO DIA DE
NOTCIAS FRACAS EM  ROSEWOOD
Emily morava em um bairro antigo, modesto, com muitas pessoas aposentadas, e todo mundo estava em suas varandas ou no meio da rua, preocupado com as trs viaturas 
na entrada dos Fields e com a ambulncia que tinha acabado de ir embora. Spencer foi para a calada e avistou Aria. Ela ainda estava usando o vestido de bolinhas 
da Foxy.
        - Eu acabei de chegar - informou Aria, assim que Spencer se aproximou. - Mas no consegui descobrir nada. Eu perguntei para um monte de gente o que estava 
acontecendo, mas ningum sabe.
        Spencer olhou ao redor. Havia um monte de policiais, paramdicos, e at um carro do jornal do Canal 4 - provavelmente tinha acabado de vir da casa dos DiLaurentis. 
Ela se sentiu como se todos os policiais estivessem olhando para ela.
        E a, Spencer comeou a tremer. Era tudo culpa dela. S dela, e de ningum mais. Ela se sentiu mal. Toby a tinha avisado de que as pessoas iam se machucar, 
e ela no fez nada. Ela estivera to concentrada em Wren - e olha s o que tinha acontecido. Nem conseguia pensar em Wren naquele momento. Ou em Melissa. Ou nos 
dois juntos. Ela sentiu como se houvesse vermes se arrastando por suas veias. Alguma coisa tinha acontecido com Emily, e ela poderia ter evitado. A polcia havia 
estado na sala de sua casa. At mesmo A a advertira.
        De repente, Spencer viu a irm de Emily, Carolyn, parada na entrada da garagem, falando com alguns policiais. Um dos policiais curvou-se e sussurrou algo 
em seu ouvido. O rosto de Carolyn se contorceu, como se ela fosse chorar. Ela correu de volta para casa.
        Aria cambaleou um pouco, como se fosse desmaiar.
        - Ai, meu Deus, Emily... 
        Spencer engoliu em seco.
        - Ns ainda no sabemos de nada.
        - Mas eu posso sentir - disse Aria, seus olhos cheios de lgrimas. - A...Toby... suas ameaas. - Ela parou, tirou um fio de cabelo que havia entrado em sua 
boca. As mos tremiam muito. - Ns somos as prximas. Eu sei.
        - Onde esto os pais de Emily? - perguntou Spencer em voz alta, tentando deixar de lado tudo o que Aria tinha acabado de dizer. - Eles no deveriam estar 
aqui se Emily estivesse...? _ Ela no queria pronunciar a palavra morta.
        Um Toyota Prius subiu a rua correndo e estacionou atrs da Mercedes de Spencer. Hanna saiu do carro. Ou era uma garota que se parecia com Hanna. Ela no 
tinha se incomodado em trocar as calas do pijama, e seus cabelos ruivo-escuros e em geral superlisos estavam esquisitos e bagunados num coque nem alto, nem baixo. 
Fazia anos que Spencer no a via to largada.
        Hanna as viu e correu at elas.
        - O que est acontecendo? ...
        - No sabemos - interrompeu Spencer.
        - Pessoal, eu descobri uma coisa. - Hanna tirou os culos escuros. - Eu falei com um policial de manh, e...
        Outro carro de imprensa estacionou e Hanna parou de falar. Spencer reconheceu a mulher do jornal do Canal 8. Ela deu uns dois passos em direo s meninas, 
com o celular no ouvido.
        - Ento, o corpo foi achado do lado de fora, esta manh? - disse ela, olhando numa prancheta. - T bem, obrigada.
        As meninas trocaram olhares desesperados. Ento, Aria pegou nas mos das outras e elas caminharam pelo jardim da casa de Emily, pisoteando um monte de flores. 
Estavam bem  \ perto da porta da frente, quando um policial entrou no caminho delas.
        - Hanna, eu disse para voc ficar fora disso - disse o policial. 
        Spencer engoliu em seco. Era Wilden, o cara que estivera em sua casa no dia anterior. Seu corao acelerou. 
        Hanna tentou empurr-lo para o lado.
        - No me diga o que fazer!
        - O policial segurou Hanna pelos ombros, e ela comeou se contorcer.
        - Me larga!
        Spencer rapidamente segurou Hanna pela cintura.
        - Tente se acalmar - disse Wilden para Spencer. A, se deu conta de quem ela era. - Oh! - suspirou ele. O policial pareceu confuso, depois curioso. - Srta. 
Hastings.
        -  Ns apenas queramos saber o que aconteceu com a Emily - tentou explicar Spencer, o estmago embrulhado. - Ela ... ela  nossa amiga.
        - Pessoal, vocs deveriam voltar para casa. - Wilden cruzou os braos sobre o peito.
        De repente, a porta da frente se abriu... e Emily saiu.
        Ela estava descala e plida, e segurando uma caneca dos Muppets, que viera de brinde no McDonalds, com gua. Spencer estava to aliviada de v-la que at 
chorou. Um barulho vulnervel de dor escapou de sua garganta.
        As garotas correram at ela.
        -Voc est bem? - perguntou Hanna.
        - O que aconteceu? - quis saber Aria, ao mesmo tempo.
        -  O que est acontecendo? - Spencer gesticulou para a multido.
        - Emily... - Wilden ps as mos no quadril. -Talvez voc devesse ver suas amigas depois. Seus pais disseram que voc deveria ficar dentro de casa.
        Mas Emily balanou a cabea, quase irritada.
        - No, no tem problema.
        Emily passou pelo policial e as levou para um canto do quintal. Elas pararam atrs de uma roseira na lateral da parede da casa, assim teriam um pouco de 
privacidade. Spencer deu uma boa olhada para Emily. Ela tinha olheiras bem escuras, suas pernas estavam todas arranhadas, mas, fora isso, parecia bem.
        - O que aconteceu? - perguntou Spencer. 
        Emily tomou flego.
        - Um ciclista de montanhismo achou o corpo de Toby na floresta atrs da minha casa, esta manh. Eu acho... eu acho que foi uma overdose de comprimidos ou 
algo assim.
        O corao de Spencer parou. Hanna engasgou. Aria empalideceu.
        - O qu? Quando? - perguntou ela.
        - Foi durante a noite - explicou Emily. - Eu ia ligar para voc, mas um policial estava me vigiando como uma guia. -A boca tremia. - Meus pais esto visitando 
minha av neste final de semana. - Ela tentou sorrir, mas acabou saindo uma careta, e teve um espasmo no rosto, em seguida, comeou a soluar.
        - Tudo bem - consolou-a Hanna.
        - Ele estava agindo feito um louco na noite passada - disse Emily, limpando o rosto com a blusa. - Ele me trouxe para casa depois da Foxy. Num minuto estava 
tudo normal, no outro, ele estava me contando o quanto odiava a Ali. Ele disse que no podia perdo-la pelo que ela tinha feito, e que estava feliz por ela estar 
morta.
        - Ai, meu Deus. - Spencer cobriu os olhos. Era tudo verdade.                                                                            
        -  Foi quando eu me dei conta. Toby sabia - continuou Emily, suas mos plidas e sardentas irrequietas. - Ele deve ter descoberto o que Ali fez e... e eu 
acho que ele a matou.
        - Espere um minuto - interrompeu Hanna, levantando a mo. - Eu no acho que ele...
        - Shhh. - Spencer colocou uma das mos sobre o pulso fino de Hanna, que olhou, como se quisesse dizer alguma coisa, mas Spencer estava com medo de que, se 
Emily parasse, no conseguisse terminar.
        - Eu fugi dele... o caminho todo at minha casa - prosseguiu Emily. - Quando entrei, Spencer ligou, mas a ligao foi cortada. Depois... depois Toby estava 
na porta dos fundos. Eu disse a ele que sabia o que ele tinha feito e que iria contar  policia. Ele pareceu surpreso por eu ter descoberto.
        Emily parecia sem flego por toda essa conversa.
        - Pessoal... como Toby soube?
        O estmago de Spencer despencou. As linhas telefnicas tinham cado antes que pudesse explicar a verdade sobre a Coisa com Jenna, na noite anterior. Ela 
preferiria no ter que contar para Emily naquele momento - ela parecia extremamente fragilizada. J havia sido ruim o suficiente contar para Aria e Hanna - mas a 
verdade destruiria o mundo de Emily.
        Aria e Hanna estavam olhando para Spencer com expectativa, ento, Spencer tomou coragem.
        - Ele sempre soube - disse ela. - Ele viu a Ali. S que ela o chantageou para que ele assumisse a culpa. Ela me fez guardar segredo.
        Spencer parou por um momento para tomar flego e notou que Emily no estava reagindo como ela achou que iria. Ela estava ali, parada, completamente calma, 
como se estivesse ouvindo uma palestra de geografia. Isso desequilibrou Spencer.
        - Ento... hum... quando Ali desapareceu, eu sempre pensei que, talvez, no sei... - Spencer olhou para cima em direo ao cu, percebendo que o que ela 
estava prestes a dizer era verdade. - Eu achei que Toby tinha algo a ver com isso, mas estava apavorada demais para dizer qualquer coisa. Mas ento, ele voltou para 
assistir ao funeral... e minhas mensagens de A se referiam ao segredo  de Toby. A ltima dizia: Voc me magoou, ento, vou te magoar tambm. Ele queria se vingar 
de todas ns. Ele devia saber que todas ns estvamos envolvidas.
        Emily ainda estava parada, estranhamente calma. Ento, devagar, seus ombros comearam a tremer. Ela fechou os olhos. Num primeiro momento, Spencer pensou 
que ela estivesse chorando, mas, ento, percebeu que ela estava rindo.
        Emily virou a cabea para trs, rindo mais alto. Spencer olhou para Aria e para Hanna, preocupada. Emily, obviamente, no tinha entendido
        - Emi... - Ella a cutucou, gentilmente.
        Quando Emily virou a cabea de volta para a frente, o lbio inferior estava tremendo.
        - Ali tinha jurado para ns que ningum sabia o que tnhamos feito.
        - Acho que ela mentiu - disse Hanna, secamente.
        Os olhos de Emily piscaram, como que procurando por algo.
        - Mas como ela pde mentir para ns desse jeito? E se Toby decidisse contar? - Ela chacoalhou a cabea. - Isso... isso aconteceu quando todas ns estvamos 
na casa da Ali, olhando para a porta da frente? - perguntou Emily. - Naquela mesma noite?
        Spencer assentiu, solene.
        - E Ali voltou para dentro e disse que tudo estava bem, e quando nenhuma de ns, exceto ela, conseguiu dormir, nos consolou coando nossas costas?
        - Sim. - Os olhos de Spencer se encheram de lgrimas. Claro que Spencer se lembrava de cada detalhe.
        Emily olhou para o nada.
        - E ela nos deu isso. - Ela ergueu um dos braos. A pulseira que Ali tinha mandado fazer para elas, para simbolizar o segredo, estava firmemente atada em 
volta do seu pulso. Todas as outras j a haviam retirado.
        As pernas de Emily ficaram bambas, e ela caiu na grama. Ento, comeou a destruir a pulseira em seu pulso, tentando arranc-la, mas a corrente era velha 
e resistente.
        - Caramba. - Emily juntou os dedos para tentar encolher a mo e puxar a pulseira sem abri-la. Ento, tentou com os dentes, mas a pulseira no cedeu.
        Aria colocou a mo no ombro de Emily.
        - Est tudo bem.
        - Eu no consigo acreditar em nada disso. - Ela esfregou os olhos, desistindo da pulseira. Em seguida, arrancou um monte de grama com a mo. - E eu no consigo 
acreditar que fui para Foxy com o... assassino da Ali.
        -  Ns estvamos apavoradas por sua causa - sussurrou Spencer.
        Hanna chacoalhou os braos.
        - Gente, isso  o que eu estou tentando contar para vocs. Toby no  o assassino da Ali.
        - Como assim? - Spencer franziu as sobrancelhas. - Do que voc est falando?
        - Eu... eu falei com o policial esta manh. - Hanna apontou na direo de Wilden, que estava falando com o pessoal do jornal. - Eu contei a ele sobre o Toby... 
que eu achava que ele tinha matado a Ali. Ele disse que o tinham investigado, tipo, anos atrs. Toby nem sequer  um suspeito.
        - Ele, com certeza,  o culpado. - Emily permanecia desconfiada. - Na noite passada, quando eu mencionei para Toby o que ele tinha feito, o garoto entrou 
em pnico e me implorou para no contar aos policiais.
        Todas se entreolharam, confusas.
        - Ento voc acha que os policiais esto errados? - Hanna mexeu com o pingente em forma de corao na sua pulseira.
        - Espere um minuto - disse Emily, lentamente. - Spencer, com o que Ali o estava chantageando? Como ela fez para Toby levar a culpa da... da Coisa com a Jenna?
        -  Spencer disse que a Ali no contou para ela - lembrou Aria.
        Spencer sentiu um nervosismo enorme tomar conta de seu corpo.  melhor do meu jeito, Ali havia dito. Ns guardamos o segredo do Toby, ele guarda o nosso.
        Mas Toby estava morto. Ali estava morta. No tinha mais importncia.
        - Eu sei - sussurrou ela.
        Spencer ento notou algum vindo, dando a volta na lateral do quintal, e seu corao acelerou. Era Jenna Cavanaugh.
        Ela vestia uma camiseta preta e um jeans preto justinho, e seus cabelos escuros estavam presos no alto da cabea. Sua pele ainda era brilhante, como a da 
Branca de Neve, mas seu rosto estava parcialmente encoberto por enormes culos de sol. Ela segurava uma bengala branca em uma das mos e a coleira de seu golden 
retriever na outra. Ele a guiou para a beirada do grupo.
        Spencer estava certa de que estava prestes a desmaiar. Ou isso ou comearia a chorar novamente.
        Jenna e seu cachorro pararam bem perto de Hanna.
        - A Emily Fields est aqui?
        - Sim - sussurrou Emily. Spencer podia sentir o medo na voz da velha amiga. - Estou aqui.
        Jenna virou-se na direo da voz de Emily.
        - Isto  seu. - Ela estendeu uma bolsa rosa de cetim. Emily a pegou cuidadosamente, como se fosse feita de vidro. - E tem uma coisa que voc deveria ler. 
-Jenna tirou do bolso um pedao de papel amassado. -  do Toby.
37
DE QUALQUER FORMA, PULSEIRAS
DE AMARRAR ESTO TO FORA DE MODA
Emily colocou o cabelo atrs das orelhas e olhou para Jenna. Os culos de sol que ela usava iam do osso da bochecha at acima da sobrancelha, mas Emily ainda pde 
ver algumas cicatrizes rosadas e enrugadas - cicatrizes de queimadura - na testa dela.
        Ela pensou naquela noite. Em como a casa de Ali cheirava a velas de menta. No jeito como a boca de Ali tinha gosto de batata frita sabor sal e vinagre. Em 
como seus ps roavam nas reentrncias do piso de madeira da sala de jantar dos DiLaurentis, quando estava parada em frente  janela, vendo Ali correr pelo gramado 
da casa dos Cavanaugh. O barulho dos fogos de artifcio, dos paramdicos subindo a escada da casa da rvore, em como a boca da Jenna parecia um retngulo de tanto 
que ela chorava.
        Jenna entregou a ela o pedao de papel sujo e amassado.
        - Eles acharam isto com ele - disse ela, sua voz falhando na palavra ele. - Ele escreveu para todas ns. Sua parte est em algum lugar pelo meio.
        O papel era a lista do leilo da Foxy; Toby tinha rabiscado algo atrs.Ver como as palavras do Toby no estavam sobre as linhas, que ele quase no tinha 
usado nenhuma letra maiscula e que tinha assinado o bilhete como Toby, com um garrancho de letra cursiva, fez Emily se contorcer por dentro. Embora ela nunca tivesse 
visto a letra de Toby antes, isso parecia traz-lo de volta  vida ao lado dela. Ela podia sentir o cheiro do sabonete que ele usava, sentir sua mo enorme segurando 
a dela, pequenina. Naquela manh, ela tinha acordado no no balano da varanda, mas na sua cama. A campainha estava tocando. Ela desabalou escada abaixo, e havia 
um cara vestindo calo de ciclista e um capacete, esperando na porta.
        - Posso usar seu telefone? - perguntou ele. -  uma emergncia.
        Emily o encarou, zonza, ainda no tinha acordado. Carolyn apareceu atrs dela, e o ciclista comeou a se explicar.
        - Eu estava pedalando pelo seu bosque e achei um garoto. Primeiro eu achei que ele estava dormindo, mas...
        Ele parou, e os olhos de Carolyn se arregalaram. Ela correu para dentro para pegar seu celular. Enquanto isso, Emily ficou parada na varanda, tentando entender 
o que estava acontecendo. Ela pensou em Toby na sua varanda na noite anterior. Em como ele tinha batido violentamente na porta de vidro corredia, depois corrido 
para o bosque.
        Ela olhou para o ciclista.
        -  Esse garoto do bosque, ele estava tentando machucar voc? - sussurrou ela, seu corao disparado. Era horrvel que Toby tivesse acampado l fora, no bosque, 
a noite toda. E se ele tivesse voltado para a varanda depois de Emily ter cado no
sono?
        O ciclista segurou o capacete junto ao peito. Ele parecia ter mais ou menos a mesma idade do pai da Emily, com olhos verdes e barba grisalha.
        - No - disse ele, gentilmente. - Ele estava... azul. 
        E agora, aquilo: a carta. Um bilhete suicida.
        Toby parecia to atormentado, correndo para o bosque. Teria ele tomado os comprimidos l mesmo? Ser que Emily poderia t-lo impedido? E Hanna estaria certa? 
Toby no era o assassino de Ali?
        O mundo comeou a rodar. Ela sentiu a mo de algum pesar no meio de suas costas.
        - Ei - sussurrou Spencer. - Est tudo bem.
        Emily se endireitou e olhou para a carta. As amigas se debruaram tambm. L, bem no meio, estava o nome dela.
             Emily, trs anos atrs, prometi a Alison DiLaurentis que 
        guardaria o segredo dela, se ela guardasse o meu. Ela 
        jurou que o segredo nunca vazaria, mas acho que vazou. 
        Eu tentei lidar com isso - e esquecer - e, quando nos tor-
        namos amigos, achei que eu poderia... pensei que eu mu-
        daria - e que minha vida tinha mudado. Mas acho que 
        nunca podemos mudar o que somos. O que eu fiz com 
        Jenna foi o maior erro que j cometi. Eu era jovem, con-
        fuso e burro, e nunca quis machuc-la. E no posso mais 
        viver com isso. J chega para mim.
        Emily dobrou o bilhete novamente, o papel estalando em suas mos. Aquilo no fazia sentido - eram elas que tinham machucado Jenna, no Toby - do que ele 
estava falando? Ela devolveu a carta para Jenna.
        - Obrigada.
        - De nada.
        Quando Jenna se virou para ir embora, Emily limpou a garganta.
        - Espere - grunhiu ela. -Jenna.
        Jenna parou. Emily engoliu em seco. Tudo o que Spencer tinha acabado de contar a ela, que Toby sabia e que Ali mentira, tudo que Toby dissera na noite anterior, 
toda a culpa que ela tinha carregado por tantos anos... tudo isso extravasou.
        - Jenna, eu preciso me desculpar com voc. Ns ramos... ns costumvamos ser to ms. As coisas que fizemos... os apelidos, no era engraado.
        Hanna deu um passo  frente.
        - Ela est totalmente certa. No era engraado mesmo. -Emily no via Hanna com uma expresso torturada havia muito tempo. - E voc no merecia isso - adicionou.
        Jenna tocou na cabea do cachorro.
        - Est tudo bem - disse ela. - Eu j superei isso. 
        Emily suspirou.
        - Mas no est tudo bem. No est tudo bem mesmo. Eu... eu nunca soube como... como uma pessoa se sente... quando tiram sarro porque ela  diferente. Mas 
agora eu sei. - Ela contraiu os msculos dos ombros, na esperana de que isso a impedisse de chorar. Parte dela queria contar para todo mundo o que a estava atormentando. 
Mas ela se segurou. No era o momento certo. Havia mais coisas que queria dizer, tambm, mas como ela conseguiria?
        - E eu sinto muito pelo seu acidente, tambm. Eu nunca cheguei a dizer isso para voc.
        Ela queria acrescentar: me desculpe pelo que ns acidentalmente fizemos, mas estava com muito medo.
        O queixo de Jenna tremeu.
        - No foi culpa sua. E, de qualquer forma, no foi a pior coisa que me aconteceu. - Ela puxou a coleira do cachorro e andou de volta para a frente do jardim.
        As meninas ficaram quietas at que Jenna no pudesse mais ouvi-las.
        - O que poderia ser pior do que ficar cega? - sussurrou Aria.
        - Teve uma coisa pior - interrompeu Spencer. - O que a Ali sabia...
        Spencer ostentava aquele olhar de novo - como se tivesse um monte de coisas para falar, mas preferisse ficar calada.
        Ela suspirou.
        -Toby costumava... tocar... Jenna - sussurrou ela. - Era isso que ele estava fazendo na noite do acidente.  por isso que a Ali mirou os fogos de artifcio 
por engano na casa da rvore.
        "Quando Ali chegou  casa da rvore do Toby", continuou Spencer, "ela o viu na janela e acendeu os fogos de artifcio. E a... ela viu que a Jenna estava 
l, tambm. Tinha alguma coisa esquisita na expresso da Jenna, e sua blusa estava desabotoada. Ento, Ali viu Toby subir em cima dela e colocar a mo no seu pescoo. 
Ele moveu a outra mo para debaixo da blusa da Jenna e por cima do suti. Ele puxou a ala do ombro dela. Jenna parecia apavorada.
        "Ali disse que ficou to chocada que desencaixou os fogos de artifcio. A chama subiu rpido pelo pavio e soltou o foguete. Ento, houve um claro confuso 
e brilhante.Vidros espatifaram. Algum gritou... e a Ali correu.
        "Quando Toby veio at ns e contou a Ali que a tinha visto, Ali disse ao Toby que ela o tinha visto... fazendo aquilo Jenna", falou Spencer. "O nico jeito 
de ela no contar aos pais do Toby, era ele assumir que tinha acendido os fogos de artifcio. E Toby concordou." Ela suspirou. "Ali me fez prometer que no contaria 
sobre o que o Toby tinha feito, junto com todo o resto."
        -Jesus - sussurrou Aria. - Ento, Jenna deve ter ficado feliz quando Toby foi mandado para outro lugar.
        Emily no fazia ideia de como reagir. Ela se virou para olhar para Jenna, parada do outro lado do jardim com a me, falando com um reprter. Como ser que 
ela se sentia, com o meio-irmo fazendo aquilo com ela? Havia sido ruim o bastante quando Ben veio pra cima dela - e se ela tivesse que morar com ele? E se ele fosse 
parte da famlia dela?
        Isso a dilacerou por dentro, tambm. Fazer isso  prpria meia-irm era horrvel, mas tambm era... pattico.  claro que Toby estava querendo deixar isso 
para trs, para seguir com a vida dele. E ele estava conseguindo... at Emily assust-lo, fazendo-o pensar que tudo estava voltando  tona para assombr-la.
        Ela ficou horrorizada, cobriu o rosto com as mos e respirou fundo vrias vezes, engolindo em seco. Eu acabei com a vida do Toby, pensou. Eu o matei.
        As amigas a deixaram chorar um pouco - todas elas estavam chorando, tambm. Quando as lgrimas de Emily secaram, ela ficou reduzida a soluos convulsivos 
e olhou para cima.
        - Eu no consigo acreditar nisso.
        - Eu acredito - disse Hanna. - Ali s se importava consigo mesma. Ela era a rainha da manipulao.
        Emily olhou para ela, surpresa. Hanna deu de ombros.
        - Meu segredo do stimo ano? O que s Ali sabia? Ela me torturou com ele. Toda vez que eu no concordava com alguma coisa que ela queria que eu fizesse, 
Ali ameaava contar para todas vocs. E para todo mundo.
        - Ela fez isso com voc tambm? - Aria parecia surpresa. -Houve vezes em que ela disse coisas sobre o meu segredo que o tornavam to... bvio. - Ela baixou 
os olhos. - Antes de o Toby... tomar os comprimidos, ele falou sobre esse segredo comigo. O segredo que Ali sabia, e aquele com o qual A, Toby, estava me ameaando.
        Todas elas prestaram ateno.
        - Que seria...? - perguntou Hanna.
        - Eram... s uns lances de famlia. - Os lbios de Aria tremeram. - Eu no quero falar sobre isso agora.
        Todas ficaram em silncio por um tempo, pensando. Emily olhou para os pssaros pulando para dentro e para fora do comedouro que o pai instalara no quintal.
        - Faz o maior sentido que Toby seja A - sussurrou Hanna. - Ele no matou Ali, mas ainda queria vingana.
        Spencer deu ombros.
        - Eu espero que voc esteja certa.
Tudo estava claro e calmo novamente na casa da Emily. Seus pais ainda no estavam em casa, mas Carolyn tinha acabado de fazer pipoca de micro-ondas, e toda a casa 
estava impregnada com aquele cheirinho caracterstico. Para Emily, pipoca de micro-ondas tinha um cheiro muito melhor do que o gosto, e, apesar de sua falta de apetite, 
o estmago roncou. Ela pensou, Toby jamais sentir cheiro de pipoca de micro-ondas de novo.
        Nem Ali.
        Ela olhou para o jardim da janela do seu quarto. H algumas horas, Toby estivera parado ali, implorando para Emily no contar para os policiais. E pensar 
que o que ele queria dizer era: por favor, no conte a eles o que eu fiz com a Jenna.
        Emily pensou em Ali de novo. Como Ali havia mentido para elas sobre tudo.
        O mais engraado e triste de tudo isso era que Emily tinha certeza de ter comeado a amar Ali na noite do acidente de Jenna, depois que as ambulncias foram 
embora e Ali voltou para dentro de casa. Ali estava to calma e protetora, to segura e maravilhosa. Emily estava desesperada, mas Ali estava l para faz-la se 
sentir melhor.
        - Est tudo bem - sussurrara Ali para ela, coando suas costas, seus dedos fazendo grandes e vagarosos crculos. - Eu juro. Tudo vai ficar bem. Voc tem 
que acreditar em mim.
        -  Mas como pode estar tudo bem? - Emily soluou. - Como voc sabe?
        - Porque eu sei.
        Ento, Ali pegou Emily e a deitou no sof, arrumando a cabea dela em seu colo. As mos de Ali comearam calmamente a fazer cafun. Pareceu imensamente bom. 
To bom que Emily se esqueceu de onde estava, ou do quo assustada se sentia. Em vez disso, ela estava... nas nuvens.
        Os movimentos da Ali ficaram cada vez mais lentos, e Emily caiu no sono. Emily nunca esqueceria do que aconteceu depois. Ali se curvou e beijou a bochecha 
de Emily. Emily ficou esttica, apesar de ter acordado com o gesto. Ali fez de novo. Estava to gostoso. Ela voltou a se sentar e comeou a fazer cafun em Emily 
de novo. O corao de Emily bateu loucamente.
        A parte racional do crebro de Emily afastou essa lembrana de sua mente, achando que Ali tinha feito isso para consol-la. Mas sua parte emocional deixara 
o sentimento florescer como as pequenas cpsulas que seus pais colocavam em suas meias natalinas que aumentavam lentamente, fazendo a espuma tomar forma quando mergulhada 
em gua quente. Foi como o amor de Emily por Ali, que tomou conta de tudo e que, sem aquela noite, talvez nunca tivesse acontecido.
        Emily sentou-se na cama olhando distraidamente pela janela. Ela se sentia vazia, como se algum tivesse tirado tudo de dentro dela, como quem limpa uma abbora 
de Halloween.
        O quarto estava muito quieto; o nico som era o das ps do ventilador de teto girando. Emily abriu a gaveta superior de sua mesinha de cabeceira e achou 
um par de tesouras velhas para canhoto. Ela posicionou as lminas entre os fios da pulseira que Ali fizera para ela havia tantos anos e, com um rpido movimento, 
cortou-os. Ela no queria muito jogar a pulseira fora, mas tambm no queria deix-la no cho, onde pudesse v-la. No final, empurrou-a bem para debaixo da cama 
com a beirada do p.
        - Ali - suspirou ela. As lgrimas rolavam pelo seu rosto. -Por qu?
        Um barulho do outro lado da sala a assustou. Emily tinha pendurado a bolsa rosa que Jenna trouxera de volta na maaneta da porta do seu quarto. Ela podia 
ver seu telefone piscando, atravs do tecido fino. Lentamente, levantou-se e pegou a bolsa. Na hora em que conseguiu pegar o telefone l dentro, j tinha parado 
de tocar.
        Estava escrito no pequeno Nokia: NOVA MENSAGEM DE TEXTO. Emily sentiu o corao acelerar.
        Pobrezinha da Emily, to confusa. Eu aposto que voc pre-
        cisaria de um longo e caloroso abrao de menina agora, 
        hein? No fique muito  vontade. No est tudo acabado 
        at que eu diga que est. -A
AGRADECIMENTOS
H uma poro de pessoas a agradecer por Impecveis. Em primeirssimo lugar, ao pessoal da Alloy Entertainment, por todo o trabalho duro e a perseverana que tiveram 
para fazer deste um grande livro: o inigualvel John Bank, que lida com seu adolescente interior melhor do que qualquer pessoa que eu conheo. Ben Schrank, de cuja 
orientao editorial e estranho senso de humor sentirei muita saudade. Les Morgenstein, por suas ideias do tipo "Eureka!" para o enredo... e porque ele nos comprava 
biscoitos. E, por ltimo, mas no menos importante, agradeo  minha editora, Sara Shandler, que pode falar horas a fio sobre ces, que faz sensacionais imitaes 
de papagaio e que  a grande razo de este livro fazer sentido.
        Meu reconhecimento tambm ao extraordinrio pessoal da HarperCollins: Elise Howard, Kristin Marang, Farrin Jacobs e o restante da equipe. Todo seu entusiasmo 
incansvel pela srie "Pretty Little Liars" foi maravilhoso.
        Como sempre, meu muito obrigada e meu amor a Bob e Mindy Shepard, por me ensinarem em tenra idade que as coisas mais importantes da vida so: ser simples, 
ser feliz com o que se faz e sempre escrever comentrios falsos nos cartes de avaliao dos restaurantes.Vocs so e sempre foram pais adorveis - e combinam apenas 
as melhores qualidades dos de Emily, Spencer,Aria e Hanna.
        Agradecimentos a Ali e ao Polo, seu gato demonaco listrado, que adora morder. Beijos para Grammar, Pavlov, Kitten, Sparrow, Chloe, Rover, Zelda, Riley e 
Harriet. Estou muito feliz por ter minha prima Colleen por perto, porque ela d timas festas, tem amigas que leem meus livros e sempre aparece com os melhores campeonatos 
de "quem bebe mais". E, como de hbito, todo meu amor para Joel por ter, dentre outras coisas, coado minha costas, cuidado de mim quando eu no fazia mais sentido, 
comido cobertura de bolo direto da embalagem e assistido a programas de mulherzinha na televiso comigo, e at mesmo conversado sobre eles depois.
        Eu tambm gostaria de agradecer a meu av, Charles Vento Ele foi meio que minha inspirao para Hanna - ele tinha o hbito de "pegar coisas sem pagar por 
elas". Mas, falando srio, ele foi uma das pessoas mais amorosas e criativas que eu j conheci e sempre pensei que merecia ser um pouquinho famoso, mesmo que atravs 
da pgina de agradecimentos de um livro.
O QUE ACONTECE DEPOIS...
Voc achava mesmo que eu era o Toby? Qual ... Eu tambm teria me matado. Quer dizer, sinceramente... Eca! Ele sabia o que estava por vir. O carma no perdoa, 
e nem eu - pergunte a Aria, Emily, Hanna e Spencer...
        Vamos comear com Aria. A garota est to ocupada em ficar ocupada que eu nem consigo manter a conta dos seus namorados. Primeiro Ezra, agora Sean, e eu 
tenho mais do que uma pequena suspeita de que ela ainda no terminou com o Ezra. Isso  que  irritante em garotas artistas: elas nunca conseguem se decidir. Eu 
acho que vou ter de ajudar a pequena Aria e tomar a deciso por ela. Eu tenho certeza de que ela vai amaaaaaaar isso.
        A tem a Emily. A doce e desnorteada Emily. Alison e Toby provavelmente diriam que o beijo dela  quase igual ao beijo da morte. Mas... ops... eles no podem 
falar nada - eles esto mortos. Acho que Emi deveria prestar ateno onde ela pe os lbios. Ela  dois por dois, e a supersticiosa Emily sabe melhor que ningum 
que coisas ruins sempre acontecem em trios.
        A solitria e geniosa Hanninha. Sean a deixou. O pai a deixou. E a me, provavelmente, a deixaria se pudesse. Ser o tipo patinho feio faz voc querer vomitar, 
no ? Ou isso s acontece com a Hanna? Pelo menos, ela tem sua Melhor Amiga Para Sempre, Mona, para segurar o cabelo dela para trs. Opa, espere um segundo... no, 
ela no tem. Eu gostaria de poder dizer que as coisas no poderiam piorar para Hanna, mas ningum gosta de mentirosos. Muito menos eu.
        Finalmente, tem a Spencer. Claro, o supergnio sabe de cor as respostas das questes do vestibular, mas sua memria fica meio embaralhada quando se trata 
do desaparecimento de Alison. No se preocupe, ela est prestes a ganhar uma bolsa de estudos num curso para refrescar a memria. Uma cortesia minha. Olha eu - to 
benevolente! Isso quer dizer "legal", em vestibuls.
        Se voc fosse to inteligente quanto eu, provavelmente j teria descoberto quem eu sou. Ai, meu Deus, no ser um gnio deve ser to irritante. E eu no posso 
ajudar voc com isso - eu tenho estado com meu tempo tomado com as minhas mentirosas bonitinhas neste momento. Mas, como voc foi muito paciente, eu vou te dar uma 
dica: Spencer pode ter um 4.0, mas eu tenho As no meu nome tambm. Beijos! -A
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
